A filha da minha mãe, o filho do meu pai: o relato de uma mulher chinesa trans sobre encontrar alegria em ritos ancestrais de morte

Texto de Kai Cheng Thom, escritora, artista e assistente social, originalmente postado no Xtra.

Tradução: Kemi do Outra Coluna

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“De onde qualquer um de nós vem neste país gélido? Ó, Canadá, queira você admitir ou não, nós viemos de você nós viemos de você. Do mesmo solo, as lesmas e lodo e pântanos e galhos e raízes. Viemos do país que arranca seu povo como ervas daninhas e o atira à beira da estrada […] Nós viemos de cemitérios cheios de esqueletos com rosas selvagens entre seus dentes sorridentes.” — Joy Kogawa, Obasan

Quando os primeiros trabalhadores chineses migrantes vieram ao Canadá por volta de 1800, eles acreditavam que qualquer homem que morresse nesta terra cruel e gélida tinha que ser mandado para casa e enterrado em sua aldeia ancestral. Senão seu espírito se tornaria um “fantasma faminto”, uma alma perdida condenada a vagar neste lugar estéril eternamente.

Houve muitas almas desafortunadas — trabalhadores cujos corpos fadigados foram perdidos nos desmoronamentos de terra criados pelas dinamites usadas para construir o Canadian Pacific Railway, pessoas pobres cujas famílias não podiam pagar a passagem de volta para a China — que sofreram este destino. Eles ainda andam entre nós, dizem os mais velhos.

Hoje, no século XXI, não consigo deixar de imaginar que talvez sejamos eu e meus companheiros de segunda, terceira e quarta geração de sino-canadenses queers os fantasmas famintos. Somos destinados a viver no espaço entre pátrias: queer demais para Chinatown. “White-washed” demais para as cenas gays urbanas da China continental, Hong Kong, Taiwan — lugares onde a maioria de nós nunca viveu, de qualquer forma. Asiáticos demais para os centros gays espalhados do continente, que tanto amam os caras brancos padrão.

Meu Yeh Yeh, avô paterno, morreu seis anos atrás. Éramos próximos da forma que parentes que sempre se conheceram mas nunca realmente conversaram são, ao mesmo tempo, próximos e distantes.

Eu nunca falei para ele que eu era trans, o que eu não tenho certeza se ele teria entendido, de qualquer forma. Não sei se existe uma palavra para “trans” em toisanhua, a língua ancestral da minha família.

O cantonês e o mandarim contemporâneos têm desenvolvido uma série de termos mais ou menos equivalentes, mas meu Yeh Yeh era um homem da classe trabalhadora que cresceu na China rural durante a Guerra Civil e a invasão japonesa e que nunca frequentou o ensino médio. Ele não teria aprendido essas palavras, ou, pelo menos, é o que presumo. Acho que presumo muitas coisas sobre Yeh Yeh.

A verdade é que nunca aprendi a falar qualquer dialeto chinês muito bem. Eu conhecia Yeh Yeh desde que nasci, mas nossas conversas eram limitadas a um punhado de frases quebradas aqui e ali, em três línguas diferentes — inglês, cantonês e toisanhua. Três gerações de histórias deslizavam pelas rachaduras nas palavras entre nós, [o tempo de] duas vidas inteiras perdidas na tradução.

Mesmo assim, algumas coisas continuam sagradas, não importa o quão longe de casa você vá. Na tradição chinesa, quando um ancião morre, o primogênito de cada filho e filha do falecido carrega o caixão no funeral — primogênitos, pois é a responsabilidade patriarcal de um homem de literalmente carregar a linhagem familiar. Para a minha família, era meu papel.

Não importava que eu era, agora, uma mulher. Eu continuava sendo também o primogênito. Eu tinha um dever a cumprir, um papel a cumprir, uma obrigação de sangue. Este é o amor chinês, o amor mais verdadeiro.

*

Quero reservar um momento aqui para pontuar que brancos estão sempre pedindo para que pessoas queer não brancas lhes contem sua “história gay étnica”.

“Foi difícil se assumir para a sua família?”, eles perguntam ansiosamente, olhos brilhando com ganância. “Eles são tradicionais, ou seja, LGBTfóbicos?” (É implícito que tradições de culturas não brancas são LGBTfóbicas).

Brancos liberais adoram a história gay étnica. Ela confirma sua crença na superioridade da branquitude e ameniza sua culpa sublimada em relação à LGBTfobia e ao racismo ainda profundamente enraizados na sociedade ocidental, colonial e dominada pela branqutiude.

O que a história gay étnica omite é que descendentes queer da diáspora não são vítimas passivas das nossas famílias perversas e ignorantes; ou, pelo menos, não da forma que a branquitude gosta de nos imaginar. Nossas relações com nosso sangue, com nós mesmos, são mais complicadas que isso.

Então não creio que, quando viajei para Victoria para o funeral, deixando minhas roupas punks, queer e femmes/femininas para trás, eu estivesse sendo forçada a deixar minha feminilidade/identidade como mulher para trás também. Tirando minha maquiagem e vestindo um terno preto e gravata, para o mundo sendo o filho dos meus pais novamente, eu não estava escolhendo entre ser trans e ser chinesa. O que eu escolhi foi a força dos valores da minha família — lealdade, linhagem, o cumprimento de dever, gratidão aos mais velhos — e a mágica do ser queer: transformação, mudança, adaptação e resiliência.

Assim, talvez não seja tão estranho quanto pareça que, quando tomei o peso do caixão de palisandro que continha o corpo do meu Yeh Yeh em minhas mãos enluvadas, levantando-o com cinco de meus primos homens, foi quando me senti mais forte e mais certa de quem eu era naquela época da minha vida.

Naquele momento, naquela ilha, à distância de um oceano de onde meus ancestrais nasceram, eu soube quem eu era: a filha da minha mãe. O filho do meu pai. Uma mulher tão chinesa quanto o possível, tão forte quanto o ferro e os ossos que meus ancestrais puseram ao chão para construir a espinha dorsal desta nação colonizada, tão queer quanto a lua crescente.

É árduo andar com fantasmas sobre seus ombros, mas, quando você aprende a ouvir o que eles estão dizendo, você percebe que eles estão contando a história de quem você é.

*

Um funeral chinês tradicional termina com um rito de limpeza. Uma fogueira é acesa em frente à porta da casa do falecido e a família de luto pula por cima das chamas antes de retornar à casa.

As chamas purificam os vivos de má sorte e a fumaça leva os resquícios do espírito do falecido ao céu. Este é um antigo, antigo costume — mais antigo que a chegada do cristianismo na Ásia, mais antigo que a propagação do budismo na China, mais antigo que o taoísmo.

Minha família aproximou [este ritual] colocando fogo em alguns rolos de jornal na garagem do meu Yeh Yeh. Imagine: quarenta pessoas chinesas, abrangendo quatro gerações, com roupas de funeral, paradas em volta de uma pilha de papel em combustão numa garagem no meio do subúrbio de Victoria.

Preparando meu próprio salto sobre o fogo, abaixei minha cabeça e fechei meus olhos. Pensei sobre Yeh Yeh, as coisas que eu nunca diria a ele, as coisas que ele nunca saberá sobre mim. Distantemente, eu podia ouvir sirenes.

Então os sons não estavam tão distantes.

Correndo rua abaixo, sirenes tocando e luzes brilhando, vinha uma pequena frota de caminhões de bombeiros e viaturas de polícia. Eles chegaram à casa do meu Yeh Yeh e vários policiais uniformizados pularam dos carros.

Os idosos da família recuaram, escandalizados, as crianças correram para trás de seus pais e aqueles de nós entre 20 e 30 anos demos nossos passos à frente de forma protetiva.

Acontece que os vizinhos estavam nos assistindo pelas suas janelas e alguém ligou para a emergência. Só deus sabe o que disseram. Uma seita asiática com trajes formais está realizando um ritual satânico em frente à casa de alguém. Meus avós tinham vivido naquele subúrbio com seus vizinhos brancos por mais de 20 anos, apenas para ter os últimos ritos do meu Yeh Yeh desonrados pelo racismo.

Gosto de imaginar que meu Yeh Yeh teria rido ao saber o que havia se passado em seu funeral. Gosto de imaginar que ele teria reconhecido o que fiz por ele com uma silenciosa aprovação. Gosto de imaginar que, algum dia, contarei para ele essa história no lugar onde os ancestrais vivem, um lugar entre os mundos, onde tudo pode ser dito e compreendido.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): My mother’s daughter, my father’s son: a trans Chinese woman on finding joy in the ancestral rites of death

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