Trans[icão] no Irã

Texto de Rochelle Terman originalmente postado no World Policy Institute

Tradução de Nassim Golshan

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Quando Shadi Amin crescia no Irã pré-revolucinário, ela começou a ter desejos sexuais por outras meninas. “Eu pensava que havia algo de errado comigo”, diz ela. “Eu pensava que talvez precisasse mudar algo em min”. Por “algo”, Amin se referia não a sua identidade ou estilo de vida, mas ao seu gênero. “Se eu fosse uma jovem garota vivendo no Irã dos dias de hoje, eu consideraria fazer uma cirurgia de mudança de sexo” mesmo que nunca tenha se identificado como sendo do sexo masculino.

A maioria das pessoas que tem atração por alguém do mesmo sexo não iria de imediato pensar em se submeter à cirurgia de mudança de sexo. Mas no Irã, as opções entre a existência homossexual e a existência transexual oferecem poucas escolhas de fato. A homossexualidade, dentro de certas circunstâncias, é passível de punição com pena de morte. A transexualiade, por outro lado, é considerada pelas comunidades religiosas e médicas hegemonicamente legais, como um problema de saúde legítimo, para o qual se sanciona como cura o tratamento hormonal e a cirurgia de mudança de sexo. O governo iraniano tem encorajado tanto tais procedimentos que atualmente estes são subsidiados a quem seja designado. De acordo com estudos conduzidos pelo professor de Harvard Afsaneh Najmabadi, em 2012, o jornal iraniano Hamshahri, com sua atitude positiva, citou um documento oficial da Organização de Bem Estar Social, dizendo que 350 milhões de tomans ($ 122,000 dólares) eram investidos para cada paciente com transtorno de identidade de gênero, um diagnóstico formal para a transexualidade, incluindo assistência para tratamento cirúrgico.

A despeito dos riscos, Amin decidiu se submeter á cirurgia e por em risco sua atração sexual por pessoas do mesmo sexo enquanto mulher no Irã. Nos anos 1980, ela foi do Irã á Alemanha, depois de muitos sequestros por conta de seu ativismo político e por mais de um ano viveu reclusa. Sob exílio, Amin descobriu a “6Rang”- uma rede de iranianas lésbicas e transexuais. Mas ela continuou intrigada com o aumento das taxas de cirurgia de mudança de sexo no Irã. “Nós vimos esse notável aumento das taxas de cirurgia para mudança de sexo e nos perguntávamos, por que?”, explica Amin.

Na verdade, todas as evidências sugerem que a cirurgia de mudança de sexo no Irã tem aumentado tanto em frequência como em visibilidade pública ao longo da última década. O Irã hoje faz mais cirurgias de mudanças de sexo que qualquer outro país, salvo a Tailândia. Não só mais pessoas estão demandando a cirurgia de mudança de sexo, mas a abordagem sobre questão da transexualidade na imprensa tem aumentado desde 2003- com toda a atitude positiva em relação ao reconhecimento da transexualidade e a legalidade da cirurgia de mudança de sexo no Irã. Muitos ocidentais ficaram chocados que uma medida tão progressista pudesse ser levada a cabo por um país muçulmano tão conservador.

O Irã se difere no mundo islâmico dada sua postura paradoxal no que tange a cirurgia de mudança de sexo e a homossexualidade. Enquanto alguns países muçulmanos, como o Egito e a Malásia, permitem a cirurgia de mudança de sexo, eles também tendem a ser mais lenientes a respeitos dos comportamentos homossexuais. O Irã é a única nação que de um lado criminaliza o comportamento homossexual como uma ofensa capital, enquanto sanciona- e inclusive encoraja- a operação de mudança de sexo. “Vemos a mídia ocidental falar do Irã como se fosse um paraíso para transexuais”, diz Amin, para quem a onda de coberturas da mídia sobre a transexualidade no Irã lhe inspirou a fazer investigações mais profundas. Mesmo que Amin não seja transexual, a questão tem um valor pessoal ainda mais profundo: “Essa foi minha história também”, ela enfatiza.

DE VOLTA AO FUTURO

Najmabadi, que publicou o primeiro texto escolar em inglês sobre o assunto Professing Selves: Transsexuality and Same-Sex Desire in Contemporary Iran (sem tradução para o português), divulga a complexa história das cirurgias de mudança de sexo na região. De acordo com sua pesquisa, algumas das prévias discussões sobre a transexualidade no Irã remontam à década de 1940, enquanto cirurgias de alteração genital de condições insersexuais são registradas nas notícias da imprensa iraniana desde o início da década de 1930. As primeiras cirurgias de mudança de sexo não-intersexuais são registradas na imprensa iraniana por volta de 1973, e por volta do começo da década de 1970, pelo menos um hospital em Teerã e um em Shiraz faziam tais procedimentos. Mas em uma decisão em 1976, a Associação Médica do Irã normatizou que as cirurgias de mudança de sexo, fora casos de intersexualidade, eram eticamente inaceitáveis.

Essa norma durou até 1985 quando o Ayatollah Khomeini instaurou a fatwa, ou decreto religioso, sancionando a operação de mudança de sexo. Na verdade, Khomeini primeiro aprovou tal procedimento em 1964 no seu tratado de mestre escrito em árabe Tahrir al-Wasilha, o qual ele redigiu enquanto estava em exílio na Turquia e no Iraque. Sem surpresas, essa norma teve pouca influência política ou médica na época, e outros líderes clérigos contemporâneos não conseguiram chegar a um consenso sobre a transexualidade ou sobre a operação de mudança de sexo. Em 1985, Khomeini, nesse momento autoridade suprema inquestionável politicamente retomou sua fatwa de 1967 acerca da cirurgia de mudança de sexo, dessa vez em persa, passados anos em correspondência com Maryam Molkara, uma transexual que finalmente conseguira se reunir com ele. Certamente, nem todos especialistas religiosos, médicos, ou oficiais do governam eram (ou são) simpatizantes da operação de mudança de sexo e da transexualidade em geral. Mas o mero peso do decreto de Khomeini bastou para ratificar a lei. Ele não só foi a maior autoridade religiosa, mas também o líder da maior revolução da segunda metade do século XX.

BURLANDO O SISTEMA

Enquanto a fatwa de Khomeini decreta unilateralmente a cirurgia de mudança de sexo como aceitável, ela ofereceu pouca orientação nos mecanismos e procedimentos para realiza-la.  Como Najmabadi descreve, nos últimos vinte anos, disciplinas estreitamente entrelaçadas têm emergido dentro da legalidade da comunidade médica e religiosa no que tange a transexualidade, numa tentativa de preencher as lacunas deixadas pelo decreto de Khomeini.

Hoje, aqueles que desejam se submeter a uma operação de mudança de sexo devem percorrer um labirinto de processos burocráticos para serem reconhecidos oficialmente como transexuais. Esse reconhecimento é crucial porque proporciona proteção contra assédio policial e do risco de ser acusado de violar as estritas regras iranianas de separação de gêneros e de suas vestimentas. Uma vez que um indivíduo é reconhecido como transexual, ele ou ela devem se vestir em público como o sexo designado. Sem essa permissão, porém, indivíduos travestis serão vistos como violadores da lei. A certificação também autoriza tratamento hormonal além da cirurgia de mudança de sexo, tal como seguro saúde oferecido pelo estado, assistência financeira para a saúde e auxílio domiciliar e isenção militar. O reconhecimento oficial também abre portas para a aprovação estatal, mudança de nome após a cirurgia, a qual permite que a pessoa receba novos documentos nacionais.

Com o intuito de receber a certificação, os aplicantes devem primeiro passar pelo que Najmabadi chama de “filtração”- um processo legal de transição de gênero que envolve um período de quatro a seis meses de psicoterapia, juntamente de testes hormonais e cromossômicos. O propósito desse processo é distinguir e segregar os “verdadeiros transexuais”, para os quais os desejos por pessoas do mesmo sexo são sintomas de sua transexualidade, dos homossexuais, para os quais o desejo por pessoas do mesmo sexo é sintoma de desvio moral, que “burla o sistema”.

A preocupação com relação aos homossexuais estarem “burlando o sistema” existe porque a fatwa de Khomeini não exige na verdade cirurgia de mudança de sexo para transexuais. Ela simplesmente declara que procedimentos médicos para mudança de sexo não são proibidos tampouco obrigatórios, uma vez não havendo nenhuma diretriz sobre isso no Alcorão. Muitos têm interpretados essa conceituação como uma brecha para adquirirem status de transexual sem passarem por procedimentos de mudança hormonal ou física se eles não o desejam. A possibilidade de um trans ocupar um espaço entre gêneros continua sendo objeto de feroz controvérsia no Irã. Em suma, as leis iranianas estão assentadas na ideia de que existem somente dois gêneros e embasam muitos regulamentos dessa dicotomia estrita. Não somente o sexo determina leis familiares e vestimentas, mas determina que cursos a pessoa pode fazer na universidade, onde a pessoa pode se sentar num ônibus ou trem. Quão longe pode viajar, e inclusive por quais portas a pessoa pode passar para entrar em edifícios e aeroportos.

“Se você continua querendo se vestir como uma menina mas mantém seu corpo masculino, você não é transexual. Você é travesti. Você pode inclusive ser suspeito de ser homossexual” Disse uma jornalista conservadora religiosa a respeito de pessoas trans numa clínica num documentário em 2008 que explorava as vidas de pessoas trans iranianas, Be like others. “Maqueie sua mente – independente de você querer ser uma menina ou menino”, ela observa, então aponta ao x da questão. “É meu dever [como muçulmana] saber se alguém é homem ou mulher”.

Muitos educadores religiosos também argumentam que um processo de filtragem rígido é necessário com intuito de manter a distinção entre o transexual aceitável e o homossexual desviante. Najmabadi cita Mohammad Mehdi Kariminia, um professor universitário e clérigo em Qom, que escreveu sua tese de doutorado sobre transexuais iranianos, apresentando a visão dominante quando ele insiste que a “grande muralha da China” separa transexuais de burladores do próprio sexo. “Transexuais estão doentes porque não estão felizes com sua sexualidade então devem ser curados” diz ele. “A homossexualidade é considerada um ato desviante” e é punido por lei.

Najmabadi argumenta que o processo de filtragem tem paradoxalmente criado novos espaços sociais para gay e lésbicas do Irã – um “processo que necessita oferecer passagem segura entre categorias”. Ela menciona um homem trans pré-operado, “Uma vez diagnosticado como transexual, comecei a fazer sexo com minha namorada sem sentir culpa”. Na verdade, enquanto a dificuldade e pressão sobre transexuais não deve ser subestimada, tampouco deve ser a criatividade e determinação de minorias sexuais que de modo sagaz percorreram várias instituições de poder que tentam, e geralmente falham, em tentar determinar suas vidas.

Amin toma uma perspectiva mais cínica. “Como pode alguém ir ao médico, o qual está sob controle de autoridades, e falar abertamente sobre sua sexualidade?” Enquanto ela reconhece que algumas pessoas usam a filtragem para manter seus relacionamentos afetivos, ela argumenta que, cada vez mais, aplicantes homossexuais são persuadidos a se submetem a tratamentos permanentes (hormonal ou cirúrgico), ou outras formas de abuso arriscadas. “Mostre-me uma pessoa que oficialmente vive como homossexual no Irã”, diz ela. “Mostre-me um médico que diz, “Você realmente é homossexual. Agora pode ir em paz.”

O IMPERATIVO CONJUGAL

Enquanto não há documentações de casos de gays iranianos forçados a submeterem à cirurgia, fica evidente que a pressão de mudar de uma condição de existência homossexual para uma transexual, ou algo no meio disso, é exercida de múltiplas formas. Isso é verdade no que diz respeito ao estado estar investindo em manter uma separação entre duas categorias.

Para alguns gays e lésbicas em relações de longo prazo, a pressão para se casarem frequentemente leva à decisão de um dos parceiros transicionar como última tentativa de salvar o relacionamento. Em outros casos, as pessoas são persuadidas a se submeterem à cirurgia de transição após irem a um médico se reunirem com um oficial do governo. Durante o curso das investigações sobre a situação das minorias sexuais no Irã, Human Rights Watch falou com Payam S., que se identifica como homem gay, e explicou como sua psiquiatra tentou convencê-lo a se submeter à cirurgia:

“Fui a uma psiquiatra por conta própria o qual me ajudou. Primeiramente, ela disse, ‘você é trans e você pode facilmente mudar’. Eu disse a ela que eu sou um homem e não iria mudar. Eu gosto de homens, mas eu quero estar com um homem sendo homem e não sendo uma mulher. Eu não tenho problemas com minha masculinidade. Eu sabia que eu nunca deveria ter feito isso. Apesar de tudo, ela nunca usou o termo ‘gay’. Ela simplesmente me chamou de ‘trans fraco’.”

Devido às sanções religiosas, outros aplicantes ficam na tentação de fazer a cirurgia de mudança de sexo, especialmente aqueles que são muçulmanos devotos. Em seu livro, Najmabadi faz a relação entre o discurso religioso e o médico, o que conduz á sanção religiosa de operação de mudança de sexo para transexuais. Antes da fatwa de Khomeini, o discurso islâmico clássico categorizava todo corpo humano como masculino ou feminino, considerando-se a possibilidade de as vezes ser difícil determinar o verdadeiro sexo do corpo, como no caso de hermafroditas. Determinar corpos como masculinos ou femininos é de importância primordial, porém, porque uma sociedade moral depende tão fortemente num conjunto de regras intrincadas que governam relações entre sexos.

Avanços médicos permitiram que o sexo “verdadeiro” de um sujeito intersexual ser determinado bem como o emprego da cirurgia corretiva. A partir da década de 1960, emergiu um consenso entre os clérigos iranianos de que a cirurgia de mudança de sexo era certamente aceitável para casos de intersexualidade. Nesse meio tempo, o discurso de médicos iranianos sobre a sexualidade estava sendo fundamentado na reformulação de novos textos de psicologia e sexologia importados da Europa. Não só esses textos introduziam a transexualidade como uma condição médica independente da condição intersexual, mas também traziam uma série de tendências acadêmicas na psicologia, medicina e criminologia que assim como seus pares na Europa e nos Estados Unidos, relacionavam o desviante homossexual como violento, com tendências de estuprar, propenso a cometer assassinatos e quase sempre tendo como vítimas jovens. Na verdade, a relação entre homossexualidade masculina e estupro continua muito forte no Irã hoje em dia. Na maioria dos casos em que sentenças de morte são empregadas para crimes envolvendo relações com parceiro do mesmo sexo, as verdadeiras convicções são de estupro, frequentemente em jovens menores de idade, mesmo que a parte culpada seja o jovem menor se idade propriamente dito.

Enquanto o discurso religioso anterior considerava a transexualidade mais próxima das condições de intersexualidade, o discurso médico identifica a transexualidade como mais estreita á homossexualidade – inferindo que desejos por pessoas do mesmo sexo seja um sinal de transtorno de identidade de gênero e não homossexualidade em si. Em outras palavras, o gênero desejado é um sinal e sintoma do verdadeiro gênero e a pessoa pode somente ser inteiramente homem ou mulher, mesmo que a manifestação sexual seja ambígua. Para a maioria das pessoas o argumento se baseia na harmonia entre dois gêneros, mas em pequenos grupos, a desarmonia gera o transtorno de identidade de gênero. Não podemos mudar a alma de uma pessoa, mas avanços médicos tornam possível alterar o corpo de uma pessoa quando necessário por questões de saúde física, psíquica ou moral.

Esse conceito parece ser intrigante para qualquer um familiarizado com concepções cristãs conservadoras acerca da cirurgia de mudança de sexo que proíbem alterações na criação de deus (corpo) por ser algo pecaminoso – concepção também reproduzidas por diversos religiosos da escola sunita, e assim mais reverberada na comunidade islâmica global. Os “Simpatizante de trans” da escola de Shi’a, vasta no Irã, entendem a cirurgia de mudança de sexo como um dentre muitos atos de transformação que passamos diariamente: “Se mudar seu gênero for considerado pecado porque você está mudando a ordem divina natural, então todas nossas tarefas diárias seriam pecado”, argumenta um clérigo que fala numa conferência sobre transexualidade feita pelo Ministério da Saúde em Gorgan. “Você transforma o trigo em pão. Isso é uma transformação! Há centenas de coisas que fazemos todos os dias que mudam a natureza da ordem divina. O que não é considerado pecado?” Ele porém insiste logo em seguida na distinção entre transexualidade e homossexualidade. “Essa discussão [sobre a transexualidade] é fundamental para distinguir a discussão acerca de homossexuais” diz ele. “Totalmente inaceitável. Homossexuais estão fazendo algo não natural e contra a religião.”

ADOECIMENTO CULTURAL

Ao contrário da crença popular, a homossexualidade não é criminalizada no Irã. Isto é, atração por alguém do mesmo sexo, desejo, e identidade não são ilegais. O que é criminalizado em particular são uma séria de atos sexuais particulares que ocorrem fora do casamento heterossexual sancionado, incluindo sodomia e adultério. Dentro de certas circunstâncias, um homem convicto de sodomia, ou lavat, pode ser condenado a morte. O método de execução é determinado por uma discrição jurídica, mas geralmente é enforcamento. Se o acusado é menor de idade, e se não ocorre penetração, a sentença é convertida para chicotadas. Orientação lésbica, ou mosahegheh, é punida de modo mais leniente que relações de mesmo sexo entre homens- algo não usual no código legislativo que tão frequentemente discrimina mulheres. Aqui, a punição também é chicotadas, mas se convicta de ato homossexual pela quarta vez, independente do gênero, a pessoa será condenada à morte.

Frequentemente se diz que o código penal do Irã é baseado na shariah, ou lei islâmica – a imodificável e imutável totalidade dos comandos de deus conforme revelado pelo profeta Mohammad. É mais correto dizer que a punição é baseada na figh, ou tradicional jurisprudência islâmica. Figh, literalmente significa “entendimento”- ou seja, o entendimento humano e interpretação da shariah divina. A distinção entre shariah e figh é crucial, de acordo com o estudioso islâmico Zibar Mir Hosseini porque “alguns especialistas e políticos dos dias de hoje – frequentemente com intenções ideológicas – erroneamente tratam de modo equivalente a shariah e a figh e apresentam as regras da figh como shariah, assim como sendo divinas, logo não abertas para serem questionadas.” Tudo isso sugere o quão contraditórias podem ser as interpretações das leis islâmicas em tempos modernos. Na verdade, as primeiras relações de muçulmanos com a homossexualidade eram paradoxais. A intolerância superficial da sodomia era derivada da estória de Lut do Alcorão (equivalente ao lot bíblico), o amor inaceitável entre homens era celebrado na poesia, arte, literatura, poesia persa e em particular era retratado um significativo conjunto de homo-erotismos, com referências de amor sexual além de espiritual ou religioso amor presente nessas relações. Além disso, na maior parte do mundo islâmico, incluindo o Irã, à medida que homens (de cujas vidas sexuais tanto sabemos) performavam suas “obrigações procriativas”, a maior parte da comunidade não se preocupava muito com o resto de suas vidas sexuais, de acordo com Najmabadi.

As atitudes em relação às relações homossexuais começaram a mudar durante a era Pahlavi (de 1925 a 1979), quando um conjunto de políticas foram implementadas que visavam transformar o Irã de uma sociedade dependente e tradicional para um Estado-Nação independente tendo a Europa como modelo. O Irã criminalizava a sodomia como uma tentativa de encorajar o estilo europeu de família nuclear e de sensibilidade sexual. Em 1979 a Revolução Iraniana sugeriu que a infiltração de unidade familiar constituída como o modelo mais potente de imperialismo cultural conduzido pelas forças ocidentais para controlar o Irã. Assim, uma das primeiras tarefas logo após a revolução foi acabar com as leis sobre pessoas, status e família do Xá, substituindo-as por códigos penais como parte de uma campanha “anti-corrupção” para limpar a sociedade pós-revolucionária de qualquer infiltração das relações de gênero “ocidentais”, especialmente transgressões sexuais como adultério, fornicação, prostituição e homossexualidade. O sexo fora do casamento se tornou punível por apedrejamento. De fato, o crime de adultério ainda garante maior punição que crimes de assassinato no código penal islâmico (criado em 1983) uma vez considerado crime contra a base do novo estado islâmico.

Nesses dias, porém, o discurso oficial sobre a sexualidade tem sido cada vez mais tomado pela perspectiva médica. “Nos últimos dez anos, onde quer que o governo fale de sexualidade, eles falam de um tipo de problema de saúde psicológica- transtorno de identidade do gênero”, diz Amin. “Tudo se trata do transtorno de identidade de gênero. E se você o tem só há uma solução – mudar seu sexo”.

KHOMEINI, KHAMENEI, FREUD

Enquanto os decretos religiosos, especialmente a fatwa de Khomeini merecem os maiores créditos por legalizar a transexualidade, a comunidade médica tem desempenhado maior papel em legitimar a transexualidade como problema de saúde enquanto mantém a homossexualidade como desvio e crime. Na verdade, contudo, o tratamento para a transexualidade e a homossexualidade no Irã se assemelham mais com o discurso moral, legal e médico dos Estados Unidos e da Europa de meados do século XX do que com o do início do Islã.

Longe de evitar inovações da ciência, medicina e tecnologia modernas, os formadores da República Islâmica tentaram integrar esses sistemas de conhecimento como parte de suas tentativas de construir um “Estado Islâmico Moderno”, um processo conhecido dentro do Irã como intebag (conformidade). Najmabadi apropriadamente coloca isso ao descrever uma conferencia médica iraniana que ela frequentou em 2006: “Em uma parede havia retratos agrupados dos Ayatollahs Khomeini e Khamenei- uma visão familiar em todos os edifícios do estado e em muitas empresas privadas. Em uma parede próxima estava o retrato de Freud.”

Najmabadi explica a seguir como o consenso entre as comunidades médica e religiosa acerca da transexualidade é uma das conquistas mais celebradas da conformidade no Irã pós-revolucionário. Médicos reiteram com orgulho a distinção entre homossexualidade e transexualidade – somente eles articulam tais diferenças com um médico, não religioso, mas de léxico. Não só a comunidade médica iraniana apoia essa distinção, mas também há suspeita de lucros em cima disso. Na última década, a indústria da saúde no que diz respeito a cirurgia de mudança de sexo teve um boom. Várias clinicas abriram especialmente para atenderem pacientes trans, a maioria em Teerã. O Irã assumiu o não previsível papel de líder global da mudança de sexo, tornando-se, segundo a revista The Guardian, “um imã para pacientes da Europa Oriental e dos países árabes em busca da mudança de gênero.” O aumento da visibilidade pública tem elevado o número de operações – Najmabadi diz que muitos transexuais, especialmente vindos de cidades provincianas de fora de Teerã descobrem tais clínicas e apoio estatal para transexuais através de coberturas da imprensa.

Alguns médicos construíram carreiras inteiras na cirurgia de mudança de sexo, ascendendo à fama internacional como “heróis” da comunidade transexual iraniana. Entrevistas, documentários e registros apresentam esses médicos frequentemente como detentores do poder de “consertar” erros da natureza e de “salvar” vítimas da natureza, as vezes numa abordagem megalomaníaca. Num registro intitulado Purgatory of the Body: Surgeon’s Memoirs of Transsexuals in Iran (Sem tradução para o português), o Dr. Shahryar Cohanzad escreve: “Por anos eu canalizei meu conhecimento e experiência em desenvolver técnicas cirúrgicas capazes de tirar esses vagabundos da existência da escuridão e da ambivalência… diretamente compartilhando a dura responsabilidade de retificar esse erro de uma natureza não tão frágil.” No documentário Be like Others, Dr. Bahram Mir Jalalo recebe créditos por solidificar a distinção entre trans e homossexuais e legalizar a transexualidade no Irã. “É curioso que a homossexualidade é um crime capital, regido e severamente punido com apedrejamento” ele observa. “Por que, então eles dão permissão para os transexuais? Eu posso te dizer que um do pioneiros nessa forma de ver os transexuais nos últimos vinte anos fui eu.”

Atrina, uma mulher trans, de 27 anos, que acredita que muitos trans desesperados para passarem pela cirurgia de mudança de sexo são explorados, conta ao Human Rights Watch:

“Há alguns médicos que tiram vantagem de amigos que não tem dinheiro para pagar a cirurgia. Esses médicos não se importam se os pacientes realmente sabem se querem ou deveriam passar pela mudança de sexo, se a cirurgia é feita apropriadamente ou quais as possíveis complicações. Há médicos que são capazes de abaixar o preço da cirurgia, mas mantém elevando os preços e promovendo a si próprios sob falsas intenções. Pacientes trans são como um apoio para esses médicos obterem maiores lucros.”

A última tendência na comunidade médica é a terapia de aversão para homossexuais -inspirada novamente pelas pesquisas psiquiátricas americanas que rotineiramente faziam tratamentos com o intuito de eliminar a homossexualidade nas décadas de 1960 e 1970. A terapia de aversão geralmente envolve expor o paciente a certos tipos de estímulos, como fotografias homoeróticas, enquanto simultaneamente submete o paciente a aprisionamento, choques e dores. Um artigo recente no Iranian Journal of Forensic Medicine relata casos “bem sucedidos” de ex-homossexuais curados com a terapia de aversão. A Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos e a Organização Mundial de Saúde, nessa mesma época, condenaram a terapia de aversão como meio de alterar a orientação sexual.

TRAUMA PÓS CURA

A despeito da larga aprovação de solução cirúrgica para casos de transgêneros entre médicos, religiosos e oficiais do governo do Irã, é evidente que a sociedade iraniana ainda é hostil em relação a ideia da transexualidade. Na verdade, pessoas trans iranianas enfrentam muitos dos mesmos desafios que seus pares ocidentais – rejeição dos familiares, dificuldades de ter estabilidade num emprego, violência sexual, abuso policial, estigma social e depressão. Um número significativo de mulheres trans, em particular, recorrem ao sighet, sanção religiosa de “casamento temporário”, para poderem sobreviver. A maioria da sociedade iraniana considera esses casamentos temporários como uma forma de sancionar legalmente a prostituição, uma vez que elas usualmente se envolvem em relações de troca de sexo por dinheiro em certos períodos de tempo, no mínimo de uma hora.

Enquanto o governo iraniano continua investindo em infra-estrutura médica para as cirurgias de mudança de sexo, há pouco apoio para os pacientes pós operados, e ainda menos para os familiares da pessoa trans. Mesmo que pais evitem permanentemente seus filhos trans, eles frequentemente enfrentam muita vergonha de vizinhos e colegas de trabalho. Familiares frequentemente acham mais fácil mudar de bairro ou cidade onde ninguém saiba que têm um filho ou filha trans.

Embora a maioria das narrativas tendem a focar na transição de mulheres, provavelmente devido a um forte estigma contra homens gays passivos, Amin enfatiza que homens trans enfrentam sua própria parcela de sofrimento. Ela se apoia em muitas histórias de mulheres lésbicas masculinizadas que transicionaram somente para manterem relação com suas parceiras mulheres sendo “homens de verdade” após a cirurgia. Devido à complexidade e custo da cirurgia para homens trans, muitos destes são abandonados em um estágio incompleto de transição.

No fim, a maior fonte de apoio aos trans iranianos são uns aos outros. Transexuais tendem a se encontrar e formar relações familiares alternativas e apoiar as comunidades. Frequentemente eles vivem juntos e se ajudam a encontrar emprego, obter medicamentos (especialmente hormônios comprados no mercado clandestino) e passarem legalmente por processos burocráticos. A internet tem sido de grande ajuda nesse quesito. Numerosos grupos online tem sido formados para ajudar trans (e homossexuais) iranianos de forma mútua, especialmente aqueles que vivem fora de Teerã. Enquanto muitas discussões nesses fóruns focam na sobrevivência cotidiana, também fornecem plataformas de ativismo e estratégia política.

ATIVISMO, ALIANÇA E AMBIVALÊNCIA

Nesses fóruns online e em outros espaços seguros, o ativismo em torno das minorias sexuais no Irã ganha forma. Enquanto autoridades têm os meios para rastrear usuários da internet, eles raramente têm como intenção priorizar esses fóruns online, permitindo uma relativa associação mais livre. Na verdade, novas e mais fortes alianças entre transexuais e gays iranianos tem começado a emergir nos últimos anos. Mas as lições tiradas dessas alianças permanecem incertas, especialmente estando relacionadas com políticas ocidentais em direção aos direitos de comunidades gays, lésbicas e trans do Irã.

Segundo escreve Najmabadi, “Enquanto lutas de identidade se enfureceram dentro da diáspora transnacional de comunidades iranianas, muitos gays, lésbicas e transexuais no Irã desejam  manter políticas nacionais e internacionais fora de suas vidas diárias”. Nos dias de hoje, muitos trans iranianos enfrentam resistência frente à exposição internacional de suas vidas e lutas, vendo tais esforços como potencialmente importantes às necessidades dos iranianos transexuais propriamente ditos. Todos muito frequentemente vêem os iranianos transexuais do Irã transformados em objetos de piedade, enquanto décadas de transativismo são ignoradas a favor de um foco exclusivamente direcionado às instituições do estado e da religião.

Outros comentaristas têm insistido no perigo de uma intervenção ocidental nas políticas e identidades sexuais dos iranianos. Scott Long, primeiro diretor do Programa de Direitos LGBTs e do Human Rights Watch, argumenta que ativistas gays e lésbicas do ocidente frequentemente reduzem o contexto da violação de direitos no Irã em pesquisas sobre identidade gay e homofobia. Não só tais rótulos são geralmente inapropriados (em muitos casos, a pessoa do centro das controvérsias nem se identifica como gay), eles podem ser mortais.  A homossexualidade é, depois de tudo, um crime capital no Irã. Long também aponta completa caracterização da religião, cultura e especialmente do Islã nesse tipo de ativismo, reduzindo todos os maus tratos de minorias sexuais ao entendimento de que “o islã odeia gays”. Muitos ativistas LGBTs ocidentais desinformados retratam o Irã e o islã em geral como homofóbico – um estereótipo que não vale para todas as realidades.

Muitos ativistas iranianos, contudo, permanecem abertos à possibilidade de se firmar no Irã um movimento político queer, mesmo que tal ativismo seja importado do ocidente. “Nós [iranianos] importamos tudo”. Diz Amin. “Nós importamos carros. Nós importamos remédios. Quem disse que não podemos importar direitos humanos? Não importa de onde esses direitos vêm.” E há aqueles que acham mais promissor haver mudança dentro das próprias instituições que muitos leigos clamam pelo dilema de em primeiro lugar- interpretações religiosas, conhecimentos médicos e reformas fragmentadas estarem no bojo das políticas domésticas iranianas.

Se há um consenso sobre a proteção de minorias sexuais no Irã, é que as pessoas que encabeçam tais tentativas são as mais afetadas. Considerando os muitos paradoxos que caracterizam a situação de lésbicas, gays e trans no Irã, somente estes têm o conhecimento requisitado e o vislumbre das mudanças positivas. De fato, o envolvimento de partidos estrangeiros, particularmente dos Estados Unidos ou da Europa, possivelmente sabota tentativas locais. Tais envolvimentos reforçam estereótipos perniciosos de que direitos sexuais são importações vindas do ocidente. Em vez disso, movimentos locais por direitos sexuais estão fazendo lobby por vias práticas desesperadamente por concessões necessárias como acesso a moradia, serviço de saúde, proteção de assédio policial. Eles estão elaborando vantagens estratégicas dos debates atuais sobre a transexualidade para avançarem a diálogos longe do discurso centrado na cirurgia de mudança de sexo.

Na verdade, o avanço mais promissor por mudança deve ser o cultural – havendo abertura para conversação sobre a sexualidade para além do discurso governamental sobre cirurgia de mudança de sexo e do transtorno de identidade de gênero, e adentrando tabus como orientação sexual. Considerando o bloco de juventude mente-aberta e altamente comprometido do Irã – 60% de 73 milhões de pessoas do Irã estão abaixo dos trinta anos de idade – algumas formas de mudança cultural devem haver, e virão antes que muitos imaginem. Se as políticas do Oriente Médio nos ensinaram algo é que causas sem esperanças podem mudar da noite para o dia. E quando se trata de sexualidade no Irã, o que é considerado tabu hoje pode ser muito encorajado amanhã.

 

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Matéria original (Em inglês): Trans[ition] in Iran

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