Como os testes de HIV da China perseguem de maneira desleal homens gays

Tradução do texto de Sun Zhipeng originalmente postado no Sixth Tone

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De acordo com o anúncio oficial da China sobre a epidemia de HIV/AIDS, a média nacional de casos de HIV é baixa, porém, certas regiões e grupos populacionais são mais afetados que outros. Desde 2005, o HIV tem sido transmitido principalmente através de contato sexual, seguido por compartilhamento de seringas por usuários de drogas.

Homens que fazem sexo com homens (HSH) estão entre os “grupos de risco” que mais aumentam na atual luta contra o HIV na China, especialmente jovens. Enquanto as autoridades públicas de saúde tem tomado cuidado em distinguir “gays” de “HSH” ao falarem sobre esse tópico, os dois termos são comumente utilizados de maneira intercambiáveis tanto na mídia como no dia-a-dia. O Dia Internacional de Combate a AIDS tem sido uma oportunidade histórica para que o grupo de pessoas afetadas possa falar abertamente dos progressos que foram alcançados e também dos desafios que eles encaram.

No dia primeiro de dezembro de 2004, o Ministério da Saúde da China publicou um artigo pioneiro sobre a homossexualidade, reconhecido como o primeiro documento oficial que reconhece a homossexualidade na sociedade chinesa. O relatório estima que existem entre cinco a dez milhões de homens gays sexualmente ativos na China. A decisão de publicar tais dados no Dia Internacional de Combate à AIDS provavelmente serviu para enfatizar o terrível aumento de infecções por HIV na comunidade homossexual, em especial entre homens gays.

Um dia depois do lançamento do relatório, o canal CCTV colocou no ar um programa intitulado “Encarando a homossexualidade invés de ignorá-la”. Assim como o relatório, acredita-se que esse foi a primeira vez que uma discussão sobre homossexualidade foi televisionada pelo canal mais poderoso da China. No ano seguinte, o programa da CCTV “News Probe” apresentou uma reportagem intitulada “Em nome da vida”, que explorava os desafios de homens homossexuais e o HIV/AIDS. Um participante, que usou o pseudônimo Da Wei, falou sobre a sua dupla identidade: “Meu nome é Da Wei. Eu sou gay, e eu sou HIV-positivo”.

Até hoje, autoridades tem focado intensamente na comunidade gay quando se fala em esforços contra o HIV. O medo do público – especialmente entre heterossexuais – tem transformado o tema em um taboo. Muitos também carregam uma imagem negativa sobre homossexuais, estereotipando gays como promíscuos ou pervertidos, e afirmando que as suas atitudes vão contra a natureza humana. Alguns ainda afirmam que o HIV é uma punição pelo comportamento sexual imoral da comunidade homossexual. Em qualquer programa de TV focado sobre homossexualidade, o tema sobre HIV com certeza irá aparecer, e vice-versa.

Ao passar do tempo, uma aparente comparação entre gays e o HIV foi sendo criada. Depois que a comunidade gay foi identificada como um “grupo de risco” na luta contra a disseminação do vírus, um acordo foi estabelecido entre comissões de saúde e planejamento familiar por todo o país. Tanto Centros Chineses de Controle e Prevenções de Doenças e organizações não governamentais se dedicaram no tratamento da comunidade gay (coloquialmente conhecidos como “grupo de camaradas” por causa da gíria chinesa para pessoas gays).

Grupos de camaradas tem trabalhado arduamente para deter a disseminação do vírus dentro da comunidade gay e desafiar a noção de que ser gay, ou HSH, é a mesma coisa que ter HIV ou AIDS. Eles tem consistentemente lutado contra as tentativas de categorizar gays como um grupo de alto risco, que é percebido como uma maneira de estigmatizar a comunidade gay. Eles argumentam que não existem “grupos de risco”, mas sim “comportamentos de risco”. Por exemplo, os grupos de camaradas afirmam que pessoas de todas as comunidades fazem sexo sem o uso de camisinha, e gays não são os únicos que tem comportamentos sexuais que oferecem risco de contaminação de HIV.

Nos últimos anos, o governo chinês tem se esforçado para fortalecer a conscientização a respeito do HIV e adotar medidas práticas para deter a sua disseminação. Em todos os Dias Internacionais de Luta contra a Aids, de 2007 até 2009, o então presidente Hu Jintao visitou pessoas que pessoas que vivem com o HIV. Recentemente, Peng Liyuan, esposa do atual presidente Xi Jinping, foi nomeada embaixadora da prevenção do HIV/AIDS da ONU. Esses esforços foram voltados para eliminar o estigma que existe sobre a doença, debater sobre a discriminação sistemática de pessoas HIV-positivas, e oferecer àqueles que foram contaminados um espaço igualitário dentro da sociedade. No entanto, essas pautas práticas, por mais idealizadas que sejam, parecem não se estender aos homens gays como um todo.

Durante a minha pesquisa em colaboração com Centros de Controle e Prevenção de Doenças e um grupo anônimo de camaradas, eu pude observar que o estigma de ligar automaticamente HIV/AIDS com homens gays é tanto estrutural como internalizada.

Apesar da homossexualidade ter sido descriminalizada na China continental, e, até certo ponto, despatologizada, a postura oficial a respeito da homossexualidade ainda é de “Não apoio, não oponho, não promovo”. Devido a falta de apoio político e educacional, a comunidade gay continua a ser marginalizada, e o entendimento público sobre a homossexualidade continua impreciso.

Como um dos setores públicos que mais relacionou HIV/AIDS com a comunidade HSH, o sistema público de saúde tem grande poder de influenciar o discurso público sobre o tema. E detêm uma grande influência sobre as atitudes tomadas a respeito do HIV como sobre a homossexualidade masculina.

Em algumas publicações acadêmicas sobre saúde pública, “homossexualidade” é listada como uma rota direta para a transmissão de HIV. Esse ponto de vista é compartilhado por vários médicos dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Uma doutora que eu entrevistei expressou a opinião de que “desde que você não seja gay, e não faça sexo com outro homem, você não irá contrair o HIV”. Centros Nacionais categorizam homens gays como um grupo que necessita realizar o teste de HIV regularmente. Mas ultimamente, essa atenção seletiva somente reforçou a crença de que todos os homens gays necessitam de intervenção e supervisão médica.

Em um workshop recente, um médico especializado em HIV/AIDS observou que as comunidades afetadas pelo vírus diferem de lugar para lugar, assim como as vias de transmissão; na China, os maiores índices de infecção são normalmente entre homens gays. Mas, isso não é um problema de probabilidade, tem relação com quem é testado. Ele descreve que testes recentes são direcionados à comunidade gay, identificando um número específico de indivíduos HIV-positivos. Mas essa metodologia não foi aplicada em outros grupos, como por exemplo, mulheres em situação de prostituição, porque elas são mais difíceis de serem identificadas do que homens gays.

Os Centros fazem uso de contatos dentro da comunidade gay e de grupos de camaradas para promover o teste de HIV. Esse trabalho envolve ir até áreas frequentadas por homens gays e distribuir camisinhas, promover serviços educacionais e oferecer testes gratuitos de HIV. Enquanto tais esforços possam parecer bem intencionados, até certo ponto, eles ainda refletem a pensamento de que a comunidade inteira de homens gays são um grupo de risco, independente se eles se envolveram ou não em práticas sexuais de risco.

O paradoxo é que muitos grupos de camaradas que se esforçam para retirar o estigma sobre a homossexualidade estão de fato contribuindo com o estigma. Como colocado por um líder de uma ONG “a natureza das políticas nacionais implica que a maioria do nosso trabalho se concentra na comunidade gay, e não em heterossexuais e em outros grupos”.

Grupos de camaradas são em grande parte financiados por Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Como resultado, eles estão inscritos, mesmo que indiretamente, dentro de um sistema de discriminação contra homens homossexuais. “Mesmo eles afirmando que são contra a estigmatização” complementa o mesmo líder de uma ONG “Até onde as ONG se preocupam… dinheiro naturalmente é a coisa mais importante para elas, então esses problemas irão acontecer”.

A comunidade gay também internalizou uma série desses estigmas. Durante o meu trabalho de campo em Centros de Controle e Prevenção de Doenças, eu percebi que a maioria dos indivíduos que se auto-identificavam como membros da comunidade HSH tiveram conversas semelhantes com médicos ao realizarem o teste. Médicos perguntavam porque eles estavam realizando o procedimento, enquanto, depois de um longo silêncio, os pacientes falaram de maneira visivelmente desconfortável: “Eu sou gay”.

Lembrando que somente indivíduos que mantiveram comportamentos sexuais de risco precisam realizar o teste de HIV. Se um homem heterossexual manteve relacionamentos sexuais de alto risco fizesse o teste, ele responderia à pergunta do médico dizendo que “Eu sou hétero”? Obviamente que não. Ele afirmaria que estava realizando o teste porque manteve relacionamentos sexuais sem proteção.

Muitos homens gays, mesmo os que praticam sexo seguro, se auto estigmatizam mesmo sem perceber. “Se você é gay, você precisa realizar o teste de HIV”, respondeu um dos entrevistados. Influenciado pela clima social, a comunidade gay tem aceitado a noção de que eles são, por natureza, um grupo de risco. Para muitos, a sua identidade está conectada fortemente com o HIV e sua profilaxia.

Relacionamentos heterossexuais ocupam uma posição dominante na sociedade, e pessoas heterossexuais moldam como o discurso público sobre HIV/AIDS é na China. Um resultado desse fenômeno é a visão distorcida de que um homem gay ter grandes chances de contrair HIV é porque, pelo menos na China, ele não pode casar e por isso não consegue institucionalizar um relacionamento monogâmico com um parceiro não contaminado pelo vírus.

Essa lógica falha aumenta outros preconceitos. Muitos assumem que todos os homens gays têm muitos parceiros sexuais em um período curto de tempo, privilegiando promiscuidade sobre intimidade. Na realidade, noções chinesas de sexo e intimidade estão passando por uma grande transformação, e relacionamentos extraconjugais em relacionamentos heterossexuais, relacionamentos de apenas uma noite, e relacionamento com prostitutas não são comportamentos incomuns. Durante meu trabalho de campo, eu vi que a grande maioria dos homens que foram aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças realizaram o teste depois de ter relações heterossexuais, independente do seu estado civil.

É claro que alguns homens gays da China mantém relacionamentos sexuais casuais, e isso nos oferece rasões para se preocupar. Um homem soropositivo me disse: “Quando camaradas se reúnem, tende a ser algo como ‘eu e você, você e eu, ele e ele”. Sexo acontece e tudo vira uma confusão”. Sim, ele está descrevendo um comportamento sexual de risco. Não, isso não se aplica a todos os homens gays, aqueles que se envolvem em tais atos são um grupo dentro de um grupo.

Entretanto, a comunidade gay continua sendo um ponto injustificado das preocupações dos especialistas em saúde pública, assim como o grupo que mais é chamado para realizar o teste regularmente. Constantemente gays ouvem que, apesar da sua sexualidade é legal, ela está rodeada de um imaginário sórdido de infecções e de HIV e que isso não é algo para se orgulhar.

A grande escritora e ativista americana Susan Sontag uma vez escreveu: “Todas as epidemias que causaram medo, mas especialmente aquelas relacionadas ao relacionamento sexual, gera uma preocupante distinção entre aqueles que carregam a doença e os que são o ‘público geral'”. HIV não é diferente. Na China, muitos ainda descriminam pessoas soropositivas de maneira severa – acreditando que elas receberam a doença como forma de punição pelo seu comportamento perverso – e coloca de maneira desleal o holofote em um grupo que experiencia a doença de maneira semelhante de outros tipos de pacientes.

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Matéria original (Em inglês): How China’s HIV Testing Unfairly Targets Gay Men

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