Porque homossexuais taoistas buscam ao Deus Coelho

Tradução do artigo de Ho Yi originalmente postada no Taipei Times.

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Em uma tarde nublada, dois homens em seus 20 anos entram em um despretensioso templo situado em um prédio residencial na cidade de Yonhe (永和市). “Nós já viemos aqui antes. Nós conhecemos o caminho” eles dizem ao assistente do monge, e se direcionam ao altar no segundo andar. Alguns minutos depois, um jovem desce as escadas para ter a sua sorte lida por Lu Wei-ming (盧威明), o monge taoista, ou fashi (法師). Lu estabeleceu e cuida desse templo, conhecido como o Templo do Coelho (兔兒廟), que adora o Deus Coelho (兔兒神) – o Patrono dos homossexuais.

Essa deidade não é muito conhecida, nem comumente adorada, mas ela é baseada em uma figura histórica. De acordo com os Contos do Deus Coelho que aparecem em Zibuyu (子不語), uma coleção de histórias sobrenaturais escritas pelo estudioso e poeta da dinastia Qing, Yuan Mei (袁枚, 1716-1798). Hu Tianbao (胡天保) era um oficial do século 18 da dinastia chinesa de Qing. Ele se apaixonou por um belo jovem inspetor imperial da província de Fujian, mas por causa do alto status do inspetor, Hu temia revelar os seus sentimentos. Depois que Hu foi pego espionando o inspetor através das paredes do banheiro, ele confessou a sua admiração pelo inspetor, que puniu ele à morte por espancamento. Um mês depois desses acontecimentos, Hu aparece nos sonhos de um homem de sua cidade natal, e ele afirmava que o rei do submundo havia declarado ele o Deus Coelho. E assim, ele teria o dever de governar os assuntos relacionados a homens que desejam outros homens. Em seu sonho, ele pede para o homem criar um templo para ele.

Como monge, Lu comumente ouvia reclamações de homossexuais taoistas de que não havia nenhuma deitada para a qual direcionar as suas orações. Acreditando que a sua missão era atender as necessidades daqueles que são alienados da sociedade, ele então reviveu essa deidade esquecida. Assim como a sua pesquisa aponta, Hu era uma figura histórica nobre que viveu em Fujian no final da dinastia Ming até o início da dinastia Qing. Porém, de acordo com Michael Szonyi, professor associado de história chinesa do departamento de línguas e civilizações do leste asiático da Universidade de Harvard, o Deus Coelho é pura invenção de Yuan, o poeta, já que a imagem de tal deidade não aparece em nenhuma fonte de Fujian.

Apesar de alguns aspectos da história poderem ter sido fabricados, a existência do culto de Hu Tianbao em Fujian no século 18 está bem documentada em registros oficiais de Qing.

Raízes históricas

No “Culto de Hu Tianbao” e no “Discurso sobre a homossexualidade no século 18”, que foi publicado no periódico “Late Imperial China” em 1998, Szonyi discute sobre os relatos usada pelos governantes em suas campanhas contra seitas religiosas. A relato dao por Zhu Gui (朱珪, 1731-1807), um coletor de impostos que descreveu a iconografia do culto como “dois homens se abraçando, o rosto de um é um pouco velho, e o outro jovem e pálido”. Ele falou que os adoradores “ao verem homens jovens tinham desejos te ter relações sexuais com eles, e eles oravam por ajuda aos ídolos de pedra… Depois eles ofereciam intestino de porco e açúcar à boca dos ídolos como agradecimento”.

Registros oficiais posteriores sugerem que essa seita estava ativa no século 19, mas como apontado por Szonyi, a maior evidência vem de decretos imperiais oficiais que tentaram reprimir essa prática, então é impossível afirmar como a deidade era entendida do ponto de vista de seus adoradores.

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