Pessoas Queer e Trans no cinema Iraniano: Entre representatividade, repartição e fantasias orientalistas

Tradução de um texto originalmente postado no Ajam Media Collective

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O conceito de um cinema queer iraniano pode soar contraditório ou impossível, mas é exatamente assim que podemos descrever Facing Mirrors (2011), o primeiro filme a apresentar uma mulher trans como personagem principal em um filme escrito, produzido e filmado no Irã. Dirigido por Negar Azarbayjani e produzido por Fereshteh Taerpour (Duas diretoras cis), Facing Mirrors conta a improvável história da amizade entre Adineh (“Eddy”), um homem trans de classe média do Teerã lutando para fugir das garras do seu pai transfóbico, e Rana, uma modesta e devota mulher da classe trabalhadora que trabalha como motorista para poder pagar as dívidas do seu marido que está na prisão e poder providenciar a sua fiança.

 

Esse filme ganhou inúmeros prêmios e indicações em 64 festivais internacionais de filmes ao redor do mundo – mais notavelmente o Special Jury’s Crystal Simorgh Award no 29º Festival Internacional de Fajr e o Oustanding First Feature Award do 36º Festival de Cinema de São Francisco. Ele também recebeu resenhas entusiasmadas de críticos de cinema iranianos e do público do país.

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Facing Mirrors (2011) Poster Oficial

Apesar de pessoas trans que procuram transicionar são legalmente aceitas no Irã, elas não são visíveis na cultura popular. A aceitação legal começou quando um fátua foi declarado pelo Aiatolá Khomeini em 1978, que se tornou base para o regime legal de como lidar com questões trans. Hoje, não só o governo reconhece as pessoas trans, mas também financia e apoia aqueles que não conseguem arcar com os  gastos de hormônios e cirurgias de transgenitalização, e mais recentemente, ordenando que empresas de seguro cubram o custo de tais operações.

No entanto, o aspecto surpreendente dessa história não é a resposta positiva de críticos e do público iraniano, mas a falta de cobertura da mídia ocidental de um filme internacional tão bem sucedido. Seria de se esperar que um filme sobre pessoas trans no Irã se tornaria uma manchete instantânea, especialmente se considerarmos a abundância de notícias, editoriais e espaços em canais de televisão dedicados em criticar o terrível registro de violações dos direitos humanos da Republica Islâmica do Irã, em especial dos direitos das mulheres, minorias e indivíduos LGBT.  Na realidade, um outro filme, Circumstance (2011), escrito e dirigido pela diretora irano-estadosunidense Maryam Keshvarz, que conta a história de amor de duas adolescentes iranianas – Atefeh e Shireen – presas entre um governo repressivo e uma sociedade intolerante, foi imediatamente recebida pela grande mídia. Ele gerou múltiplos artigos, resenhas e críticas, incluindo uma entrevista no AfterEllen.com, um popular site dos Estados Unidos sobre cultura lésbica pop.

 

 

A falta de cobertura de Facing Mirrors nos Estados Unidos cria um completo contraste com a larga atenção da mídia dada para Circumstance, que é o resultado direto do efeito orientalizador do olhar ocidental sobre indivíduos do Oriente Médio. Historicamente, alguns homens europeus que entraram em contato com o Oriente Médio fantasiaram e denunciaram a vida sexual privada de homens e mulheres do Oriente Médio, especialmente espaços homoafetivos. Mulheres europeias, por outro lado, procuram salvar suas “irmãs” orientais que elas veem como oprimidas pela sua religião e homens orientais, como foi elucidado pela professora de Harvard, Leila Ahmed, em seu livro Woman and Gender in Islam (Mulher e gênero no islã). Essas atitudes sobre pessoas do Oriente Médio continua nos dias de hoje, um exemplo disso pode ser encontrado no filme Circumstance cuja recepção pública positiva no ocidente nasce desse conformismo do imaginário orientalista do Ocidente, enquanto o filme Facing Mirrors desestrutura e desafia a narrativa hegemônica e orientalista sobre as minorias sexuais do Iran, e por isso é ignorado e excluído do domínio público artístico e cultural.

Sujeitos orientais de circunstâncias

De acordo com a diretora de Circumstance, que nasceu no Irã e foi criada nos Estados Unidos, Keshavarz, a inspiração de fazer o filme veio da falta de filmes no Irã “ou no mundo islâmico” que tratassem sobre temas da sexualidade feminina. Essa declaração não poderia estar mais distante da verdade, já que existe uma quantidade enorme de filmes do Oriente Médio e do Norte da África, sem falar do sul e leste asiático que tratam especificamente de temas a respeito da mulher, sexualidade, relacionamentos, e problemas domésticos como Caramel (2007), The Girl in the Sneakers (2001), The Circle (2000), The Last Supper (2002) e muitos outros.

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Circumstance (2011) Poster oficial

Filmado no Líbano, Circumstance parece ser inautêntico para o público iraniano a quem ele se propõe a dialogar. Desde o sotaque fortemente americano dos atores quando estes falam persa (já que a maioria deles cresceu nos subúrbios americanos) até as cenas naturais e urbanas do Irã e o figurino dos personagens e a decoração das casas, existem muitos momentos onde existe uma desconexão entre o que o filme retrata e a realidade iraniana. Por exemplo, durante uma cena em que do carro das duas garotas é parado por uma patrulha policial, as garotas gritam “Comité!” – um termo que literalmente significa “O Comitê”, que se refere ao então conhecida policia da moral dos anos 80 e início dos 90. No entanto, comités deixaram de existir há muito tempo e a então chamada “polícia da moral” é conhecida como gasht-e ershad ou “Patrulha de Orientação”.

Além dos muitos erros técnicos, o filme também tem recebido críticas de lésbicas e feministas iranianas por ser extremamente raso e se assemelhar mais ao esteriótipo exótico da fantasia orientalista do que mostrar a realidade da vida lésbica do Irã. De acordo com Mahboubeh Abbasgholizadeh, uma ativista feminista iraniana, o filme causou a fúria de inúmeras feministas e lésbicas iranianas, porque ele falhou em mostrar a realidade marginalizada de mulheres lésbicas iranianas. É indispensável perceber que Circumstance não foi feito para dialogar com um público iraniano, mas o seu público alvo é o Ocidente, em especial os Estados Unidos. De fato, quando Abbassgholizadeh afirma que “espremer sexo e a violência de um governo opressor e temas semelhantes servem para deixar o filme mais excitante”, ela está se referindo a longa história de usar corpos queer do Oriente Médio e suas sexualidades para satisfazer as fantasias orientalistas de espectadores euro-americanos.

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Cena de amor entre Atefeh e Shireen em Circumstance

Historicamente, muitos europeus que entraram em contato com o Oriente Médio normalmente fantasiavam sobre a vida “além do véu” nos “haréns” orientais, que vieram a simbolizar a vida sexual secreta de mulheres do Oriente Médio. “Em Circumstance, o público testemunha sob o aquele mesmo olhar que objetifica os corpos de mulheres”, escreve Leila Mouri, uma ativista pelos direitos das mulheres do Irã, jornalista e candidata a Ph. D. na Universidade de Columbia. É essa revelação das vidas secretas de mulheres queer do Oriente Médio que servem às fantasias e prazeres de homens que a reduz a mero objetos do olhar e consumo de um público euro-americano.

O maior ponto fraco de Circumstance é a falta de subjetividade das duas protagonistas, Atefeh e Shireen. Da representação de uma cena erótica de dança do ventre em slowmotion até as festas cheias de álcool, drogas e sexo do Teerã, Atefeh e Shireen são apresentadas como meros objetos sexuais (queer) em oposição de sujeitos donos de seus próprios destinos. É certo que a chamada do filme no site oficial, orgulhosamente proclama em letras claras: “Liberdade é um Direito Humano”. Porém, no filme, as lutas das mulheres (queer) iranianas por liberdade política e social se reduzem a beber, participar de festas, tocar música alta e xingar os “Mullahs”. Apesar do desejo por liberdade social ser importante, a sua representação rasa no filme simplifica e ofusca lutas sociais, políticas e econômicas iranianas mais importantes, e transforma a sua agenda política e sua complexa análise da situação politica e social invisível. Para o público ocidental, no entanto, os orientais nunca possuíram uma agenda para começar, e por isso, podem existir como meras vítimas das circunstâncias.

Refletindo nos espelhos

A falta de subjetividade em Circumstance é contrastado pelos personagens fortes e complexos de Facing Mirrors. Quando o pai transfóbico de Eddy, a protagonista, descobre as suas intenções de adquirir um passaporte e sair do paós, ele tenta prender Eddy; porém, Eddy escapa com algum dinheiro e uma mochila nos ombros, que o coloca no caminho de se encontrar com Rana. No filme, invés de ser retratado como a imagem estereotípica de uma mulher oriental oprimida, o espectador é confrontado com cenas de rebeldia, resolução, compaixão, e complexidade. Por exemplo, quando a “Patrulha de Orientação” para Eddy e uma de sua amiga enquanto dirigiam, ao invés de gritar, Eddy desafia o policial e tenta (sem sucesso) entregar a carteira de motorista do seu irmão como se fosse a dele. Essa cena oferece um relance da complexidade que marca o espaço de desafio e negociação entre a juventude iraniana e os aparatos de segurança nacional. A atitudes de “homem forte” de Eddy é, no entanto, atenuadas pela sua suavidade e a sua dor e solidão é revelada em uma potente cena de choro em um banheiro.

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Rana e Eddy dividem uma refeição e seus sonhos no meio da estrada em Facing Mirrors

Rana, que é devota e vem de uma realidade modesta, tem os seus próprios momentos de confronto e luta. Ela revela que, quando era menina, um dos seus sonhos era aprender a dirigir e poder ser auto-suficiente. Mas, ao invés de ser reduzida a uma vítima desamparada quando o seu marido é mandado para a prisão, ela desafia a sua sogra prepotente (que não acredita em mulheres dirigindo), e parte para realizar o seu sonho ao transportar passageiros para juntar dinheiro suficiente para cuidar do seu filho e pagar a fiança do marido. Ao invés de objetificar mulheres e corpos queer para servir à fantasias orientalistas, Facing Mirrors a natureza resiliente e criativa das mulheres iranianas e de minorias de gênero que lutam pela liberdade e a sobrevivência se torna possível através das suas próprias organizações. Essas cenas oferecem uma representação mais complexa do que liberdade significa para aqueles marginalizados pela sociedade, e ela confronta a narrativa mono facetada de vítimas desamparadas presas sob um regime repressivo apresentado pela mídia ocidental.

Desestabilizando o Orientalismo

O fato de que Circumstance capturou a imaginação da mídia hétero e queer ocidental enquanto Facing Mirrors recebeu pouca ou nenhuma atenção, revela muito sobre o poder cultural do imaginário orientalista. Além disso, a falta de cobertura da mídia sobre Facing Mirrors nos Estados Unidos se justapõe com a abundância de atenção da mídia iraniana onde ele foi objeto de debates e críticas positivas desde o seu lançamento.

Mesmo que Facing Mirrors não tenha recebido permissão oficial de ser apresentado em cinemas iranianos até o dia 24 de outubro de 2012 – quase um ano e meio depois do seu lançamento em festivais internacionais – críticos de cinema, jornalistas, blogueiros, e noticiários estatais iranianas começaram a comentar e reportar sobre o seu gritante sucesso ao redor do mundo quase que imediatamente. Também foi sujeito de muito debate em blogs do Irã e sites de notícias onde muitos jovens iranianos discutiam as questões sociais, culturais e políticas do dia. Esse filme foi ainda apresentado na Universidade Mofid em Qom, uma cidade extremamente religiosa conhecida pelos seus seminários. Depois de um painel com os produtores e atores do filme, estudantes e professores dos seminários islâmicos aplaudiram o filme pela sua representação da realidade de pessoas trans no Irã. Esse é uma prova de que apesar das restrições e problemas de censura no Irã, o público está aberto para debater e discutir uma variedade de tópicos, incluindo aqueles sobre sexo e identidade de gênero.

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Shayesteh Irani (Eddy), Ghazal Shakeri (Rana), Fereshteh Taerpour, Negar Azarbayjani, e Dr. Kariminia, professor da Universidade Mofid de Qom e especialista em leis trans em um painel sobre Facing Mirrors e problemas que pessoas trans tem no Irã.

O grande sucesso do filme, no entanto, está no fato de que entrou para sempre no espaço público social, cultural e político do Irã onde inseriu uma narrativa empática e provocativa sobre pessoas queer no imaginário público, tocando em um taboo de maneiras que Circumstance nunca iria conseguir. Com a sua história humorística e humana,  Facing Mirrors consegue não apenas tocar o coração do público, mas também explora as noções preconcebidas do espectador sobre pessoas trans de uma maneira que não é nem moralista nem pesada, ao mesmo tempo que se mantém uma representação sincera da realidade trans no contexto da sociedade e cultura iraniana. Diferentemente de CircumstanceFacing Mirrors tem o poder de confrontar, desafiar e continuar o processo de desenraizar o preconceito na cultura iraniana, e potencialmente abrir espaços públicos para discussão de outros tabus socio-culturais no futuro. Facing Mirrors está, de fato, tornando queer a imagem exótica de objetos orientalistas para um público ocidental, ao mesmo tempo que humaniza iranianos e contextualiza as suas lutas.

Infelizmente, a cultura de massa ocidental considera tal complexidade como contrária a narrativa orientalista de mulheres e pessoas queer muçulmanas oprimidas que precisam de salvação. Por isso, filmes como Facing Mirrors se encontram perdidos na cultura e no espaço público ocidental onde tais nuances são invisibilizadas ou ignoradas. Com certeza, Facing Mirrors não apenas colocou luz em problemas da sociedade iraniana, mas também levanta um espelho que e expõe e corrompe o imaginário orientalista do ocidente, e pavimenta o caminho para um novo e complexo entendimento do Oriente Médio.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Queer and Trans Subjects in Iranian Cinema: Between Representation, Agency, and Orientalist Fantasies

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