A posição de Taiwan na História Trans

Tradução do texto de Howard Chiang originalmente postado no Taiwan Insight.

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Uma nova era na história trans se iniciou. Assim como a maioria dos campos de estudos históricos que emergiram na virada do século , o estudo de experiências trans do passado tem sido influenciada por toda a história cultural e social que a envolve. O clássico de Leslie Feinberg, Transgender Warriors: Making History from Joan of Arc to Dennis Rodman (1996) fala sobre a crescente institucionalização de “transgênero” como  um termo guarda-chuva, unindo diferentes noções acadêmicas sobre diversidade de gênero.

O objetivo do livro era de que pessoas que atravessaram as fronteiras das noções de gênero sempre existiram historicamente. Ele veio como uma resposta para dois problemas urgentes no campo de história queer: Os interesses hegemônicos de gays e lésbicas (e historiadores) e as consequências da carência de interesse sobre temas trans, que implicitamente fortaleciam a marginalização de indivíduos que não se encaixavam no padrão normativo de gênero dentro da história queer. No início do século XXI, historiadoras como Joanne Meyerowitz e Susan Stryker investigaram com profundidade as relações entre as demandas de pessoas trans, a cultura popular, a ciência médica, e o estado.

Através da história trans, alguns indivíduos tendem a roubar os holofotes. Uma dessas, Christine Jorgensen (1926 – 1989) foi a que deixou as mais profundas impressões. No início dos anos 50, Jorgensen viajou para a Dinamarca para realizar a cirurgia de transgenitalização. Ao retornar aos Estados Unidos, ela se tornou uma celebridade e tornou-se uma glamourosa estrela que promovia a conscientização das causas trans. Ela trabalhou com o seu endocrinologista, Harry Benjamin (1885-1986), que ajudou a trazer o debate sobre o tratamento de pacientes trans ao público. Em 1966, Benjamin publicou a primeira monografia acadêmica conhecida sobre transsexualidade, The Transsexual Phenomenon. Em um período onde a maioria dos médicos eram hostis aos pedidos de pacientes trans, Benjamin se destacou como um raro aliado.

Recentemente, historiadores tem começado a se a afastar dessa narrativa central da história trans que roda em volta de Jorgensen-Benjamin. O livro de Alison Oram Her Husband was a Woman!: Women’s Gender-Crossing Modern British Culture (2007) mostra que o poder da tecnologia médica em transformar o sexo foi amplamente debatido na Inglaterra dos anos 30.

A maioria dessas cirurgias foram realizadas pelo cirurgião endocrinologista Lennos Ross Broster (1889 -1965) no Hospital de Charing Cross em Londres. É lógico que histórias de operações de “mudança de sexo” já circulavam pela Europa antes disso. Mas foi o trabalho de Broster que estimulou um entendimento de mutabilidade do sexo mais firmemente baseado nos estudos endocrinológicos. O livro Professing Selves: Transsexuality and Same-Sex Desire in contemporary Iran (2013) de Afsaneh Najmabadi retirou a nossa atenção da narrativa estados-unidense ao examinar como religião, ciência, lei, cultura popular e ativismo trabalharam para permitir que pessoas trans transformassem o Irã em um estado islâmico habitável para elas.

Foi nesse crescente diálogo sobre a história global trans que meu livro, After Eunuchs: Science, Medicine, and the Transformation of Sex in Modern China (2018), se inclui. O livro analisa a história da “mudança de sexo” na China desde o fim dos eunucos no final da era Qing até a emergência da transsexualidade na guerra fria taiwanesa. Uma das descobertas mais surpreendentes que surgiram durante essa pesquisa foi que a imprensa taiwanesa manteve um longo interesse na história de “Christine da China Livre, Xie Jianshun, nos anos 50. Nascida em Chaozhou, na região do Cantão, no dia 24 de Janeiro de 1918, Xie chegou em Taiwan com a armada nacionalista em 1949. Quando a sua condição como intersexo foi confirmada em um hospital de Tainan, doutores iniciaram uma série de cirurgias de “mudança sexual” e afirmavam que eles tinham transformado o sexo de Xie com sucesso. Em referência a Jorgenser, o apelido de Xie, “Christine chinesa” reflete a influência da cultura estados-unidense na República da China no pico da guerra fria. Como resultado do sensacionalismo que a mídia colocou sobre Xie, jornalistas taiwaneses começaram a relatar cada vez mais intensamente histórias de transgressão de gênero, intersexualidade, e outras condições médicas do corpo.

Existem duas contribuições que surgem da minha narrativa da história de Xie. Primeiro, ao incorporar esse episódio sobre o reconhecimento de pessoas trans dentro da história da China, eu não estou fazendo uma declaração política de que Taiwan deveria naturalmente ser compreendido como parte da China.

Na realidade, muito ao contrário. No final do livro eu concluo que as comunidades sinófonas (falantes de língua chinesa) como Taiwan começaram a colocar elementos de modernidade colonial (por exemplo, Japão) como mediadores na transposição de categorias sexuais e identidades políticas sobre a cultura chinesa. De tal forma que o relançamento de uma Taiwan trans através do caso de Xie tem como intenção focar no contexto histórico e político entre Taiwan e a República Popular da China. E dessa forma, ela tem como objetivo chamar a atenção para as potenciais formas de reconhecer pessoas queer na nossa escrita de uma “China” ou “Taiwan” do passado.

E em segundo lugar, a história de Xie oferece um conto cautelar sobre narrativas da história global trans que são feitas através de uma retórica homogênica que presume a replicação da saga de Jorgensen em diferentes partes do mundo. O que isso mostra na realidade é que o maleável registro do próprio conceito de transexualidade. É um desperdício de oportunidade ao simplesmente ignorar o poder da analogia entre a Christine estado-unidense e chinesa. As diferenças entre Xie e Jorgensen – e outras histórias de indivíduos trans ao redor do mundo – as torna únicas. Está na hora de colocar para trás abordagens rígidas ao conceituar corpos trans, e a própria transgeneridade, e a maneira como as historiografamos elas no século XXI.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Taiwan’s place in Global Trans History

Resistência e subversão: Movimentos Queer pela Ásia – Cazaquistão

Pessoas Queer e Trans no cinema Iraniano: Entre representatividade, repartição e fantasias orientalistas

Vida na morte, Vida após a morte: A história de uma das pioneiras do movimento LGBT taiwanês

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