Como eu aprendi a aceitar a minha sexualidade como mulher muçulmana

Tradução do artigo de Fariha Róisín originalmente postado na Teen Vogue.

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Quando eu era uma jovem adolescente eu não entendia porque eu me sentia atraída por todos os sexos, não somente àquele oposto ao meu. Eu frequentei uma escola só de meninas e eu sentia que os corpos ao meu redor floresciam com tamanha intriga. Sexo era uma coisa disforme e vaga que ninguém queria desembrulhar. Como um elefante na sala, era como um osso preso na minha garganta. Eu queria saber como era o sexo. Eu queria saber como era o sexo para todos. Vinda de uma família muçulmana, eu nunca senti qualquer tipo de pressão para me tornar algo em específico, mas sentia uma pressão em ser de-sexualizada. Eu sentia o meu desejo como um rubor que subia todo meu corpo. Eu não sabia porque eu me sentia atraída por todos, de que qualquer pessoa poderia me excitar.

Então as coisas mudaram.

Quando eu tinha 14, ou 15, eu li um artigo na seção de literatura do jornal Sydney Morning Herald. O Sydney Morning Herald é um jornal australiano de alcance nacional que o meu pai nunca lia, mas que acidentalmente começou a receber diariamente. O artigo era sobre LGBT no Islã. Parecia que eu estava quebrando o sistema.

O artigo falava sobre as questões LGBT particularmente entre líderes muçulmanos, como Abu Nuwas, um líder do que hoje seria o Irã; Al-Amin, o sexto califa Abbasid; Mahmud de Ghazni, líder do império Ghaznavid; e até mesmo o famoso Mehmed o Conquistador (o famoso sultão otomano que viveu no século XV). Esses homens, historicamente, eram todos conhecidos por terem preferências por homens, significando que eles tiveram relacionamentos homoafetivos.

As ilustrações do artigo era a de dois homens, e eu reconheci que eram no tradicional estilo de arte Mughal. E eles estavam se abraçando, de uma maneira carinhosa, um abraço familiar, como dois rouxinóis, curvados sob um sobre o outro, lábios pensativos, olhos encantadores, e sobrancelhas grossas. Eles se pareciam comigo. Eu estava transfixada, seduzida, e comovida. Quando você é jovem, você anseia por qualquer coisa que explique quem você é, e você a procura como uma regalo proibido.

Poesia e arte sobre o amor entre dois homens eram bastante naturais, ou mesmo normais, no mundo islâmico. Mesmo os poemas do poeta muçulmano mais famoso, Rumi, fala sobre o seu amor com o seu melhor amigo Shams de Tabriz. O amor entre eles é quase hagiográfico. É algo definitivo.

A Enciclopédia sobre o Islã e do Mundo Muçulmano afirma que:

Qualquer que fossem as limitações sobre as relações sexuais, a expressão positiva de sentimentos homoeróticos na literatura era aceita, e assiduamente cultivada, desde o final do século VIII até os tempos modernos. Primeiro em árabe, mas depois também em persa, turco e urdu, poesias de amor escritas por homens sobre meninos competiam com aquelas sobre mulheres, e superavam em quantidade. Anedotas reforçavam essa impressão de uma aceitação pública que celebrava o amor entre dois homens (que caricaturas ocidentais da sociedade islâmica na idade média e início da idade moderna simplesmente exageravam).

Enquanto eu lia isso, por alguns segundos maravilhosos eu percebi que eu não era anormal. Sentimentos de maldade são comumente projetados em qualquer coisa que não entendemos, e mesmo eu não tendo sofrido uma intensa perseguição da minha sexualidade, eu sempre a senti de maneira persistente. Eu sempre senti o rubor ficar mais intenso quando eu sentia o olhar de uma mulher sobre mim, e mesmo eu ser obcecada por meninos, meus pensamentos sobre mulheres era muito mais intenso, como uma ferida que era ao mesmo tempo dolorida e prazerosa ao toque.

Eu nunca tinha me considerado como gay, ou bissexual, ou queer – ou qualquer outra dessas classificações. Eu simplesmente me considerava eu, uma adolescente.

Eu fui para uma escola só de meninas com o meu uniforme rosa e eu tinha crushes em todos os lugares. Uma menina chamada Cynthia que era algumas séries mais velha que eu se parecia com Chris Martin, em uma época que eu gostava de Chris Martin. Eu tinha 13, e o Coldplay ainda não tinha começado a lançar músicas de rock/pop ruins.

Então, eu me apaixonei pela minhas professoras de história. Senhorita O, minha professora de história antiga – solteira; Minha professora de história de moderna, senhora C – casada (e em um determinado momento, grávida); uma garota chamada Lauren que era cinco anos mais velha que eu. Então eu me apaixonei pela minha melhor amiga, cujo nome significava “cor” em japonês, ela era perfeita – e então foi isso.

Veja, simultaneamente, enquanto eu explorava a minha sexualidade, trabalhando por meio período para a Oxfam e Anistia desejando salvar o mundo – eu era também uma criança muçulmana normal. Eu fazia o jejum, eu aprendia os suras, eu lia o Corão, aprendia árabe, e eu tive um extremo fortalecimento da minha fé em Deus (E eu ainda tenho).

Minha trama de trabalho sobre a minha sexualidade não me parecia uma antítese da minha religião. Na realidade, eu senti o meu amor por deus, pelo Islã, pelos profetas, como um acompanhamento do meu amor por explorar o meu ser – e o mundo que me rodeava. Eu não penso que elas eram coisas mutualmente exclusivas. Eu simplesmente sabia que as pessoas não entenderiam.

Eu nunca fui aberta sobre a minha sexualidade com ninguém. Eu sabia que eu gostava de homens, mas que eu gostava de mulheres também. Como isso era possível? Aos 14, eu contei para uma amiga branca “Eu acho que sou bissexual”, mas ser tão sincera sobre algo tão pouco compreendido me pareceu insensível sem as devidas explicações. Eu realmente não tinha nada a dizer sobre isso, mas eu realmente sentia que eu tinha que reconhecer essa parte de mim, porque eu era realmente diferente (marrom, muçulmana) e eu não queria adicionar a minha sexualidade para essa lista.

Eu me senti vigiada por causa disso. Eu entendi que existia um taboo, por causa de todas as coisas da minha vida, eu sentia que a sociedade – as pessoas – iriam eventualmente me enxergar do meu jeito. Eu era uma jovem criança incomumente cheia de esperanças. Eu sabia que em algum momento eu conseguiria dar voz a esses sentimentos.

Ela nunca me perguntou sobre a minha bissexualidade novamente.

Em um período em que ser muçulmana é ser policiada, o publico perde o envolvimento racional com o Islã, e isso confunde muçulmanos (jovens e velhos) a pensar que existe alguma verdade nessas máximas. Então, ou eles disputam o Islã em uma tentativa de alinhá-lo com a “modernidade” (normalmente jovens muçulmanos) ou eles abraçam esses pontos de vista, acreditando que se Deus diz que mulheres são inferiores – então isso deve estar certo (normalmente muçulmanos mais velhos). Nenhum desses dois lados decidiram pesquisar por si mesmos, eles simplesmente decidiram alegremente em acreditar o que outras pessoas disseram a eles. Ignorância é uma benção.

Se nós não podemos manifestar publicamente a nossa fé, se nos dizem que estamos errados, então como poderemos nos amar de maneira sincera e aceitar tudo o que somos? Por muito tempo, por causa da minha própria vergonha, eu diluí a minha existência. Era muito aterrorizante para mim ser tudo o que eu era, então eu escolhi somente partes de quem eu sou para me expressar, e então escondi todo o resto.

O que aconteceu no mundo muçulmano depois do 11 de Setembro causou mais danos para o psicológico de muçulmanos do que qualquer outra coisa. Os sentimentos de raiva que eu tinha de mim mesma se amarravam aos sentimentos de não ser bem vinda. Todas as pessoas racializadas já sentiram isso de algum modo – o sentimento de ser vista como completamente errada, e temer que a qualquer momento alguma pessoa possa falar para você o quanto feia e inútil você é. Nessas circunstâncias nós fazemos um whitewash (lavagem em branco) de nós mesmas na esperança de sermos aceitas.

De maneira subliminar (e algumas vezes de maneira gritante) nós somos ensinadas de que branco é bom, branco é bonito, branco é melhor – então nós nos adaptamos para agradar ao opressor. Nós acreditamos nas falas do opressor sobre nós então, sim, nós passamos a desejar a mudança e nós desejamos ser iguais a eles.

Até que a gente não deseja mais. Até que nós percebemos que existe uma grande beleza na nossa existência, assim como nós somos.

Eu entendo que foi a minha escolha viver o Islã da maneira que eu acredito, enfatizando na humanidade, na nossa humanidade. Que Deus é o único juiz, e como humanos nossa responsabilidade é não destilar ódio, mas amar uns aos outros de uma maneira holística e profunda. Eu sou muçulmana porque acredito em Deus – e por isso eu acredito na sua misericórdia, na sua gentileza. Eu não acredito que a religião deva ser puritana, ou dogmática – esse nunca foi o design de religião para mim. Mesmo quando criança, quando sermões mortais eram lidos na minha frente sobre o fogo do inferno e sobre o medo, isso nunca fazia sentido para mim. Deus para mim sempre representou o melhor da humanidade – o melhor da nossa insignificante humanidade. Deus é melhor que todos nós.

Não há muito tempo um bom amigo muçulmano escreveu para mim: “Eu demorei muito para acreditar em uma divindade que nos criou imperfeitos, pessoas instintivas, e então iria nos punir por sermos imperfeitos e instintivos. Isso me parecia demasiado cruel. Deveria existir mais amor do que isso. Parece-me importante, então, que o Deus do Corão é comumente referido como o Todo Misericordioso. Eu penso na capacidade que nós, humanos, temos para a misericórdia. O número de pessoas que perdoamos diariamente: nossos pais, por não serem quem desejamos que fossem, nossos irmãos, nossos amigos excêntricos, nossos amantes imemoráveis, nossos terríveis vizinhos, nossas próprias partes corrompidas. Se a misericórdia de meros humanos se parece com isso, então a misericórdia divina deve ser capas de muito mais”.

A coisa mais inteligente que Nietzche já disse foi: “Não existem fatos, somente interpretações”.

Essa é a minha interpretação do Islã. Eu acredito que é mais poderoso resistir ao ódio do que afundar e se sucumbir a ele. Eu acredito que é mais poderoso amar aquilo que nós não conhecemos, ou entendemos, do que desprezá-los. Eu sempre pensei na fé como uma prática altruísta. Amar os outros, sem desejar recompensas, é o paraíso.

Por muitos anos eu acreditava nas minhas próprias aversões. Eu me culpava pela minha sexualidade, acreditando que era isso que eu deveria fazer. Que ser eu, ser completamente eu, era algo demoníaco, e eu me odiava por isso. Eu estava perdida, eu estava aterrorizada, e eu estava infeliz e em um constante ciclo de auto-mutilação.

Em retrospectiva, eu desejaria que alguém tivesse dito: Deus fez você desse jeito, ame a você mesma. Se nós ensinarmos as pessoas a amarem elas mesmas por quem elas são – naturalmente – eles irão amar outros também. Quando você pode aprender a curar todas as partes quebradas dentro de você, quando você se aceita e o porque de você estar aqui, você pode conseguir ter uma existência mais profunda. Odiar é se esgotar. Tenha em mente a sua própria mortalidade, e a importância de se perdoar – o resto virá de maneira natural.

Ser Queer, e aceitar essa etiqueta para mim, fala sobre sobrevivência. É sobre o poder que nós adquirimos quando palavras são atribuídas a nós sem o nosso consentimento. Quando o termo correto chega até você, é libertador, como um grande suspiro de alívio. Se as pessoas não te entendem, é porque elas provavelmente não precisaram entender. Elas nunca tiveram que se explorar de uma maneira (ou talvez tiveram, mas estão em negação) como você teve que se explorar. Como Barthes afirma: “Todos devemos nos pluralizar, refinar, continuamente”. Não tenha medo de tudo que recai sobre você. Acredite no processo da vida. Acredite em Deus.

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Links relacionados:

Matéria original em inglês: How I Learned to Accept My Queerness as a Muslim Woman

Pessoas Queer e Trans no cinema Iraniano: Entre representatividade, repartição e fantasias orientalistas

Shawn Ahmed, ativista muçulmano queer, fala sobre orgulho, Orlando e fé

 

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