Shawn Ahmed, ativista muçulmano queer, fala sobre orgulho, Orlando e fé

Tradução da matéria de Graham Gremore originalmente postada no Queerty.

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Shawn Ahmed é um blogueiro e ativista canadense de ascendência bangladeshiana que fundou o “The Uncultured Project” (“O projeto desculturado” em tradução livre), que foca no uso de mídias sociais para o bem social. O seu trabalho foi reconhecido pelo The World Economic ForumSave the Children, e pelo The Webby Awards. Ao longo dos anos, ele tem sido uma voz importante para muçulmanos LGBTQ ao redor do mundo. Ele mora em Toronto.

Sendo um homem muçulmano abertamente gay, o que significa a Parada do Orgulho para você?

 

Crescendo dentro do armário em uma família conservadora de bangladenses muçulmanos, eu nunca tive a permissão de participar da Parada do Orgulho. O mais próximo que eu já havia chegado era ver cenas da parada passando na TV antes dos meus pais me pegarem e insistirem para que eu mudasse de canal. Mesmo essas meras cenas foram muito importantes para mim. Uma das coisas que mais me marcaram foi ver que muitos dos nossos oficiais do governo e até mesmo policiais estavam participando da Parada do Orgulho.

Minha família emigrou de um país onde a homossexualidade é um ato criminoso. Minha família segue uma fé onde muitos acreditam que a punição por ser gay deve ser a morte. Crescendo, e vendo imagens de lideres e policiais caminhando lado a lado com pessoas que a minha família e a minha comunidade religiosa acreditava que iriam ao inferno significava que eles eram meus aliados, mesmo que aqueles próximos de mim não fossem.

Descreva a sua primeira Parada do Orgulho.

Minha primeira participação em um evento principal da Parada foi ano passado (2016). Pela primeira vez na minha vida, eu fui capaz de finalmente participar das atividades Parada do Orgulho de Toronto ao invés de ficar assistindo de longe. A Parada na realidade caiu no mês sagrado do Ramadã então eu estava de jejum durante todas as atividades da Parada. Estar de jejum significou que eu tive que desistir da oportunidade de caminhar durante a Parada com meus amigos.

Durante as atividades da Parada do ano de 2016, Omar Mateen realizou um tiroteio em um clube gay de Orlando. Depois, você escreveu um comovente artigo que foi amplamente compartilhado pela internet. Com a aproximação do aniversário de um ano do evento, quais são os seus pensamentos sobre a tragédia e suas consequências?

Orlando está a mais de mil quilômetros de distância. Eu nunca imaginei que um tweet iria trazer essa tragédia tão para perto de mim. Condenar o ataque como um muçulmano abertamente gay atraiu muito ódio e ameaças de morte de outros muçulmanos. A grande maioria da comunidade muçulmana não tem feito nada para condenar a homofobia. Muitas ou condenam ou apoiam essa discriminação. Existem também aqueles que veem a homossexualidade como  algo da sociedade “ocidental” (e os avanços dos direitos LGBTQ em países de maioria muçulmana como uma invasão ocidental). Não é de se surpreender que, seja em Bangladesh, Orlando, Manchester, e agora em Londres, islamistas ataquem pessoas LGBTQ.

Todos os dias eu sou grato de morar em um pais onde a policia está comprometida em proteger pessoas como eu. É um privilégio que muitos muçulmanos LGBTQ não tem, mas deveriam ter.

Quais são as percepções equivocadas mais comuns que a comunidade LGBTQ tem sobre muçulmanos LGBTQ? Como você responde a esses equívocos?

Muçulmanos LGBTQ encaram as mesmas percepções equivocadas que muçulmanos cis-héteros encaram – intolerância, racismo, sexismo, e islamofobia. E eleitores do Trump. A comunidade LGBTQ não é inclusiva e positiva como nós pesnamos que é. Muitos dentro da nossa comunidade assume erroneamente que, por eles serem uma minoria, eles não podem prejudicar outras minorias. Responder essas percepções é difícil para a maioria dos muçulmanos LGBTQ. Nós temos que superar o fardo de superar tais equívocos tanto dentro da comuniade LGBTQ como na comunidade muçulmana.

O que você pretende fazer para as atividades desse ano (2017)?

O que eu irei fazer para essa parada é o que eu faço todos os anos: serei muçulmano e serei gay. Como muçulmano, do modo que eu interpreto minha fé, eu acredito que nós precisamos fazer do mundo um lugar melhor. Parte disso significa que nós precisamos entender melhor uns aos outros.

Nós precisamos entender que, dentro da comunidade LGBTQ, nem todo mundo está bem. Ataques contra pessoas LGBTQ é algo real. Islamofobia é real. Racismo anti-negro é real. Racismo estrutural é real. A Parada do Orgulho não é só uma celebração mas também um movimento político em busca de justiça.

Nesse ano, a Parada do Orgulho de Toronto provavelmente irá acontecer em um feriado sagrado muçulmano, o Eid alFitr. É o dia que muçulmanos ao redor do mundo celebram o fim do longo jejum do mês do Ramadã. Como um muçulmano gay, não posso deixar de ver isso como algo promissor. Eu estarei celebrando tanto como um homem gay, como muçulmano.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Queer Muslim activist Shawn Ahmed reflects on Pride, Orlando, and his faith

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