Vida na morte, Vida após a morte: A história de uma das pioneiras do movimento LGBT taiwanês

Tradução da resenha de Wing-Fai Leung originalmente postada no Taiwan Insight.

_____________________________________

A escritora taiwanesa Qiu Miaojin (1969-1995) cometeu suicídio em Paris com 26 anos de idade, deixando pra trás uma variedade de contos e duas novelas, Notes of a Crocodile (1994 – “Notas de um crocodilo”) e Last Words from Montmartre (1996 – “Últimas palavras de Montmartre”). Ambas as novelas são hoje reconhecidas como parte do cânon literário lésbico. Elas foram recentemente traduzidas para o inglês (por Bonnie Huie e Ari Larissa Heinrich respectivamente) e publicadas pelo New York Review of Books (NYRB) Classics. A série inclui somente quatro obras da literatura moderna e contemporânea chinesa, as outras duas são trabalhos de Eillen Chang. Notes of a Crocodile foi adicionada a longa lista do Prêmio PEN de Tradução de 2018.

Qiu se formou na Universidade Nacional de Taiwan e partiu para Paris com o objetivo de continuar seus estudos em 1994. Em determinado momento, ela estudou com a feminista francesa Hélèn Cixous, que influenciou grandemente a escrita de Last Words from Montmartre. Qiu ficou fascinada com a cultura e literatura moderna da Europa, e ela adorava os filmes de Andrei Tarkovsky e Theo Angelopoulos, e a escrita vanguardista dos trabalhos do japonês Kobe Abe. Lendo Notes of a CrocodileLast Words form Montmartre podemos examinar o envelhecimento de identidades políticas queer em Taiwan durantes os anos 90.

O seu trabalho também reflete os interesses cosmopolitanos dos intelectuais da vanguarda. Assim como outras figuras públicas ela morreu tragicamente jovem, Qiu tornou-se então um mito. Foi largamente especulado pela mídia taiwanesa que ela teria se esfaqueado até a morte com uma faca de cozinha. Ela aparentemente teria sido “inspirada” pelo suicídio de outro autor japonês da década de 70, o seppuku, morte ritualística por  evisceramento, de Yukio Mishima.

Em um artigo para o Kyoto Journal, Bonnie Huie escreveu que Notes of a Crocodile “pretendia ser um manual de sobrevivência para adolescentes, de uma certa idade em que ler o livro certo pode salvar vidas”. A protagonista/narradora Lazi conta a história de uma lésbica saindo do armário em Taipei. Lazi tornou-se então um sinônimo de lésbica em chinês (Lala na China). A amiga da protagonista representa a inebriante vida boêmia do período; Elas são ricas, descuidadas e de gênero fluido.

220px-qiu_miaojin
Qiu Miaojin

A novela documenta a nova sensibilidade que marca o fim do Período das Leis Marciais (1949-1987). Ela também reflete as políticas estudantis, que foram fortemente influenciadas pelo Movimento dos Lírios Selvagens de 1990: Uma manifestação estudantil de seis dias pela democracia. Apesar da narrativa parecer imatura em alguns lugares, é na exploração da personagem central de Qiu, e sua experimentação com gêneros – parcialmente como diário e parcialmente ficção com aforismos – que retrata as intenções não conformistas da autora. O crocodilo na novela, disfarçada de humano, é um eufemismo para os corpos queer que são isolados e marginalizados. Ao mesmo tempo, existem também seções que questionam diretamente a normatização de identidades de gênero:

“É baseado na binaridade de gênero, que surgem da dualidade do yin e yang, ou algum mal indizível. Mas a humanidade diz que é uma construção biológica: pênis vs vagina, pelos no peito vs seios, barbas vs cabelos compridos. Penis mais pelos no peito mais barba é igual à masculinidade, vagina mais seios mais cabelos compridos é igual à feminilidade. Homens se conectam em mulheres como chaves em fechaduras, e como produto dessa união, bebês são lançados para fora” (p.4)

Qiu esta escrevendo em um período onde a florescente cena lésbica de Taiwan ainda estava limitada no binário T/po (tomboy butchfemme). A autora claramente lutava em se identificar dentro desse binarismo ao mesmo tempo que contemplava a sua própria identidade lésbica, enquanto o seu trabalho continuava a problematizar os limites discursivos entre gênero e sexualidade.

“Como eu naturalmente amo mulheres, a mulher que eu amo não precisa do pré-requisito de ter uma orientação sexual que ama mulheres… Eu não acredito que o meu desejo por, ou a união com, mulheres é de alguma forma diferente de quando um ‘homem’ deseja uma ‘mulher'”. (Letters from Montmartre)

As intensas e emotivas cartas presentes em Last Words from Montmartre foram escritas como se Qiu tivesse a premonição sobre a própria morte, com uma dedicatória que aparenta ser insuportavelmente sentimental e ao mesmo tempo cruamente honesto.

Para o pequeno coelho morto

e

Mim mesma, em breve morta

As cartas se endereçam diretamente ao leitor como “você”, o objeto de amor perdido Xu, que supostamente está em um relacionamento de três anos com o alter ego da autora Zoe e que a traiu. O coelho em questão é o animal de estimação adorado pelo casal, cuja morte dois meses antes do suicídio de Qiu deixou-a devastada. Com essa dedicatória, Qiu nos desafia a nos envolver com ela através da poderosa e dolorosa jornada que a levou ao suicídio, que se tornará um símbolo da crescente consciência queer  de Taiwan. Seu envolvimento com sexualidades não-heteronormativas anunciam uma nova era para a literatura queer taiwanesa cujos antecedentes incluem Pai Hsien-yung. O livro Crystal Boys (1983 – Meninos de cristal) de Pai retrata jovens foragidos gays em uma sociedade profundamente conservadora.

Depois da sua morte, a mídia taiwanesa aclamou ela como um mártir dos gays e lésbicas do país. O escritor e acadêmico Ji Dawei declarou que sem Qiu, a comunidade LGBTQ nunca iria se unir. Evans Chan, diretor independente que nasceu em Hong Kong e reside em Nova York, fez um documentário sobre ela para o canal governamental Hong Kong Radio Television como parte de uma série sobre autores chineses. Com a recente publicação de suas novelas para o inglês pelo NYRB, a influência de Qiu foi confirmada e estendida para além de Taiwan, introduzindo leitores ao redor do mundo para a literatura moderna dessa nação insular, que raramente chama a atenção de editores do mundo ocidental.

Qiu fez história ao se declarar abertamente como lésbica – como se ela estivesse se assumindo para a comunidade LGBT de Taiwan – “Eu sou uma mulher que ama mulheres” (Notes of a Crocodile, p.8). Nas duas décadas que seguiram essa declaração, o movimento LGBT de Taiwan ganhou uma força formidável. No final do documentário de Chan, Cixous afirma que Qiu abandonou a sua criação estética quando morreu, e convidou a vida na morte, e vida após a morte.

_______________________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Life in Death, Life After Death: The story of Taiwan’s LGBTQ pioneer

“Você pode fazer do seu jeito”: uma entrevista com Sally Tran e Coco Layne

Porque homossexuais taoistas buscam ao Deus Coelho

3 comentários em “Vida na morte, Vida após a morte: A história de uma das pioneiras do movimento LGBT taiwanês

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: