Resistência e subversão: Movimentos Queer pela Ásia – Líbano

Texto de Ismail Shogo originalmente postado no Queer Asia.

Tradução de Henrique Ikeda.

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O mundo árabe testemunhou sua primeira parada do orgulho em Beirute no começo deste ano, um resultado de anos de esforços de várias organizações de base libanesa. A Beirut Pride, contudo, esteve longe de repetir as tradicionais Paradas ocidentais, não pedindo nem pelo direito ao casamento igualitário nem pela revogação do Artigo 534 do código penal, que proíbe atos sexuais “contrários à ordem natural”.  Em vez disso, o evento buscou denunciar “todo tipo de ódio e discriminação”, especificamente contra minorias sexuais.

Entretanto, a parada de Beirute não é nenhuma indicação de um novo Líbano aberto. O Líbano, ao contrário de muitos estados árabes, reteve certo espaço político para a sociedade civil florescer: um ímpeto pela resistência LGBTQ+ como ativistas pró-direitos e grupos de apoio que se organizam para conseguir mudanças. Mesmo que muitos segmentos  conservadores (religiosos) da sociedade tenham buscado reprimir as pautas civis pró-queer. Em março,  o secretário geral do Hezbollah, Hasan Nasrallah, censurou relações homossexuais por “desafiarem a lógica, a natureza humana e a mente humana”. Além disso, grupos sunitas extremistas também atrapalharam com sucesso os planos para as atividades dias antes da parada de Beirute.

Como resultado, o modus operandi para a maioria das campanhas pró-queer do Líbano têm sido, como a parada em si de Beirute ilustra, uma negociação entre o espaço civil relativamente aberto e as reações religiosas conservadoras. No passado, grupos locais buscaram se desviar das pressões conservadoras emparelhando a resistência LGBTQ+ com correntes políticas mais amplas. Em 2003, o HELEM  (Himaya Lubnaniya lil Mithliyeen wal Mithliyaat / Proteção Libanesa para Gays e Lésbicas) – a primeira organização LGBTQ+ no Líbano (e no mundo árabe) – se juntou às mobilizações libanesas conta a guerra no Iraque, planando uma bandeira do arco-íris que chamou a atenção da mídia. Da mesma forma, durante a guerra do Líbano em 2006, o grupo criticou duramente Israel por sua invasão no Líbano, assim como forneceu um santuário para refugiados pegos em contenda. O complexo LGBT de Beirute se tornou um dos mais ativos centros de socorro durante a campanha de bombardeios de quatro semanas, ganhando até mesmo elogios do grupo islâmico conservador Hezbollah. Hoje, HELEM tem expandido sua pauta para incluir a proteção de trabalhadores domésticos e refugiados palestinos no Líbano, bem como campanhas contra maus tratos de Israel contra palestinos em territórios ocupados.

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“Não à violência… não à discriminação… não à homofobia”, em um protesto pelos direitos LGBT em Beirute. (Imagem: Al-Akhbar)

Esta hábil reconfiguração do esquema de ativismo do HELEM foi emprestada à sua proeminência, o que é necessário para uma mudança efetiva no Líbano. Isto incluiu um banimento de exames coercitivos que anteriormente buscavam adquirir evidência de (má) conduta sexual, seguidos de testes de “virgindade” (hímen) orquestrados pelo estado em 2011 no Egito como indicadores de feminilidade durante a Primavera Árabe. Embora o Sindicato Libanês de Médicos e o Ministro da Justiça tenham promulgado o banimento apenas de exames anais em corpos masculinos, a mudança foi considerada uma vitória por muitos. A extensão de tais iniciativas transcenderam para além do Líbano. Do outro lado do Oriente Médio, associações LGBTQ+ têm se desenvolvido em áreas como Palestina e Tunísia. Além disso, as decisões da Associação Médica Libanesa e da Sociedade Psiquiátrica Libanesa de declarar publicamente que a homossexualidade não é uma doença têm influenciado atitudes nas questões LGBTQ+ pelo mundo árabe.

Através de sábias manobras, os movimentos civis libaneses têm evitado pressões sociais para promover várias pautas, mais para benefício da comunidade LGBTQ+ local. Com a recente renúncia do Primeiro Ministro Hariri, contudo, o Líbano talvez se encontre mais uma vez no centro de uma grande instabilidade. Isto talvez implique grandes desafios para os movimentos sociais e a resistência queer na região.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Resistance and Subversion: Queer Movements Across Asia – Lebanon

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