Dançarinos atacados por multidão revela a crescente LGBTfobia na Indonésia

Tradução do texto de Andre Barahamin originalmente postado no South China Morning Post.

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A violência contra um palestrante universitário e três estudantes que estavam celebrando o Dia Mundial da Dança na cidade de Pontianak na Indonésia jogou novamente luz sobre o crescente sentimento anti-LGBT dentro do maior país com maioria muçulmana.

Os agressores eram membros do braço local do Laskar Permuda Melayu (Jovens Malaios Paramilitares), que declararam que a dança era muito vulgar para ser apresentada em público e o evento promovia um estilo de vida LGBT. Eles também afirmaram que dançarinos que estavam vestindo camisas apertadas da Universidade de Tanjungpura estavam “dançando de maneira afeminada” e isso não era compatível para a cultura da Indonésia.

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Apoiadores do candidato à presidência da Indonésia Prabowo Subiano do Partido do Movimento da Grande Indonésia gritando o slogam durante a campanha eleitoral (Foto: AP)

Imagens da violência foram espalhadas nas redes sociais, levantando muitas críticas contra o prefeito de Pontianak, Edi Kamtono, que tem cultivado o apoio de elementos conservadores, incluindo o Partido do Movimento da Grande Indonésia (Gerindra) do presidenciável Prabowo Subianto.

No vídeo, uma dúzia de homens aparecem batendo no grupo de dançarinos antes de serem dispersados pela polícia. Acusações de que os policiais foram enviados pelo escritório da prefeitura foram dispensadas por Kamtono, que disse que ouve uma falha de comunicação entre os organizadores do evento e a polícia.

A violência aparentemente foi alimentada antes por um vídeo compartilhado nas redes sociais que era de apenas sete segundos, e acusava o evento de promover um estilo de vida LGBT.

Nursalih Yadi Anugerah, co-organizador do evento, descreveu o uso de uma “massa mobilizada” e da polícia como um “gesto bárbaro e uma forma de tirania”.

Dede Oetomo, fundador do Gaya Nusantara, uma organização que trabalha pelos direitos LGBT, disse que a violência mostrou “uma falha do estado em proteger os seus cidadãos”.

“Ao mesmo tempo, aqueles que querem impor as suas próprias crenças e valores sobre outros usando da força recebem plena permissão”, diz Dede.

O sentimento anti-LGBT na Indonésia tem levado à proibição de exibições públicas do filme Kucumbu Indah Body (Memórias do meu corpo), sob a justificativa de que promovia “ideologia” LGBT. O diretor do filme, Garin Nugroho, disse que a proibição reflete uma onda de sentimento anti-LGBT no país.

“Ao redor do mundo, existe um levantamento de políticas extremistas dentro de religiões”, Garin disse. “Ela nos levou ao sentimento de sermos ameaçados dentro do estado e… censura sem nenhum estudo ou pensamentos lógicos”.

A crescente influencia de pensamentos islamitas também contribuíram ao aumento estridente do sentimento anti-LGBT na Indonésia.

Semana passada, o corpo clerical muçulmano do país, o Conselho Ulama da Indonésia, disse a censura do Kucumbu Indah Body foi justa, já que sua apresentação poderia afetar negativamente os jovens. Seus braços regionais publicaram da mesma forma o seu apoio a censura.

O conselho, que é liderado por Ma’ruf Amin, colega de Joko Widodo, está na frente do crescente populismo e políticas identitárias da Indonésia, ao lado de outros grupos como a Frende de Defesa Islâmica e o Fórum Muçulmano da Indonésia.

Ambas dessas últimas organizações tem lutado avidamente contra pessoas LGBT no passado, com o Fronte de Defesa Islâmica invadindo gabinetes de grupos de prevenção do HIV em Pekanbaru em janeiro sob a suspeita de estarem envolvidos em atividades LGBT.

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Membros da Defesa Islâmica da Indonésia queimando uma cópia da Playboy durante um protesto em 2006 (Foto: AFP)

A influência dessas duras afirmações foram confirmadas em dezembro de 2016 quando conservadores religiosos se manifestaram contra o governador de Jakarta Basuki Tjahaja Purnama, conhecido como Ahok, um chinês cristão que foi preso por blasfêmia contra o Islã.

“Organizações islâmicas ficaram muito infelizes. Eles argumentavam que somente um muçulmano poderia governar outros muçulmanos” disse Wahyudi Akmaliah, pesquisador do Instituto de Ciências da Indonésia.

Aquino Hayunta, da Coalizão de Arte da Indonésia, disse que a mistura de conservadorismo religioso e políticas populistas tem contribuído para uma atmosfera de censura, que tem intensificado “desde as eleições de Jakarta de 2017 e ocupou o centro das políticas nacionais durante a recente eleição presidencial”.

“Nós testemunhamos o crescimento do populismo com identidades religiosas como sua base”, ele disse. “Ao mesmo tempo, nossos padrões de democracia estão definhando, levando a perseguições contra a liberdade de expressão”. 

Em maio de 2017, a polícia de Jakarta invadiu uma academia e sauna e prendeu 141 pessoas, a sua maioria homens gays e bissexuais, e 10 deles foram processados sob a lei de pornografia da Indonésia.

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Um show de moda realizado em Jakarta no dia 3 de maio (Foto: AP)

Aconteceram pelo menos seis invasões similares de espaços privados em 2017 onde mais de 300 pessoas LGBT foram detidas. De acordo com o relatório da Human Rights Watch, o padrão dessas invasões sugerem uma “perseguição sistemática” dos direitos LGBT.

Restrições sobre atividades de grupos LGBT tem sido impostas recentemente em várias regiões. De acordo com a Associação de Planejamento Familiar da Indonésia, pelo menos 22 cidades ou regiões perseguem a comunidade LGBT, a classificando como “doença social”. Outras 45 regulações similares tem como alvo indireto a comunidade LGBT, criadas para parar a disseminação de uma “ideologia LGBT”.

Munarman, secretário geral do Front de Defesa Islâmica, negou estar perseguindo a comunidade LGBT. Ele insistiu que as regulamentações refletem o desejo popular de preservar os valores morais e religiosos.

“Nós não estamos desumanizando a comunidade LGBT”, disse Munarman. “Mas o que aconteceu demonstra que ser gay ou lésbica não é parte da nossa cultura, é contra os nossos valores religiosos e deixa as pessoas desconfortáveis. Eles sabem que a Indonésia é diferente de países ocidentais, então eles deveria obedecer aos valores orientais”.

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