Mulheres trans marcham pelos seus direitos na Indonésia

Tradução de um texto originalmente postado no Voa News.

__________________________

Adhe Jengker marchou ao lado de outras 4.000 na Marcha das Mulheres em Jakarta. Uma mulher trans alta nos seus 20 anos, Jengker carregou um cartaz com os dizeres “O futuro é não-binário”. Ela chegou com outras cinco mulheres da comunidade trans, esperando conscientizar as pessoas sobre as mulheres trans na cada vez mais conservadora Indonésia.

“Eu fui até a rua e participei da Marcha das Mulheres porque eu percebi, como mulher trans, que os nossos direitos ainda não haviam se cumprido pelo governo. O nosso espaço está se tornando mais limitado”, ela contou para o VOA. Jengker, uma artista profissional de maquiagem, também está preocupada porque mulheres trans enfrentam descriminações e perseguições, especialmente aquelas na indústria do sexo.

Assim como Jengker, Vanessa Chaniago também está preocupada. Ela vê um aumento de casos de violência contra a comunidade trans, especialmente durante os anos de eleição.

“Eu estou aqui representando outras mulheres trans que são descriminadas. Eu quero que a violência contra nós eventualmente acabe, e eu espero que exista justiça para as mulheres da comunidade trans e meus amigos da comunidade LGBT”, disse Chaniago.

Dena Rachman, uma ex-artista infantil e renomada ativista trans, participou para que mulheres trans possam ter mais visibilidade em espaços públicos. Ela disse que elas tem pouco espaço para se expressarem como seres humanos.

Ela também lamentou o fato de que muitas pessoas na comunidade trans não tem acesso a direitos básicos de educação e atendimento de saúde.

“O que nós vivenciamos como transgêneros aqui é uma discriminação sistemática. Por causa do sistema, somos excluídas da sociedade, e isso é a nossa maior preocupação”, ela disse.

9A6DB1CC-B3B1-4702-AED9-636A116B56E5 (1).jpg

Violência contra a comunidade trans

Khanza Vina, uma ativista do Young Trans Women Studio (SWARA), uma ONG que foca no empoderamento de mulheres trans, disse que existe mais de 700 registros de casos de violência contra pessoas da comunidade LGBT desde 2016.

“Esses casos incluem discriminação, violência e expulsão de seus lares”, ela contou para a VOA.

Em um caso do ano passado, doze mulheres trans que trabalhavam em diferentes salões em Aceh, a província mais conservadora da Indonésia, foram presas pela polícia. Suas cabeças foram raspadas e elas foram espancadas e expostas por toda a vizinhança e forçadas a abandonar as suas identidades femininas.

Em maio do ano passado, quatro mulheres trans de Cianjur, Java Ocidental, foram detidas por pessoas de uma organização radical islâmica, elas foram interrogadas e forçadas a se despir. O vídeo depois viralizou nas redes sociais. Enquanto isso em Bekasi, Java Ocidental, em Novembro, duas mulheres trans foram espancadas e humilhadas.

1FC1D233-29CC-476C-A749-B51693F9219B (1).jpg
Candidato à presidência da Indonésia Prabowo Subiant

Politização da comunidade LGBT

Vina acredita que uma das razões que mulheres trans e pessoas da comunidade LGBT estão cada vez mais sendo perseguidas é por causa da identidade política usado por candidatos para ganhar o voto de eleitores conservadores.

“Essa identidade política acaba cobrindo ou justificando casos de violência contra mulheres trans. Nenhum dos dois candidatos à presidência ousaram dizer que iriam parar a discriminação de grupos minoritários”, ela disse adicionando que grupos minoritários estão se tornando cada vez menos e menos visíveis.

Durante a eleição presidencial da Indonésia, apoiadores do candidato da oposição, Prabowo Subianto, espalharam rumores que o candidato Joko “Jokowi” Widodo iria legalizar o casamento homoafetivo se re-eleito.

Antes disso, o porta voz da Assembléia de Consulta Popular, Zulkifly Hasan, abertamente afirmou que ele era contra a comunidade LGBT.

“Eu não sou contra as pessoas mas contra o comportamento LGBT. É uma atividade depravada e irá criar um impacto negativo na sociedade”, ele disse em janeiro.

De acordo com Julia Suryakusuma, uma autora e ativista feminista, desde o começo de 2016, existe um pânico moral direcionado para a comunidade LGBT da Indonésia.

“Esse pânico moral não é dissipado e está claramente conectado com o aumento do conservadorismo no Islã dentro da arena política da Indonésia”, ela escreveu.

Tentativas de criminalização

Ano passado, algumas facções da Casa de Representantes da Indonésia (DPR), que estavam tentando ganhar votos de conservadores durante a eleição da Indonésia, propôs impor restrições sobre relacionamentos homoafetivos e relacionamentos sexuais antes do casamento na revisão do Código Criminal.

Em 2017, a Aliança Amor e Família (AILA), um grupo conservador, preencheu uma petição para a Corte Constituinte para criminalizar a comunidade LGBT na lei do país. A petição foi rejeitada com uma diferença pequena, cinco dos nove juízes votaram contra a petição.

Com as tentativas de criminalizar pessoas baseado em suas orientações sexuais ou identidades de gênero, Vina mencionou uma crescente relutância de usar os termos LGBT mesmo dentro dos movimentos sociais.

“As pessoas estão com medo de usar a terminologia LGBT, em um evento por exemplo, porque eles não querem que grupos conservadores o invadam”, ela disse.

“Mas, eu não quero que o medo nos divida. E eu espero que as pessoas parem de usar as nossas identidades como produto político. Olhe para o que o ódio pode fazer para as pessoas da comunidade trans. Nós também somos seres humanos”, adicionou Vina.

__________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Trans Women March for Their Rights in Conservative Indonesia

Presidente da Indonésia pede adiamento da votação do novo código criminal

Intolerância empurra monges intersexuais para a marginalização na Indonésia

Dançarinos atacados por multidão revela a crescente LGBTfobia na Indonésia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: