Intolerância empurra monges intersexuais para a marginalização na Indonésia

Tradução do texto de Farid M Ibrahim originalmente postado no ABC News.

_______________________________

Uma vez assistentes de reis, os monges interessexuais bissu de Sulawesi – a terceira maior ilha da Indonésia – estão no ponto de desaparecerem depois de anos de declínio cultural e crescente perseguição.

Essa é uma tradição cultural que tem resistido por séculos em um país de maioria muçulmana, mas as tradições de reverenciar esses monges intersexuais – conhecidos como bissu – está morrendo, avisam antropólogos e moradores locais.

O povo Bugi viveu principalmente em Sulawesi e acreditam na existência de cinco gêneros, sendo o mais importante os bissu.

Além de homens cis (oroani) e mulheres cis (makkunrai), existem mulheres masculinas (calalali), homens femininos (calabai) e os intersexuais (bissu).

Em Pangkep Regency, no sul de Sulawesi, a população bissu se reduziu para apenas seis pessoas, com apenas cinco ainda performando os papéis tradicionais de sacristia, de acordo com Dasriana, um escritório cultural empregado pelo governo local.

Dasriana tem trabalhado para preservar a tradição bissu por anos, mas existe o medo de que desapareçam no futuro próximo.

Além de seus papéis como monges tradicionais da comunidades, bissu tem sobrevivido trabalhando como trabalhadores rurais e participando de cerimônias de casamento como pessoas de honra.

O número de bissus tem diminuído drasticamente nos últimos anos, coincidindo com o aumento da perseguição de pessoas LGBT pela Indonésia.

A comunidade LGBT da Indonésia tem sofrido cada vez mais assédios e discriminação de grupos islâmicos conservadores, policiais e políticos.

Práticas antiquadas como a terapia de conversão para gays tem acontecido com mais frequência, assim como tentativas de banir aplicativos de namoro e censura em campanhas de educação e saúde para pessoas LGBT nas redes sociais como o Instagram.

10850438-3x2-700x467
Dasriana, no centro, teme que os bissu desapareçam da cultura Bugis por causa da falta de proteção. (Foto: Dasriana)

600 anos no paraíso, 60 anos no inferno

A tradição bissu e o conceito dos cinco gêneros formam uma parte chave da cultura Bugis por pelo menos seis séculos, de acordo com a professora associada Sharyn Graham Davies da Universidade de Tecnologia de Auckland na Nova Zelândia.

A professora associada Davies estudou gênero na cultura Bugis como parte do seu doutorado e descobriu que existiam tradições similares na Tailândia, Malásia, Índia e Bangadesh que viam gênero além do masculino e feminino.

“Viajantes pré-islâmicos da região notaram essa diversidade de gênero e sexualidade, então ela existia antes do Islã ter entrado na Indonésia no começo dos anos 1500”.

Para se tornar um bissu, a pessoa deve ser intersexual.

“Para ser mais preciso, os Bugis acreditam que um bissu que se aparenta externamente como homem, é internamente mulher, e vice versa; essa combinação de sexos permite que uma identidade de meta-gênero emerja”, ela disse.

“Mas outras pessoas dizem que se você aprender a linguagem e as canções e entoações, e tenha o dom da benção, você também pode se tornar um bissu”.

Ela disse que esses monges tradicionalmente ofereceram bençãos para as pessoas antes das colheitas ou na hora do parto.

9406580-3x2-700x467
Protesto de muçulmanos conservadores segurando posteres anti0LGBT na frente de uma mesquita na capital de Aceh (Foto: Reuters)

A voz do céu

O professor Hakikintar Lathief, um antropólogo da Indonésia que estudou os bissu por décadas, disse que na cultura Bugis pré-islâmica esses monges eram vistos como intermediários entre as pessoas e os deuses.

“Eles entendem o mundo superior como masculino e esse mundo como feminino, e por isso somente aqueles que são meta-gênero (intersexuais) conseguem ser os intermediários entre esses dois mundos”, ele contou para a ABC.

A iniciação Bissu é um processo longo que inclui uma perigosa cerimônia onde eles tem que provar serem imunes à faca cerimonial chamada de keris, diz o professor Lathief.

Eles também precisam manter celibato e sempre vestir roupas específicas.

Até a década de 40, os bissu ainda tinham um papel central na manutenção de espaços e rituais vivos, incluindo a coroação de reis e rainhas.

“Somente um bissu conseguia levar o juramento do rei aos deuses”.

O professor Lathief disse que desde que a Indonésia ganhou a independência em 1949, os antigos reinados Bugis foram incorporados na nova república e os papéis dos bissus foi desde então marginalizado.

Pouco depois da independência, uma rebelião islâmica na Sulawesi do sul aumentou a perseguição dos bissu já que eles eram vistos como sendo contra os ensinamentos islâmicos.

9392306-3x2-700x467
Protestos anti-LGBT em Banda Aceh que são considerados o início do crescente sentimento homofóbico na atualidade (Foto: Adam Harvey)

Lathief é um dos que começou a tentar reviver a tradição bissu nos anos 90 depois de décadas de repressão.

Na visão da professora Davies, poucas pessoas hoje desejam se tornam um bissu com o aumento da homofobia na Indonésia e binarismo social.

Ela também acredita que o governo da Indonésia precisa ter políticas de proteção de pessoas de diferentes gêneros.

_______________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Homophobia and rising Islamic intolerance push Indonesia’s intersex bissu priests to the brink

Dançarinos atacados por multidão revela a crescente LGBTfobia na Indonésia

A escola que oferece um espaço seguro para mulheres trans da Indonésia

Indonésia planeja isolar prisioneiros LGBT para evitar “transmissão”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: