Gay, muçulmano e tailandês: Um artista preso em um cabo de guerra

Tradução do texto de Rina Chandran originalmente postado no Openly.

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Fotos de muçulmanos gays, seus corpos sobrepostos com textos religiosos; imagens de mulheres trans, filmadas andando pelas praias tailandesas enquanto sermões soam de uma mesquita das proximidades.

Só dois trabalhos provocantes de Samak kosem, um tailandês muçulmano e gay que usa a sua arte para explorar como tailandeses LGBT do sul do país reconciliam a sua religião com as suas identidades sexuais.

É uma colisão que o artista conhece muito bem.

“Ser queer faz parte da minha identidade; ser muçulmano também faz parte da minha identidade. Mas muitos muçulmanos LGBT sentem um conflito por causa da sua religião, famílias e expectativas da sociedade do que significa ser muçulmano”, disse Samak.

Samak – que já exibiu na Bienal de Arte de Bangkok e em galerias de Chiang Mai em Hong Kong – diz que é raro ver muçulmanos LGBT serem representados em sua cultura, uma reflexão da dupla existência que eles normalmente são forçados a lidar.

“Muitos se sentem obrigados a abandonar a identidade muçulmana por causa da islamofobia, e por que a religião nos dizem que somos pecadores”, ele contou para a Thomson Reuters Foundation.

A Tailândia, uma sociedade budista conservadora, descriminalizou a homossexualidade em 1956, e hoje é vista como bastante aberta para a diversidade de gênero e sexualidade.

O país escreveu um projeto de lei de parceria civil que legalmente reconheceria o casamento homoafetivo, e recentemente elegeu quatro pessoas LGBT como membros do parlamento.

Mas pessoas LGBT ainda enfrentam discriminação, muitos são rejeitados pela família e zombados no trabalho, dizem ativistas de direitos humanos.

Para muçulmanos LGBT do sul, que é rodeado por diversos conflitos, os desafios são ainda maiores, disse Samak, que estudou em uma escola de internato islâmica, ou “pondok”, quando tinha 12 anos.

Ele e outros meninos eram abusados sexualmente por outros meninos no pondok, ele conta. Entre os seus amigos, tinha um menino que orava cinco vezes ao dia, e mesmo assim vestia saltos e mini-saias.

“Na escola nos diziam constantemente: ‘homossexualidade é um pecado; você não é um muçulmano se você for queer'”, ele disse.

“Mas ninguém falava sobre o que realmente estava acontecendo”, disse o artista de 35 anos, que recentemente criou uma série de fotos chamada “Pondan sob Pondok” – usando o termo local que usa o termo pejorativo para pessoas gays e trans para destacar a hipocrisia.

CONFLITO

As três províncias do sul, Pattani, Yala e Narathiwat que fazem fronteira com a Malásia, tem uma população composta de 80% de muçulmanos, enquanto o resto da Tailândia em sua maioria é budista. Um levantamento separatista tem surgido desde 2004 e vitimou aproximadamente 7.000 pessoas.

A cultura malaia muçulmana dominante torna a homossexualidade um tema sensível – até mesmo perigoso – e muitos muçulmanos LGBT são forçados a esconder a sua identidade sexual, disse Samak, que entrevistou doze muçulmanos LGBT do sul da Tailândia.

O seu curta “Neverland”, que mostra mulheres trans dançando usando sarong nas praias tailandesas, ignorando os olhares, e recentemente apresentado em uma galeria de Hong Kong.

O curador Nick Yu disse que o trabalho chamou sua atenção por causa das pessoas e o seu criador.

“O movimento LGBT parece ser de solidariedade sob a bandeira do arco-íris, mas as vozes são em sua maioria de americanos e europeus brancos”, ele contou para a Thomson Reuters Foundation.

“É por isso que o trabalho de Samak é tão poderoso, e uma narrativa importante já que ela se localiza no sul da Tailândia”.

Enquanto a Asia é a “nova fronteira do ativismo queer”, cultura e arte LGBT normalmente é oprimida por corpos religiosos em diversos países, ele adicionou.

“Existe muita pressão para respeitar a religião, respeitar a comunidade – mas eles tem que fazer isso contra as suas próprias identidades”, disse Nada Chaiyajit, uma mulher trans muçulmana e ativista LGBT do sul tailandês.

“As pessoas que expressam a sua identidade sexual são abandonadas pelas suas famílias, excluídas da comunidade e não tem permissão de rezar nas mesquitas. É um grande preço a ser pago”, ela disse.

Analises da Thomson Reuters Foundation mostram que enquanto mais países estão legalmente reconhecendo direitos LGBT, o ritmo de mudança tem parado frente a reação de grupos religiosos e conservadores.

Taiwan foi o primeiro lugar da Ásia a legalizar o casamento homoafetivo, e a Índia derrubou a lei da era colonial que criminalizava a homossexualidade.

Ao mesmo tempo, os países de maioria muçulmana como Brunei, Indonesia e Malásia tem aumentado mais a opressão.

Mas a crescente visibilidade de artista e ativistas muçulmanos LGBT, um iman abertamente gay na Austrália, e pondoks e mesquitas abertos à comunidade LGBT na região são bons sinais, disse Samak.

“Muitos muçulmanos queer querem permanecer na religião. Eles deveriam poder ser quem são sem ter que abondar a sua religião ou suas famílias”, ele diz.

“A arte me ajuda a entender essas lutas melhor”

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Gay, Muslim, Thai: artist caught in tug of war

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