História, ativismo e cultura queer na China: Uma conversa com He Xiaopei

Tradução do texto de Bao Hongwei originalmente postado no Made in China.

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He Xiaopei é uma cineasta feminista queer, ativista, e diretora de Pink Space (粉色空间), uma ONG de Beijing dedicada na promoção dos direitos sexuais e igualdade de gênero. Os seus filmes incluem The Lucky One (宠儿, 2012), Our Marriages: Lesbians Marry Gay Men (奇缘一生, 2013), Yvo and Chrissy (如此生活, 2017), and Playmates (玩伴, 2019).. Como uma das principais feministas chinesas e ativista queer desde a década de 90, as experiências e perspectivas de He são valiosas para uma compreensão da formação de identidades queer, comunidades, e ativismo na República Popular da China nas últimas três décadas.

Bao Hongwei: Você é uma participante ativa do feminismo chinês e do movimento queer desde a década de 90. Como você se envolveu com o ativismo queer da China nessa época? Existia uma comunidade queer naquele tempo?

He Xiaopei: Sim, existia. Tudo começou com Gary (Wu Chunsheng, um ativista gay) e Susie (uma ativista queer do Reino Unido), organizando encontros entre gays e lésbicas na Sanlitun Bar Street de Beijing no começo dos anos 90. Normalmente tinham dez pessoas que participavam das reuniões regularmente. Susie também convidou pessoas para o seu apartamento para cafés da manhã e festas. Não tinham muitas mulheres participando nessa época.

Essas eram em sua maioria reuniões particulares. As coisas eram muito diferentes em público. No começo dos anos 90 não existiam bares gays. Então o City Bar abriu em Sanlitun – um lugar onde estrangeiros procuravam trabalhadores do sexo. Homens gays normalmente se envontravam nesse bar nas noites de quarta-feira. Quando o dono do bar percebeu quem eles eram, ele não foi muito receptivo para esses homens “estranhos”. Então tivemos que ficar mudando de lugar.

Nós então organizamos uma festa de celebração de Stonewall em Beijing, mas eu estava no Tibete escalando o Himalaia. Quando eu liguei para Susie, ela disse que tinham comparecido oito lésbicas à festa. Eu disse que não acreditava. Oito era um número astronômico na época; Eu nunca tinha ouvido falar de oito lésbicas se reunindo em um único lugar de Beijing. Então eu diminui a minha viagem, abandonei o time de escalada e voltei para Beijing. Gary tinha encontrado um bar de artistas em um beco. Era bem vazio. O dono do bar ficou feliz de realizarmos uma festa ali, mas nós não contamos que tipo de festa seria. Nós contamos aos participantes que iria ser uma fsta de aniversário. No dia, muitas pessoas apareceram, incluindo as oito mulheres. Foi depois da quarta conferência de mulheres das Nações Unidas, que foi realizada em Beijing no ano de 1995. Garu já tinha sido preso e expulso de Beijing durante a conferência, mas ele voltou secretamente para a cidade. Depois dele ter entrado no bar, ele me contou que haviam policiais disfarçados no local. Ele disse que não podia dizer nada porque ele não tinha permissão de estar em Beijing, e pediu para que eu fosse a mestre de cerimônias da festa. Eu concordei. Eu disse para todos que era uma festa de aniversário e pedi para que as pessoas adivinhassem de quem era o aniversário. As pessoas sussurraram nos ouvidos uma das outras. Um jovem correu até mim e disse que sabia de quem era o aniversário: Era o “nosso” aniversário, porque era o aniversário das manifestações de Stonewall. As palavras circularam o salão e as pessoas ficaram extremamente animadas. Foi um momento muito tocante. Nós cortamos o bolo e tivemos um momento muito feliz. Depois daquele dia, as pessoas começaram a frequentar o espaço, e o bar eventualmente se tornou em um bar gay. Ele era chamado Half & Half.

BH: Half & Half era um lugar bem conhecido em Beijing na época.

HX: Sim. Existiam três bares gays bem conhecidos: Half & Half, On & Off, e o Dragon. Eles não diziam “Dragon”: eles pronunciavam “Drag-on”, porque era um bar que tinha shows de drag. Os três bares ficavam na Sanlitun Bar Street e todos ficavam a cerca de 10 minutos de caminhada um do outro. As pessoas saia de um bar e iam para o outro. Quando elas se encontravam no caminho perguntavam para onde estavam indo. Eu perguntei para um dos gerentes: “Você não tem medo da competição?” ele respondeu: “Eu desejava que toda a rua fosse cheia de bares gays”. Ele não se preocupava com os negócios, ele se importava com a comunidade e queria que ela crescesse. Existia um senso forte de comunidade daquela época, e era muito bom.

BH: Todos os donos de bares se identificavam como gays?

HX: Não no Half & Half, ele nunca foi dirigido por um gay. Eles queriam fazer negócios mas não gostavam de nós. Uma vez eles até espancaram um homem gay que trabalhava como garçom em outro bar. Depois disso, algumas pessoas começaram a boicotar o Hak & Half. Mas o bar era muito famoso, então apesar dos donos, muitas pessoas continuavam a se reunir ali.

Depois dos bares terem sido estabelecidos, começaram a surgir linhas telefônicas para gays e lésbicas. Um dos membros da comunidade saiu da China e doou o seu pager para que nós conseguíssemos criar uma linha de atendimento. Nós começamos a conversar em como funcionaríamos. Nós precisávamos de um telefone para responder as chamadas e isso não era seguro na época. Outra questão era de como promover o número. Cui Zi’en (uma escritora queer, cineasta e ativista) fundou uma revista. Ela era chamada Life, eu acredito. Eles puseram uma propaganda da linha de pager na coluna de propagandas entre as páginas, então estava bem escondido. Assim que a coluna foi publicada, o pager ficou muito ocupado e não parava de tocar.

BH: A propaganda usava termos como gay ou lésbica?

HX: Eles usaram o termo homossexual (同性恋), eu acho.

BH: Como vocês ligavam para as pessoas sem ter uma linha fixa?

HX: Vários de nós trabalhamos como voluntários na linha. Nós nos revezávamos carregando o pager por alguns dias ou semanas. Eu fiz ligações usando a linha fixa da Susie e outros ligavam de suas casas. Nós recebíamos diversas chamadas. Um dia um jovem ligou para o pager. Ele era um policial mas descobriram que ele era gay, então ele foi forçado a abandonar a força policial. Ele estava muito triste e ligou para o pager diversas vezes. Eu ouvi ele em silêncio sem dar muitos conselhos. Alguns anos depois, nós nos encontramos em uma reunião e ele reconheceu o meu nome. Ele era Geng Le, CEO da companhia do aplicativo de namoro gay Blued.

BH: Eu acho que o pager provavelmente funcionou somente por alguns anos antes do surgimento dos telefones móveis, ou dageda (大哥大, um tipo de telefone móvel grande).

HX: Não, os telefones móveis eram usados ao mesmo tempo. Eu me lembro de um homem gay que trabalhava para a linha do pager e ele ligava para as pessoas pelo seu dageda. Nas reuniões semanais, ele contou que sua conta de telefone era mais alta que 600 yuan por semana e que ele não iria conseguir pagar. As pessoas começaram a debater o que fazer e como deveríamos trabalhar. Nós normalmente íamos a bares nas noites para nos divertirmos. Nós queríamos ter reuniões de comunidade e atividades culturais nas tardes. Nós então organizamos reuniões semanais em uma casa de chá chamada Lemon Tree. Chou Wah-shan, um ativista gay de Hong Kong, era um organizador muito ativo na época. No começo só existiam homens gays, depois algumas lésbicas se uniram ao grupo. Nós organizamos festas, debates, visitas turísticas, esportes, e reuniões vespertinas. Nós até tínhamos uma sessão semanal de debate para lésvicas. Alguns homens gays diziam: “Vocês lésbicas são muito unidas; Eu queria que nós gyas fossemos tão unidos como vocês”. As lésbicas eram muito organizadas na época e fazíamos diversas coisas juntas. Então eu sai da China para estudar no Reino Unido. Logo depois, o grupo conseguiu apoio financeiro. Eles alugaram um escritório e publicaram uma revista lésbica chamada Sky (天空). O grupo, que foi chamado de Irmãs de Beijing (北京姐妹小组), se desfês alguns anos depois.

Depois disso, Xian (uma ativista lésbica) fundou o Linguagem Comum (同语), Xian foi também uma dos membros fundadores do Centro LGBT de Beijing e do Centro Lésbico de Beijing. Eu voltei para a China depois dos meus estudos no Reino Unido e fundei o Pink Space. Então uma revista lésbica, Les+, saiu e foi bastante popular. Elas realizaram uma grande festa de doação onde as pessoas lançavam ofertas bem altas pela coleção completa da revista.

Na parte de organizações gays, Bing Lan (um ativista gay) fundou a Aibai (爱白) uma ONG gay. Em uma reunião de treinamento de líderes LGBT, Bing Lan sugeriu que nós precisávamos sair da internet e interagir no mundo real. Líderes lésbicas diziam que deveríamos entrar na internet e vivermos como éramos. Grupos de lésbicas e gays eram bem diferentes. Eles estavam falando da mesma coisa (De sair do armário), mas de maneiras diferentes. Esse foi um tempo muito interessante.

Bing Lan depois colaborou com Xing Xing (Damien Lu), um estado-unidense de ascendência chinesa que tinha ideias específicas sobre o que era ser gay (já que ele era um crente do tipo de identidade política gay do ocidente). Aibai foi muito influenciada por ele. No seu site, Xing Xing tinha uma coluna especial, denunciando a bissexualidade e a não-monogamia. Aibai cresceu muito rápido. Em uma época, os organizadores alugou todo um andar de um prédio de Xintiandi, mas todos eles trabalham em casa hoje. Nós tivemos programas de líderes de comunidade, e nessa época eu trabalhei com Guo Yaqi (fundador do Instituto de Educação de Saúde de Gênero de Beijing 北京纪安德健康教育研究所), Bing Lan, Ma Tiecheng (fundador do Aizhiyuanzhu 爱之援助, uma organização gay que existiu por vinte anos), e Tan Qin (fundadora da Yunnan Tonghuashe 云南同话舍, um grupo de lésbicas). Nós tínhamos ideias diferentes sobre trabalho comunitário e suas prioridades. A Aliança da AIDS decidiu que a melhor estratégia era abordar HIV/AIDS  em comunidades de risco. Ela queria focar em homens gays, já que acreditavam que somente homens gays eram afetados pelo HIV/AIDS; ela não pensava que mulheres poderiam ser afetadas. Mas eu sempre tentava incluir ativistas lésbicas nos nossos treinamentos.

BH: Existiam também outras organizações gays e pioneiras, você pode falar um pouco sobre elas?

HX: No final dos anos 90, quando quase não existiam gays assumidos na China, o ativista Wan Yanhai convidou psiquiatras para conversar com membros da comunidade gay. Isso ajudou a despatologizar a homossexualidade que eventualmente levou à remoção da homossexualidade da Classificação Chinesa de Desordens Mentais (CCMD-3) em 2001. Em maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde (OMS) removeu a homossexualidade da sua lista de desordens mentais. Depois daquele ano, alguns médicos chineses foram enviados para bares gays para distribuir questionários. Os médicos pediam para pessoas gays completarem a pesquisa. Algumas perguntas eram: “Você gosta de festejar” ou “Qual a cor da sua privada?” Essas eram perguntas estúpidas. Mas era a maneira como eles trabalhavam: eles achavam que eram especialistas, e você tinha que seguir as instruções e trabalhar com eles. A despatologização foi um processo de cima para baixo e não um trabalho de base. Os psiquiatras vieram e conheceram pessoas gays porque as autoridades queriam seguir as ordens da OMS. O Dr. Zhang Beichuan (um médico especializado em homossexualidade) também fez uma pesquisa similar.

BH: O dr. Zhang Beichuan também teve um papel significante na história LGBT da China. Recentemente ele fez alguns comentários controversos nas redes sociais de como aplicativos de namoro gay disseminam o HIV/AIDS. Você poderia falar do papel dele na comunidade queer?

HX: Nos anos 80 e início dos anos 90, não existia uma linha de atendimento ou internet. Como um médico, Zhang Beichuan apareceu em um programa de rádio noturno. Ele falou sobre a homossexualidade na rádio, então ele recebeu muitas cartas de ouvintes gays. Foi dessa maneira que ele, um homem hétero, se envolveu com a comunidade queer. Ele é contra o sexo gay é muito moralista. Ele é uma pessoa que tenta ajudar as pessoas de acordo com o que ele considera certo. Mas ele faz parte de uma geração antiga e nunca pode passar além da moralidade sexual conservadora.

Zhang foi também um dos que introduziram a questão da homoesposa (同妻, esposa de um homem gay) para a comunidade e para a sociedade. Nas reuniões da Pink Space, eu também convidei Li Yinhe, uma socióloga e tradutora de teoria queer, e Meng Lin, um ativista gay, para as nossas reuniões de homoesposas. Eu sugeri que eles escrevessem sobre o fenômeno para aumentar a conscientização pública da questão, e ambos escreveram blogs sobre o tópico. As homoesposas acabaram se tornando uma identidade, e um grande tópico da comunidade. Foi relatado em diversos jornais de língua inglesa e chinesa. Foi dessa maneira que a identidade de homoesposas surgiu. Apesar de nenhuma mídia oficial poder mencionar a homossexualidade (por causa da censura), jornalistas podiam porém falar da vida das homoesposas. Então, de certa forma a palavra homossexualidade podia aparecer em público.

BH: Algumas pessoas culpam a construção da mídia da identidade das homoesposas por das às pessoas a impressão de que isso era culpa de homens gays ao contrário de ser a culpa da sociedade.

HX: Isso é verdade. Li Yinhe e Meng Lin também esclareceram que isso não era a culpa de homens gays, mas uma questão social maior. Era a sociedade que forçava homens gays em casamentos heterossexuais. Mas eu também estava pensando em desafiar o casamento como instituição social. Foi por isso que em 2013 eu fiz o filme Our Marriages: When Lesbians Marry Gay Men para refletir sobre a instituição social do casamento.

BH: Our Marriages fala sobre “casamentos de contrato” (形式婚姻) entre lésbicas e gays. Algumas pessoas chamam de casamentos “falsos”; outros de casamentos “cooperativos” ou “de mútua ajuda”.

HX: Existiam muitas críticas ao casamento por contrato na época, e foi enquadrado como uma forma de infidelidade consigo mesmo e traição com os pais. A PFLAG (Pais e Amigos de Lésbicas e Gays) da China (同性恋亲友会) se recusou a exibir meu filme em suas reuniões. Um crítico de cinema falou das desvantagens da piedade filial. Eu aceito o argumentos deles, mas você não pode esperar que todos os gays lutem contra os seus pais. A maior parte das pessoas amam os seus pais e não querem brigar com eles. Pessoas comuns geralmente gostam do filme. Algumas pessoas gays até mesmo mostram o filme para os seus pais para conseguir melhor compreensão entre as duas gerações.

BH: Eu acho que estamos falando das especificidades culturais da cultura queer da China.

HX: Fei Xiaotong, um renomado sociólogo chinês, disse que a cultura ocidental é baseada no indivíduo e a cultura chinesa é baseada na relação familiar. Eu entendo o ponto dele. Também existem diferenças geográficas. Eu somente observei a vida de quatro lésbicas no meu filme. Elas realmente tiveram uma boa relação com os seus pais. As quatro lésbicas puderam se casar com homens gays e viveram vidas felizes por causa do seu ambiente social. Em algumas grandes cidades, as pessoas estão se tornando mais ocidentalizadas e individualistas. As vidas das crianças cada vez mais estão sendo separadas de seus pais. Elas podem viver sem pensar sobre as necessidades de seus pais. Mas em cidades pequenas, as pessoas tem que pensar sobre os seus pais porque a sua vida não é sua; sua vida pertence para a sua família também. Um ativista que vive com HIV me contou que mesmo depois da morte de seu pai, ele não podia se assumir como positivo. Ele temia que as pessoas fossem apontar para o túmulo de seu pai e dizer que o filho dele deu um nome ruim para a família. Ele nunca deixaria que isso acontecesse. Ele tinha mais preocupações sobre a reputação de seu pai do que de si mesmo. Então ele tinha que esconder o seu status de HIV da sua família. Se assumir é uma questão muito difícil até mesmo para ativistas famosos.

BH: Eu conheço muitos ativistas queer que não conseguem se assumir para os seus pais. Isso é muito diferente do que a PFLAG China luta.

HX: As pessoas tem diferentes maneiras de pensar e de engajar o seu ativismo. A maneira de se assumir da PFLAG tem sido muito bem sucedida, mas ela não deveria ser a única maneira. As pessoas tem diferentes maneiras de viver – e cada pai é diferente – então eles deveriam ter a permissão de explorar as suas próprias relações familiares. Eu usei esse filme para abrir discussões sobre família, casamento e diferentes tipos de relações sociais nas comunidades queer da China. Aquelas lésbicas que se casaram com homens gays passaram o Festival de Primavera juntas. Elas viajaram juntas como uma grande famíia, incluindo os seus parceiros, pais e avós. Era uma família alternativa. As lésbicas e gays ainda enviam mensagens para seus sogros e os desejam feliz ano novo. Desde que eles estejam felizes, porque eles não podem se casar?

BH: Que outras organizações queer estão ativas na China? Como é o ativismo queer na China nos dias de hoje?

HX: Apesar da maioria das organizações usar o termo LGBTQ, elas trabalham primordialmente com questões de lésbicas e gays. O ativismo queer na China ainda é muito liderado por lésbicas e gays. Porém, questões trans, assim como de intersexuais e assexuais, tem sido levantadas recentemente. O Centro LGBT de Beijing e Tongyu ambos trabalham com questões trans hoje.

BH: Outra forma de ativismo queer é a litigação; ou seja, levar o ministros para a corte, como o caso de Fan Popo contra a Administração Estatal de Rádio e Filme e Televisão sobre a censura de filmes gays, e o caso de Yanzi (também conhecido como Peng Yanhui) contra hospitais que realizam terapias de conversão em gays. Essa é uma forma efetiva de ativismo queer?

HX: Sim, ela é. Sem esses casos essas questões não estariam no domínio público, e o governo acabaria fazendo o que quisesse. É muito importante apresentar a questão para o público através da lei, apesar de eu pensar que o processo é muito estressante para os indivíduos envolvidos, já que eles tem que encarar toda a pressão sozinhos. Eu desejo que existissem mais comunidades e organizações que dão apoio para esses ativistas.

BH: Existem outras maneiras de se envolver com o ativismo queer?

HX: Eu acho que existe espaço para o ativismo queer na arte moderna. Filmes enviam mensagens bem diretas, mas a arte moderna pode ser bem sutil, conceitual e criativa. Existem muitas coisas que nós podemos fazer com a arte moderna. Também, artistas modernos podem pensar profundamente e criticamente sobre questões sociais. Ninguém pode parar uma pessoa de pensar e experimentar. Uma pessoa pode usar diferentes formas de expressar as suas ideias. São as ideias por trás dessas formas que importam. Eu quero expressar minhas ideias de uma maneira que fale com o público. Por isso, as histórias tem que ser interessantes. Nesse caso deveria ser mais visualmente aceitável, não em termos de ser bonito, mas em termos de ser acessível para o público.

BH: O que você acha do futuro queer da China? Você é otimista?

HX: É mais fácil viver como um indivíduo do que no passado, e também é mais fácil ser gay e se organizar na China nos dias de hoje. Mas eu não acredito que obrigatoriamente que sair do armário seja a única estratégia, ou casamento homoafetivo tenha que ser a única maneira de relacionamento queer. Se assumir não é fácil para a maioria das pessoas da China. Diversidade é mais importante. Eu espero que no futuro exista mais diversidade  do que simplesmente uma única maneira de existir.

BH: O cinema obviamente tem um papel importante na construção da comunidade queer e do ativismo. Como você entrou no cinema?

HX: Eu acidentalmente entrei no cinema ao conhecer mulheres que viviam com HIV/AIDS. A minha tese de doutorado na Universidade de Westminster foi sobre HIV/AIDS na China, e eu fundei a Pink Space depois de ter terminado os meus estudos. A primeira reunião da Pink Space foi para reunir mulheres bissexuais e lésbicas com mulheres que vivem com o HIV para conversar sobre sexo seguro. As participantes ou não sabiam sobre a existência de lésbicas ou nunca tinham conhecido mulheres vivendo com o HIV. A reunião foi para compartilhar sobre desejos e práticas sexuais. As pessoas tiverem momentos bons para rir e a conclusão foi que não existiam diferenças entre lésbicas e as mulheres vivendo com HIV. Nós todas tínhamos desejos e todas queríamos uma boa relação sexual: essa foi uma descoberta interessante. Em outra reunião com esposas de homens gays, mulheres que vivem com HIV, e lésbicas, eu perguntei quem tinha a vida mais difícil. Cada grupo afirmou que outros grupos sofriam mais, diferente de reuniões com gays, onde eles sempre achavam que eles mesmos eram o grupo mais oprimido.

Cada reunião da Pink Space tinham um jornal, mas eu não sabia onde distribuí-los. Eu me encontrei com essa mulher que estava vivendo com o HIV e câncer no fígado com apenas alguns meses de vida. Ela veio para as reuniões da Pink Space regularmente. Ela me perguntou o que poderia fazer com o pouco tempo que lhe sobrava. Eu dei a ela um gravador digital e uma câmera de vídeo e disse para ela contar a história da sua vida. Eu também fui visitá-la todos os dias depois do trabalho e comecei a filmar a vida dela. Eu descobri que ela ainda não tinha contado para o seu filho que ela vivia com HIV ou estava morrendo pelo câncer. Eu senti que era o meu trabalho encorajar ela a contar para o seu filho que ela estava morrendo. Mas ela disse que ela não podia contar a verdade por causa dos stigmas ligados ao HIV/AIDS e à própria morte. Ela tinha que se sacrificar para proteger o seu filho.

Depois dela falecer, eu descobri que ela não tinha um filho. Eu não sabia o que fazer com a história da vida dela, ou como tratar as gravações deixadas. Então eu fui até uma escola de cinema independente e trabalhei com o material. Esse foi o meu primeiro filme – The Lucky One (2012) – e foi muito bem recebido. Ele foi para um festival de cinema independente e até entrou em competições como melhor documentário. O filme também está online e tem mais de 100.000 visualizações. Isso me deu a ideia de que o filme foi uma ótima maneira de apresentar as minhas ideias e contar para as pessoas algo. Depois disso, eu não consegui parar de criar filmes. Eu continuei a produzi-los. Por sorte existem muitos festivais de cinema queer e universidades que desejavam exibir meus filmes. O cinema consegue alcançar um grande público. Eu também gosto de me comunicar com o público através de conversas depois das exibições, e eu posso aprender muito com o feedback do público.

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Matéria original (Em inglês): Queer History, Culture, and Activism in China: A Conversation with He Xiaopei

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