Comunidade trans da Caxemira luta para sobreviver em meio a conflitos

Tradução do texto de Adnan Bhat originalmente postado no The South China Morning Post.

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Um dia antes da Índia retirar de maneira unilateral a autonomia de Jammu & Caxemira através de uma controvérsia ordem presidencial, Babloo se preparava para um mês cheio de casamentos em sua casa na área de Dalgate de Srinagar, a capital do estado.

A mulher trans de 45 anos, tem vivido como casamenteira nos últimos 25 anos. Mas ela gastou mais de 45 dias presa dentro de casa, incapaz de se comunicar com os seus clientes – muitos que ou cancelaram ou adiaram as suas cerimônias de casamento.

Desde o dia cinco de agosto – quando o ministro de relações internas da Índia, Amit Shah, anunciou o plano de revocar a autonomia da região em disputa – a população de sete milhões de pessoas do vale tem sido presas pelas forças militares. Junto com a queda de comunicação, corte de serviços de internet, a vida na Caxemira tem causado grande problemas locais.

“Alguns de meus clientes cancelaram as suas cerimônias de casamento. Outros tiveram cerimônias modestas que não pudemos participar devido às restrições do local. Nós não podíamos perguntar para eles por mais dinheiro porque todos na Caxemira está sofrendo”, diz Babloo, vendo pela janela de sua casa.

Apesar dela ter presenciado muitas perturbações políticas na Caxemira nas últimas três décadas, Babloo não enfrentou situações como esta antes. O medo entre pessoas é sem precedentes, ela diz.

“Nós tínhamos que participar de casamentos somente a alguns quilômetros da minha casa, mas nós não pudemos ir”, diz Babloo. “A força armada da Índia formou um ponto de controle na entrada de nossa vizinhança e não permite que nós atravessemos”.

O primeiro ministro do Paquistão, Imran Khan, criticou a decisão de Nova Déli e apelou pelo apoio internacional em favor da Caxemira em uma declaração na Assembléia Geral nas Nações Unidas.

“Eu temo que aconteça um massacre e as coisas comecem a sair do controle”, ele disse em Nova York, alertando de uma possível guerra nuclear sobre a Caxemira. “Nós estamos indo em direção a um desastre de proporções até então não imaginadas”.

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Tropas paramilitares indianas mandam que um homem da Caxemira deixe Srinagar. (Foto: Xinhua)

Por séculos, a maioria delas – abandonadas por suas famílias ainda jovens e humilhadas pela sociedade – tomaram o papel de casamenteiras, uma vocação que oferece a elas um status social e um emprego. Outras ganham dinheiro cantando e dançando em cerimônias de casamento, que normalmente acontece nos meses de Julho e Outubro, por causa dos rígidos invernos na região.

Omaira, da área de Hawal de Srinagar, abandou os seus estudos por causa do bullying que ela enfrentou na escola. Hoje ela trabalha como maquiadora. A jovem de 22 anos não está preocupada sobre o que as pessoas pensam dela, e não se nega o direito de vestir roupas coloridas e maquiagem em público. Ela diz que é segura sobre a sua sexualidade depois de conversar com amigas trans pelo Facebook.

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Omaira, 22 anos, não tem notícias de suas amigas há semanas (Foto: Syed Shahriyar)

“Hoje, a internet é vida”, diz Omaira. “Nós temos muitos amigos em outros estados indianos como Punjab, Delhi, Himachal Pradesh, e Hyderabad. Nós normalmente mantemos contato com eles, mas nos últimos meses, nós não temos nenhuma notícia deles. Nem eles de nós”.

Ela diz que os seus amigos do Facebook e Instagram a ajudaram a passar por momentos difíceis no passado, dado que a comunidade tem pouco acesso a espaços públicos mesmo em dias normais. Desde o corte da internet esse apoio não está mais disponível, fazendo com que ela se sentisse dentro de uma “cadeia”.

Shabo, de 32 anos, mora a alguns quarteirões de Babloo. Ela trabalha como artista de papel machê na periferia de Srinagar por anos antes de encontrar o seu chamado como dançarina em casamentos.

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Shabo viu o seu salário secar desde que o toque de recolher foi imposto na Caxemira (Foto: Adnan Bhat)

“Eu nunca aprendi a cantar mas isso sempre esteve em mim”, ela disse. Alguns anos atrás, a versão de uma música popular caxemira feita por Shabo viralizou na internet, o que fez com que ela recebesse diversas ofertas de se apresentar em casamentos.

Mas nos últimos meses, ela não recebeu nenhuma oferta e está sofrendo para conseguir dinheiro. “Nós temos formas limitadas de entrada de dinheiro o que nos torna mais vulneráveis do que outras”, ela conta sobre a comunidade trans.

Shabo também não tem notícias de muitos amigos desde o início do cerco. “Alguns de nós que estamos nesses círculos e vivemos próximos nos reunimos na minha casa. Mas aquelas que moram em outros distritos da Caxemira, perdemos completo contato. Isso é assustador”.

Ela se lembra de um caso onde uma mulher trans idosa foi deixada na rua porque a sua família se recusou a aceitá-la. “Nós somos tudo o que temos”, ela diz sobre a comunidade.

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Ativista LGBT Aijaz Ahmad Bund em 2017 ajudou a montar o Fundo Sonzal Welfare, que apoia o bem estar de minorias sexuais (Foto: Adnan Bhat)

“PINKWASHING”

O governo indiano declarou anteriormente que a revocação do status especial de Jammu e Caxemira iria melhorar a vida de mulheres e minorias morando na região. Mas Aijaz Ahmad Bund, um professor assistente da Faculdade Amar Singh de Srinagar que tem trabalhado pelos direitos da comunidade LGBT da Caxemira nos últimos oitos anos, acredita que essa narrativa é mero “pinkwashing”.

“Assim como o estado de Israel, a Índia está tentando se apresentar como um local amigável para pessoas LGBT para ajudar a melhorar a sua imagem. Mas é preciso entender que as agressões contra as pessoas da Caxemira também são uma agressão contra a comunidade LGBT”, ele disse.

Babloo, a casamenteira de Dalgate, concorda com ele. “Eu participei do protesto em 2016”, ela disse, se referindo ao crescente levantamento popular que começou depois do assassinato do militante popular Burhan Wani. “Dois dos meus sobrinhos foram presos depois disso; agora me diga como isso é bom para nós?”.

A jornada de Bund como ativista começou quando ele viu como a sua própria família tratou um homem trans que apareceu em sua casa com uma proposta de casamento para a sua irmã. “Eu fiquei estupefato com a condição enfrentada pela comunidade trans da Caxemira”, ele disse.

Ele começou se voluntariando na comunidade em 2011, e ajudando na construção do Fundo Sonzal Welfare em 2017, que trabalha pelo bem estar de minorias sexuais. Naquele ano, ele publicou o primeiro estudo etnográfico sobre a comunidade trans em seu livro “Hijras na Caxemira: Uma forma marginalizada de humanidade” (Ainda inédito no Brasil). Bund também assinou uma petição na Suprema Corte da Caxemira pedindo por direitos iguais na educação e empregabilidade da comunidade.

Ele acredita que as pessoas não podem forçar a mudar as suas visões sobre a comunidade LGBT. “Se você fizer isso as pessoas ficarão relutantes. Deve existir um discurso dentro da sociedade para fazer mudanças a longo termo”.

Babloo disse nos últimos anos, ela viu uma mudança de perspectivas das pessoas sobre a comunidade. “Antes, quando saíamos, as pessoas mexiam conosco, gritavam comentários. Mas gradualmente isso foi mudando”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): In India, Kashmir’s transgender community struggles to survive under the shadow of conflict

“Eu sonho em realizar uma marcha do orgulho na Caxemira” Aijaz Ahmad Bund

Outdor promove aceitação da comunidade LGBT na Índia

Filme gay considerado muito sensual pela censura finalmente estreia na Índia

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