A florescente cena drag da Palestina desafia os esteriótipos

Tradução do texto de Jaclyn Ashly originalmente postado no The Citizen.

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Kawsar Zant, uma drag queen palestina de 20 anos de Jerusalém, subiu no palco do Duplex Club em Jaffa, vestindo uma beca com uma grande bandeira palestina costurada na frente.

O “Lashhad Hobak” (“Implorando pelo seu amor”) de Najwa Karam explodia das caixas de som, e Kawsar fez a dublagem e dançou. Quando a batida acelerou, ela repentinamente rasgou a sua beca da Universidade de Al-Quds na Cisjordânia, revelando um vestido curto prateado.

Os amigos de Kawsar jogavam rosários da platéia. Ela os pegou e começou a dançar dabke – uma tradicional dança palestina.

“Os passos de dakbe eram especialmente para homens, mas eu estava vestida como mulher” disse Kawsar para a The Eletronic Intifada com um sorriso astuto.

Kawsar faz parte do florescente cenário drag da palestina de Jaffa e Haifa, envolvendo palestinos de todo o território histórico palestino – de Jerusalém até Umm al-Fahm, onde hoje é o norte de Israel.

“Eu estou muito orgulhosa de ser palestina e uma drag queen nessa situação política”, disse Kawsar, percebendo que as suas apresentações e visibilidade estão desafiando as tentativas de décadas que Israel tem de colonizar através do pinkwashing o território palestino ocupado.

“Eu estou também desafiando a antiga forma da Palestina de pensar como um homem e uma mulher devem ser”, ela adicionou.

Um jogo de nomes

Assim como muitas drag queens do cenário palestino, o nome de Kawsar é um jogo de palavras. “Kawsar” é um nome popular árabe, No caso de Kawsar, porém, ela derivou o seu nome de “Kawthar” – o nome de um rio mencionado no Corão, onde foi prometido que qualquer um que beber dele, nunca mais sentirá sede.

Porém, no dialeto palestino de Jerusalém o som de “th” muda para “s”. O nome de “Zant” é um jogo de palavras com a palavra árabe “zanat”, um verbo que significa “ela é adúltera”.

“Eu amo drag porque eu sinto que estou mais próxima de quem eu sou quando estou no palco usando maquiagem e vestidos”, disse Kawsar, que apresentou seu primeiro show de drag no ano passado, para o The Electronic Intifada.

“Eu não sei como explicar isso, mas existe uma personalidade dentro de mim que saim e explode em arco-íris e faíscas”, ela disse, rindo e fazendo gestos exagerados com as suas mãos.

“Quando eu estou no palco olhando para a platéia e ouvindo eles gritarem o meu nome, meu coração bate tão rápido e isso me dá tanta energia”, ela adicionou.

O show de drag acontece no Duplex Club, um estabelecimento de esquerda Judeu-Israelence entre Jaffa e Tel Aviv, e, mais recentemente, no clube Kabareet, que é gerenciado por um palestino em Haifa. Menos frequentemente, cenas mais escondidas também aparecem em Ramallah e na Cisjordânia.

Cherrie Mota é uma drag queen de 21 anos de Nablus no norte da Cisjordânia. O seu nome é um jogo com o insulto árabe “sharmuta”, que significa prostituta.

“As pessoas dizem essa palavra para insultar homens afeminados”, ela explica. “Então eu estou me apropriando dessa palavra, e dizendo: ‘sim, eu sou uma sharmuta'”.

“Fuga da realidade”

Mota, que veio de uma família conservadora, disse que ela começou a descobrir a cultura drag em vídeos do YouTube. “O YouTube era uma escapatória para mim”, ela disse. “Eu pude ver a cultura LGBT e as pessoas que a aceitam e vivem suas vidas livres”.

Mota não sabe especificamente porque ela se atraiu pela cultura drag, mas disse que sempre se interessou por qualquer coisa relacionada pela arte e a expressão de gênero e sexualidade.

“Drag é uma fuga da realidade”, ela explicou. “E ela pode ser usada para qualquer coisa – para a moda, arte ou protesto”.

“Eu acredito no ditado de que quando você dá uma mascara para alguém, elas mostram a sua verdadeira face”, ela continuou. “Eu acredito que drag é dessa forma porque quando você cobre o seu rosto com toda essa maquiagem e roupas exageradas, você está mostrando outro lado do seu rosto – sua verdadeira face, aquela que você tem medo de mostrar por causa de restrições sociais”.

“Então, quando eu estou me apresentando eu me sinto livre e empoderada – como se eu pudesse fazer qualquer coisa e ninguém poderia me dizer o que fazer”.

Mota acredita que palestinos LGBT e as drag queens tem um papel importante na luta palestina, entendendo que a comunidade LGBT acompanha o cenário drag de vários lugares ao redor do mundo.

“Se as drag queens palestinas podem ser trazidas para a cultura central e sob os holofotes, nós podemos mostrar ao mundo a nossa luta na Palestina de diferentes formas, porque eles irão ver o nosso sofrimento como pessoas LGBT sob a ocupação israelense”, disse Mota.

Porém, um dos maiores obstáculos para as drag queens é lidar com as suas próprias comunidades conservadoras.

Sob a legislação palestina, a homossexualidade não é um crime. Porém, em agosto, policiais da Autoridade Palestina anunciaram a proibição de formação de grupos em defesa de direitos de gays e trans, que somente foi revogada por causa da reação negativa.

Por isso, é raro que alguém se assuma para familiares. Somente um pequeno grupo de amigos e familiares sabem da sexualidade de Kawsar e Mota.

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Elias Wakeem, também conhecido como Madam Tayoush, diferente de outras drags palestinas, se assumido para os seus familiares. (Foto: Jaclynn Ashly)

Elias Wakeem, também conhecido como Madam Tayoush, se assumiu para a sua família quando tinha 17 anos.

O nome drag de Wakeem pode ser traduzido como “Dama Flutuante”.

“Quando você é jogado na água, você tem duas opções: afundar, e se você ficar sem ar irá acabar morrendo. Ou, você pode relaxar e flutuar na superfície”, eles explicaram.

W3akeem, hoje com 28 anos, se assumiu para a sua família cristã ortodoxa conservadora e cresceu em um pequeno vilarejo nas periferias de Haifa.

“Eu me assumi de maneira bastante drástica. Eu joguei essa informação como uma bomba. Eu contei para eles, ‘eu sou gay e vocês tem que viver com isso porque esse sou quem eu sou”.

Wakeem é uma das poucas drag queens da palestina, se não a única,  que usa o seu verdadeiro nome em entrevistas e em performances públicas.

“Quanto que podemos nos esconder? Eu não julgo ninguém, mas eu pessoalmente não consigo mais me esconder. Eu quero me mostrar. Eu quero me apresentar e fazer com que as pessoas entendam que eu existo. Porque essa é a maneira que nós somos e não estamos indo a lugar nenhum”, eles disseram.

Bonecas Barbie, batons, e os saltos de mamãe

Mota somente conseguiu se apresentar em festas LGBT particulares em Ramallah por causa do regime instaurado à palestinos da região ocupada da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

Diferente de outras drags palestinas que residem em Jerusalém ou tem cidadania israelense e por isso tem liberdade de circulação entre a Cisjordânia e Israel, Mota deve pedir por uma permissão para entrar na parte ocupada de Jerusalém oriental ou Israel.

“Eu não sei realmente como descrever esse sentimento”, disse Mota. “Ver essas pessoas que tomaram a nossa terra dizendo onde e o que você pode ou não pode fazer – até mesmo determinando se você poderá ou não ver os seus amigos”.

“É um sentimento horrível”, ela adicionou.

Wakeem conta que desde pequeno ele convencia os seus irmãos e irmãs a brincarem com bonecas quando os seus pais não estavam em casa, ou de colocar o batom e saltos de sua mãe.

“Eu acho que esses foram os primeiros show de drag que eu performei”, disse Wakeem.

Os interesses de Wakeem em drag começaram a coincidir com o seu despertar político uma vez que saiu de sua casa em Jaffa aos 17. Wakeem disse que sua família raramente falava de política em casa.

“Política era algo que nós não falávamos. Existia um trauma da experiência dos meus avôs durante o Nakba”, Wakeem contou para o The Electronic Intifada, se referindo à criação de Israel em 1948, quando 750.000 palestinos foram expulsos de suas casas e terras.

“Meu pai em especial se sente muito inseguro quando falava sobre isso por causa do trauma que sua família passou. Então eles não queriam passar esse trauma para nós”.

As explorações de Wakeem de sua identidade sexual e o desenvolvimento da sua conscientização política começaram a “trabalhar juntos”. Wakeem apresentou o seu primeiro show oficial em drag em um clube de Israel em Jaffa aos 18 anos, junto com outras drag israelenses.

De palestinos, para palestinos

Wakeem começou a participar da cena drag de Israel, e focou na situação política do país e nos territórios palestinos ocupados. Wakeem se lembra de de uma apresentação onde ele pedia que o público repetissem as letras de ehtilal – árabe para “ocupação”.

Wakeem gritaa “e” e a platéia repetia. Uma vez que ele tinha todas as letras, Wakeem fazia com que todos gritassem “ehtilal”.

“Foi uma maneira de fazer com que os israelenses percebessem isso apesar de estar vendo uma drag no palco, essa drag não irá sair da sua memória. E ela irá sempre te lembrar sobre o que você está fazendo com o país”, disse Wakeem para o The Electronic Intifada.

Wakeem, que diz que já tem trabalhado por anos no desenvolvimento da cultura drag nos espaços palestinos, contou para a The Electronic Intifada que o cenário drag palestino de Jaffa e de Haifa tem crescido nos últimos anos, atraindo multidões até de fora da comunidade LGBT.

“Recentemente tem surgido essa bela comunicação”, conta Wakeem. “Existe uma maneira para héteros, LGBT e diferentes tipos de povos para aprenderem um do outro”.

“Nós temos que entender que todos temos nossas próprias lutas, e nós temos que escolher vivermos juntos e aprender uns com os outros, ou continuar lutando – assim como os isralenses que estão unidos para lutar contra nós o tempo todo”.

Wakeem disse que quando eles performam em um espaço palestino, eles tendem a se afastar da política e focar as suas apresentações em educar o público sobre a cultura drag.

“Para mim, drag é muito mais sobre diversão e desafiar os espaços palestinos”, contou Wakeem para o The Electronic Intifada. “Ele me permite me expressar exatamente como eu havia feito quando criança, sem pensar nisso eu tive essa questão política que eu precisava falar sobre”.

Mas “Mesmo quando eu faço drag e a música e o show não estão diretamente falando de política ou Palestina, somente pelo fato de estar acontecendo dentro da comunidade palestina é uma declaração por si só – não somente para os Israelenses ou para o mundo, mas para a nossa própria comunidade palestina”, continuou.

“E isso é algo espetacular. Eu sinto que eu tenho um lugar na nossa comunidade agora. Isso é algo que eu costumava sonhar, e hoje está acontecendo e eu faço parte disso”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Burgeoning Drag Scene Challenges Stereotypes in Palestine

Eurovisão 2019 e Parada de Tel Aviv: Grupos LGBT de todo o mundo assinaram petição contra o festival que acontecerá em Israel

Palestinos gays em Israel: The Invisible Men

“Além da fronteira” explora o relacionamento gay entre um israelita e um palestino

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