Uma breve história queer da China

Tradução do texto de Adrien Gaubert originalmente postado no my gwork.

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Vocês já pensaram que o passado da China poderia ser mais aberto que o ocidente em questões LGBT? No Reino do Meio a tolerância era sagrada antes da Revolução Cultural.

Homossexualidade nas filosofias e religiões tradicionais da China.

Apesar das concepções erradas, a China foi relativamente aberta para pessoas LGBT. Não existe nenhuma evidência real de interdição da homossexualidade no taoísmo, e a homossexualidade não era considerada um crime ou imoral. O confucionismo focou no comportamento social e tinha pouco interesse nas práticas sexuais. As recomendações budistas variam tanto no período histórico como com cada Dalai Lama. Relações homoafetivas não eram consideradas pecado nessas três religiões. Porém, filosofias asiáticas enfatizavam a continuidade da família, e é por isso que era extremamente importante para um homem ter filhos e dar posterioridade ao nome do pai.

História LGBT da China antiga

Existem diversas evidências de que a homossexualidade existir ao longo da história do Reino do Meio. De fato, a homossexualidade era uma prática comum dentro de muitas dinastias até que a cultura ocidental veio influenciar o pensamento Chinês.

A linguagem para descrever a homossexualidade era muito mais poética do que as expressões emprestadas da linguagem psiquiátrica ocidental; ela se referia à história que aconteceu entre imperadores e seus favoritos: “A Paixão da Manga Cortada” (Dinastia Han, imperador Ai Ti) e “O pêssego mordido” (Dinastia Zhou). A “Paixão da Manga Cortada se refere à história do imperador Ai Ti da Dinastia Han, onde Ai Ti estava descansando com o seu amante em seus braços e para não acordá-lo, ele então cortou a manga de suas vestes para liberar o seu braço que estava debaixo de seu amado.

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Mesmo que existam poucas fontes históricas de amores sáficos, existem algumas frases antigas e insinuações que se referem a ele, tais como “compartilhar uma refeição” (durante a Dinastia Han).

Nós encontramos, porém, algumas formas de representação na dinastia Yua e na dinastia Ming no século XIV – quando a prostituição masculina foi proibida.

Durante a dinastia Qing poetas produziram textos sobre a homossexualidade (Sonhos da Câmara Vermelha – 红楼梦, de cao xueqin, século XVIII de Kangyouwei – 康有为 [1858-1927]) que promovia a emancipação das mulheres e sugeria um contrato de casamento homoafetivo.

Era de Mao

Durante a era de Mao, a homossexualidade foi proibida e criminalizada como parte da lei que criminalizava o vandalismo: “A referência de vândalos veio de Marx e Engels que se referiam à homens homossexuais como vândalos” (Mann, S. 2011).

Em 1984, a criminalização da homossexualidade parou de ser aplicada, mas foi somente em 1997 que o crime de sodomia foi removido do código criminal.

O ponto chave filosofia de Mao sobre a homossexualidade era a negação de sua existência, que a classificava como um “elemento ruim” entre proprietários, ricos, e contrarrevolucionários. (Sun, Farmer e Choi. 2006)

Sob o governo de Deng Xiaoping e abertura do mercado liberal da China, a homossexualidade foi associada com noções negativas: drogas, alcool e assaltos.

Até o final dos anos 90 a China enviou homossexuais para hospitais psiquiátricos para serem curados usando métodos bárbaros como terapias de eletrochoque. Pessoas gay hoje se referem como “camaradas” (Tongzhi) como uma maneira de recuperar o seu tratamento sob o governo de Mao.

Novos valores e pensamentos modernos positivos sobre a homossexualidade na China

Primeiramente, duas datas importantes devem ser mencionadas: 1997, quando a homossexualidade foi descriminalizada e o termo vandalismo foi retirado do Código Criminal; e 2001, quando a homossexualidade foi retirada da lista de doenças psiquiátricas.

A China moderna está lentamente se tornando um país mais tolerante com a homossexualidade e a reação negativa tem se refletido perfeitamente quando Lu Liping, uma famosa atriz e membro de uma seita radical cristã, disse que a homossexualidade é “vergonhosa” e “pecaminosa”. De fato, a mídia de toda a China defende os direitos de homossexuais e até mesmo a CCTV pediu por paz e respeito à comunidade LGBT.

Nos últimos anos, o governo Chinês tem levado a sério o problema da AIDS no país. Preservar a saúde de homens gays se tornou uma séria questão entre os oficiais chineses.

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Uma pesquisa de 1998 conduzida pelo sociologista Li Yinhe sugeriu que 90% dos chineses concordam que homossexuais deveriam ter o mesmo direito que heterossexuais.

Mais evidências de tolerância e oposição da homossexualidade na China

Algumas Paradas do Orgulho receberam permissão de serem realizadas, nada comparado à paradas do ocidente mas um espaço para diálogo está lentamente crescendo.

Também, associações LGBT começaram a florescer na China, incluindo a associação de pais de pessoas LGBT. Em 2010 a China recebeu a campanha fotográfica Smile4gay com o apoio de pessoas heterossexuais e até de monges budistas.

Além disso, existe uma crescente literatura e arte com temática homossexual.

Finalmente, o governo da municipalidade de Beijing reconheceu o status matrimonial ou parceria civil de todos os estrangeiros, incluindo casais homoafetivos.

Desafios que pessoas enfrentam na China

Mesmo que os tempos estejam melhores para a comunidade LGBT da China, a pressão social ainda está presente. A política do filho único torna difícil para pessoas gays escolherem não se casar ou não terem filhos. Existem muitos classificados na internet para pessoas solteiras LGBT que querem ter um casamento falso para fazer os seus pais felizes. A sexóloga Lin Yinhe estima que entre 70% e 80% das pessoas gays da China se casam e tem relações sexuais extramatrimoniais; 16 milhões de mulheres heterossexuais estão casadas com homens homossexuais.

A homossexualidade é difícil de ser aceita em áreas rurais mas é um fato comum em todos os países ao redor do mundo.

O espaço de lésbicas na sociedade chinesa é ainda mais difícil de ser definido por causa dos direitos de mulheres do país ainda não são satisfatórios: “Como mulheres, elas não são culturalmente reconhecidas como sujeitos sexuais autônomos. Isso é evidente na falta de representação pública de mulheres Tongzhi na mídia e a população acredita que relacionamentos lésbicos são assexuados”.

A falta de engajamento proativo para a aceitação da comunidade LGBT pelo governo Chinês e os seus “três nãos: Não aprovo, não desaprovo, não promovo”, torna a vida de pessoas LGBT mais complicadas. Yanzi Peng, Diretor da LGBT Rights Advocacy China, um grupo baseado em Guanzhou afirma que, “A melhor palavra para descrever a atitude do governo Chinês é ‘ignorar’. É difícil avaliar sua atitude exata. Eles não se postam contra a comunidade LGBT porque isso poderia ir contra as atitudes internacionais sobre o tema”.

Apesar da falta de um posicionamento claro do governo, a mentalidade chinesa é bastante aberta e pesquisas no sina.com mostraram em 2013 que 52% dos chineses estavam a favor do casamento homoafetivo.

O mesmo website baniu conteúdos LGBT em 2018 e sofreu uma grande reação negativa, forçando-os a re-permitir esse tipo de conteúdo.

A Time Magazine reportou recentemente: “Para protestar contra ‘terapias de conversão’ para homossexuais na China, um artista e um oficial estão enviando caminhões estampados com grandes letras vermelhas por diversas cidades ao redor do país”.

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Uma organização chinesa comprou todo o Grindr, que é o segundo maior aplicativo de namoro gay depois do Blued, outro aplicativo chinês. Isso pode parecer um sinal de abertura da China em relação à comunidade LGBT, mas especialistas levantaram preocupações de que o governo Chinês possa ter acesso  à informações de usuários estrangeiros.

Aqui nós terminamos com um trexo de Sima Qian, o primeiro historiador  chinês que falou sobre homossexualidade 100 anos antes de Cristo :  “Quando os Han se levantaram, o imperador Gaozu, por toda sua grosseria e maneiras rústicas, foi ganhado pelos encantos de um jovem homem chamado Ji, e o imperador Hui tinha o seu menino favorito chamado Hong. Nem Ji nem Hong tinham qualquer talento ou habilidade particular, ambos ganharam notoriedade por causa da sua aparência e graça. Dia e noite eles ficavam ao lado dos governantes, e todos os ministros eram obrigados a pedir a eles quando desejavam falar com os imperadores… Esses meninos eram como oficiais… e estavam constantemente no quarto dos imperadores”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): A Brief History of Queer China

Um menino, uma menina e duas mães: Como esse casal lésbico chinês está criando uma família

 Casal gay de Beijing se torna o primeiro a tirar proveito de novos direitos legais na capital

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