Um menino, uma menina e duas mães: Como esse casal lésbico chinês está criando uma família

Tradução do texto de Alice Yan originalmente postado no South China Morning Post.

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Quando os gêmeos de três anos Harry e Helen foram questionados sobre o pai deles, eles tinham já uma resposta pronta.

As crianças contam ao curioso que eles tem um pai, mas ele mora nos Estados Unidos.

Harry e Helen moram nos subúrbios de Kumming, no sudeste da província chinesa de Yunnan com suas duas mães, Cai Rui e Wu Chen.

Cai deu a luz aos gêmeos depois de que uma clínica de reprodução em vitro colocou um óvulo de Wu inseminado com o esperma de um doador americano.

O casal foi forçado a procurar tratamento no exterior porque clínicas chinesas somente realizam esse processo em casais que podem apresentar um certificado de casamento – algo limitado a casais heterossexuais.

Para Cai e Wu, foi um salto para o desconhecido – existia pouca informação na China e poucos falam publicamente de suas experiências.

Mas elas queriam muito engravidar e já estavam acostumadas a tomar o caminho mais difícil.

Cai e Wu se encontraram enquanto estudavam na Inglaterra e registraram o seu casamento lá em 2014. Ambas estavam nos seus trinta anos e logo começaram a pensar em terem filhos.

Elas queriam muito ser mãe e pensavam que a experiência iria fortalecer ainda mais o seu relacionamento, disse Cai.

“Eu acho normal uma mulher querer ser mãe quando ela passa dos trinta anos”, ela disse. “Nós tínhamos consciência que quanto mais velha a mulher é, mais difícil será para ela engravidar. Então era algo um pouco imediato para nós”.

Seus pais também estavam preocupados sobre o bem estar do casal.

“Nossos pais aceitaram nosso relacionamento, acreditando que essa era uma escolha nossa. Porém, eles estavam preocupados sobre o nosso envelhecimento, não existiria nenhuma criança para cuidar de nós”, disse Cai.

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Wu Chen (esquerda) e Cai Rui (direita) deram a luz aos gêmeos Helen e Harry com a ajuda do tratamento in vitro realizado nos Estados Unidos (Foto: Cai Rui)

O casal realizou duas tentativas de inseminação in vitro, com Cai recebendo o óvulo fertilizado de Wu, mas ambas as tentativas falharam.

Elas então voltaram para a China e procuraram outras opções mas na época existiam poucas postagens de chinesas lésbicas compartilhando as suas experiências de darem a luz no exterior, disse Cai.

Então elas entraram em contato com três clínicas dos Estados Unidos e finalmente decidiram tentar em uma de Portland, Oregon, principalmente pela reputação da cidade ser bem aberta para pessoas LGBT.

Cai disse que na hora de escolher o doador de esperma, elas estavam pouco preocupadas sobre a aparência dele e focaram mais na sua saúde física e mental, os seus registros acadêmicos e suas experiências ao crescer.

“Nós queríamos ter certeza que o pai de nossos bebês era um homem interessante e saudável”, ela disse.

O casal escolheu o esperma de um homem branco e implantou os dois óvulos fertilizados em Cai para aumentar as chances de sucesso. Doze semanas depois, o casal voou de volta para Beijing, onde Harry e Helen nasceram no dia primeiro de abril de 2016.

Graças a uma política populacional menos estrita que vigora desde 2016, Cai conseguiu registar as crianças como mãe solteira enquanto as crianças receberam o sobrenome de sua parceira.

“Então a minha esposa é sua mãe biológica e eu sou a mãe de registro deles”, disse Cai.

A família morou em Beijing por um ano antes de se mudarem para Yunnan por compromissos de trabalho. Cai afirma não ter acontecido nenhum grande problema na criação das crianças além de alguns questionamentos incômodos de vizinhos sobre porque as crianças são birraciais e porque o pai delas não está em casa.

“Essas perguntas são como moscas ao nosso redor. Mas elas não são um grande problema e não irão afetar as nossas vidas”, disse ela.

Ela disse que contou para várias pessoas do vilarejo sobre a concepção das crianças e eles responderam “que estilo de vida avançado vocês tem”.

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Os gêmeos Harry e Helen celebrando o Ano Novo Lunar (Foto: Cai Rui)

O casal também tentou explicar a situação para os gêmeos.

“Nós incentivamos valores familiares diversos desde quando eles eram bem jovens, através de muitas coisas incluindo quadrinhos que eles leem e estórias que nós mesmo criamos”, diz Cai.

“Então nós contamos para eles que eles tem um pai. Mas a razão para formar uma família é o amor. Nós não temos uma relação de amor com o pai deles, então ele não mora conosco”.

Cerca de quatro anos atrás o casal abriu uma conta pública no aplicativo WeChat, chamado Raibow Babies, para compartilhar as experiências delas com outras lésbicas do país. Cai diz que a conta tem mais de 17.000 seguidores, muitas comentando com suas próprias experiências com fertilização in vitro.

Uma mulher escreveu na plataforma que ela e sua parceira já estavam juntas há 10 anos e depois de terem uma filha elas ficaram grávidas de um menino.

“Eu não tenho confiança de nós, lésbicas, criarmos um menino. Vocês tem alguma dica para nós?”, a mulher escreveu.

Outra mulher escreveu que desde que ela e sua parceira decidiram ter um bebê, elas tiveram que enfrentar obstáculos em todos os passos do processo, mas o maior benefício foi que “depois de muita luta, o nosso amor se consolidou e nós amamos uma a outra ainda mais do que antes”.

Cai disse que o destino mais popular para lésbicas da China que procuram tratamento in vitro é os Estados Unidos, Tailândia e Camboja, com pelo menos 1.000 grávidas.

“Algumas pessoas hesitam em ter bebês por causa da pressão social. Mas conforme o tempo passa e as mulheres envelhecem, a possibilidade de engravidar cai”, disse Cai.

Cai disse que ela e Wu são normalmente congratuladas pela sua coragem mas elas estavam acostumadas a pegar o caminho mais duro.

“Em muitas ocasiões, esse hábito é a maneira mais honesta de nos forçar a sermos nós mesmas”, ela disse.

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