Assassinato de homem gay levanta questionamentos sobre reforma de direitos humanos no Uzbequistão

Tradução do texto de Umberto Bacchi originalmente postado na Reuters.

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O assassinato de um homem gay no Uzbequistão colocou em foco o tratamento de pessoas LGBT no país e levantou questionamentos sobre as reformas do governo que objetivam atrair investimentos estrangeiros, afirmam ativistas de direitos humanos.

Shokir Shavkatov, de 25 anos, foi esfaqueado até a morte em seu apartamento da capital do país em um ataque que ativistas LGBT afirmam ser um crime de ódio.

A vítima tinha saído do armário pelas redes sociais alguns dias antes, de acordo com a mídia local – uma atitude rara no país onde o sexo entre dois homens é um crime e potencialmente pode levar à sentença de prisão por até três anos.

A polícia afirmou que o motivo do assassinato ainda precisa ser determinado. Um homem de 28 anos que a polícia afirma que tinha conexões com a vítima e havia o encontrado no seu apartamento anteriormente está sendo acusado de assassinato.

Esse é o mais recente de uma longa linha de atos violentos que tem deixado pessoas LGBT do país com medo e coincidem com relatos – que a polícia nega – de uma série de perseguições que tem como alvo homens gays.

“Nesse momento está acontecendo uma temporada de caça de pessoas LGBT no Uzbequistão e é de primordial importância que o governo elabore uma mensagem de tolerância”, disse Steve Swerdlow, pesquisador da Human Rights Watch (HRW) da Ásia Central.

Forçados a se esconderem

O Uzbequistão e o seu vizinho, o Turcomenistão, são os únicos estados da antiga união soviética que ainda mantém o modelo de proibição de relacionamentos homossexuais da era comunista.

Ativistas afirmam que a proibição tem forçado pessoas gays à marginalização, deixando eles expostos a ataques homofóbicos, e fazendo com que vítimas tenham medo de relatar os crimes na polícia por medo de terem a sua sexualidade exposta.

Vídeos mostrando gangues batendo e humilhando homens gays tem chegado a tona nas redes sociais nos últimos anos, incluindo um onde um jovem é forçado a se despir e sentar em uma garrafa de vidro, dizem ativistas LGBT.

“A comunidade LGBT do país vive completamente nas sombras, com medo de se apresentarem”, contou um ativista gay para a Thomson Reuters Foundation por e-mail.

“Homens que saem para se encontrar podem ser mortos, roubados, espancados, chantageados, fraudados ou presos”.

Um relatório sobre direitos humanos feito pelo governo dos Estados Unidos em 2017 apontou que pessoas LGBT reclamaram que os oficiais da lei usam de ameaças de prisão ou de incriminação para conseguir subornos de homens gays.

Autoridades do Uzbequistão não responderam aos pedidos de comentários.

Mais direitos, para alguns

O assassinato de Shavkatov coincidiu com uma pressão para a melhoria dos direitos humanos no Uzbequistão na sua busca para estabelecer melhores conexões com o ocidente e atrair os tão necessários investimentos estrangeiros.

O presidente Shavkat Mirziyoyev, cujo predecessor Islam Karimov foi grandemente criticado pelos seus registros em liberdades civis, voltou a trabalhar com corpos de direitos humanos e pensar na liberdade de prisioneiros políticos.

Ano passado, o governo disse que iria implementar centenas de recomendações para os direitos humanos feitas pelo concelho das Nações Unidas, mas se posicionou na recusa de descriminalizar a homossexualidade, que ele classificou como irrelevante para a sociedade Uzbeque.

Swerdlow da HRW disse que o assassinato de Shavkatov levantou o custo que a falta de ação das autoridades sobre questões LGBT tem causado e como isso poderia prejudicar os esforços do governo em melhorar sua imagem no exterior.

“Isso envia uma mensagem terrível para a comunidade de empresas, que não podem abrir negócios no Uzbequistão se a sua própria equipe poderia estar sujeita a esse tipo de falta de proteção legal quando o assunto é vida familiar privada”, ele diz.

Ativistas LGBT do Uzbequistão afirma que eles esperam que o governo reconheceria que a descriminalização da homossexualidade poderia melhorar a sua reputação ao redor do mundo.

“Com sorte o governo irá ver esse benefício”, disse Anvar Latipov, um ativista de 33 anos que reside nos Estados Unidos. “Mas até agora, a mensagem que temos recebido… nos mostra o completo contrário”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Gay man’s murder raises questions over Uzbek human rights reforms

“Todos seremos vítimas em algum momento”: Porque o único clube gay de Bishkek foi fechado

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