“Invisível porém visível” – As pessoas trans de Cingapura

Tradução do texto de Beh Lih Yi originalmente postado no Openly.

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Um binder, pacotes de injeções de hormônio usadas e um pênis preservado doado depois da cirurgia de transgenitalização – todas partes de uma exibição designada para mostrar a rica história trans de Cingapura.

Essa exibição é uma tentativa de uma das cidadãs trans mais conhecidas de Cingapura para aumentar a conscientização e preservar a vibrante história da cultura LGBT em um país tradicionalmente conservador.

A Cingapura é moderna de diversas maneiras, mesmo assim as atitudes sociais são normalmente conservadoras, com o sexo entre dois homens ser criminalizada. O casamento homoafetivo é ilegal.

Mas nem sempre foi dessa maneira. Nos anos 50, pessoas trans eram uma presença comum nos clubes e bares da Rua Bugis, no antigo distrito de luz vermelha de Cingapura.

“Eu não quero que a nossa história seja esquecida”, disse June Chua, que abriu a exposição em dezembro e também gerencia o único abrigo para pessoas trans de Cingapura.

“Eu quero que o público nos compreenda. Se vocês nos entendem, de onde viemos, quem somos… você então nos verá como iguais”, disse Chua, que se entendeu como menina quando tinha somente 12 anos.

O projeto foi inspirado em uma visita ao Stonewall Inn, o bar considerado como ponto de origem do movimentos dos direitos gays dos Estados Unidos e que hoje recebe o status de monumento nacional.

Cingapura está entre um dos poucos países que reconhece pessoas trans, e a cirurgia de transgenitalização foi legalizada na cidade em 1973.

Aqueles que passaram pelo procedimento podem mudar o seu gênero nos seus cartões de identidade.

“Pessoas trans tem um lugar na sociedade de Cingapura, e estão assegurados às suas vidas privadas”, disse a porta-voz do Ministério do Desenvolvimento Social e Familiar para a Fundação Thomson Reuters por e-mail.

Elas tem acesso à emprego, educação e ao sistema de saúde assim como outros cidadãos de Cingapura e não “podem ser alvo de preconceito e discriminação”, ela adicionou.

Mesmo assim, ativistas dizem que pessoas trans enfrentam grande stigma social, desde dificuldade de encontrar empregos, bullying nas escolas e rejeição de familiares.

“Muitas vezes nós somos invisíveis e ao mesmo tempo visíveis”, disse Chua, que abriu um abrigo em 2014 e já abrigou mais de duas dúzias de pessoas que foram expulsas de casa pelos seus familiares ou não conseguiram encontrar trabalho.

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Uma trabalhadora do sexo trans coloca sua maquiagem no distrito de luz vermelha de Geylang em Cingapura.(Foto: Beh Lih Yi)

Geração Pioneira

Sherry, uma mulher trans, perdeu o seu emprego no restaurante quando ela começou a usar maquiagem e roupas femininas há oito anos atrás, e hoje ela ganha a vida como trabalhadora do sexo.

“Trabalhar com sexo me da independência financeira, mas nós sabemos que no fundo do nosso coração ninguém quer fazer isso pelo resto da vida”, disse ela enquanto acendia um cigarro.

Sherry, que pediu para ser identificada somente pelo seu primeiro nome, esperou que um dia de encontrar trabalho como gerente de hotel – mas ela não está otimista.

“Se eu tivesse oportunidades eu queria estar trabalhando em outra coisa”, ela disse enquanto descansava fora de um bordel no distrito de Geylang. “Mas oportunidades não aparecem fáceis para nós”.

Não existe uma estimativa oficial de quantas pessoas trans existem em Cingapura, e ativistas dizem que a falta de dados na comunidade torna-se impossível enfrentar os problemas que elas sofrem.

Jean Chong, fundador da Sayoni que luta por mulheres lésbicas, bissexuais e trans, disse que as pesquisas do grupo mostraram que um entre quatro mulheres LBT do país já sofreram algum tipo de violência.

“É muito difícil conversar sobre isso porque não existem estatísticas”, disse Chong.

“A documentação deveria ser o primeiro passo para mostrar que isso acontece regularmente, mas isso é invisibilizado”, ela disse.

“O relatório sobre comportamento de pessoas LGBT mostra que elas nunca vão para a polícia”.

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Visão da vida noturna em Cingapura (Foto: Beh Lih Yi)

Debater o HIV é outro problema – Chua disse que a comunidade trans foi categorizada como a principal população afetada, mas nenhum programa específico para a população trans foi desenvolvido pela falta de pesquisa e dados.

O seu projeto de museu é parte de um esforço para buscar o que ela entende como a invisibilidade das pessoas trans de Cingapura.

Ela espera eventualmente expandir a pequena coleção da exibição – que pode ser somente visitada por agendamento devido às verbas e restrições de segurança – para um museu de grande visibilidade.

Ela tem como objetivo a culturalmente diversidade de histórias da comunidade trans da sociedade multi-étnica de Cingapura que ela diz ser muito diferente da do ocidente.

O pênis preservado foi dado por uma mulher trans muçulmana que planeja enterrá-lo junto com seu corpo depois da sua morte, de acordo com as tradições muçulmanas.

O binder está enquadrado com adesivos com inscritos em chinês e inglês que incluem um que diz “seja você mesmo para sempre” e outro “não deixe ninguém te fazer sentir inválido”.

Também entre os itens em exposição está o poster do filme de Hollywood da década de 70 que tinha no elenco uma mulher trans de Cingapura – evidência, diz Chua, de que a comunidade trans tem uma longa história de existência.

“Nós não queremos que nossa história seja esquecida ou apagada”, ela diz.

“Nós temos uma história trans, nós temos uma geração de pioneiros. Antes deles morrerem, eu quero coletar as suas histórias”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): ‘Invisible yet visible’: Singapore’s transgender people live in the shadows

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Orgulho e Preconceito: Retratos revelam as lutas da comunidade trans de Cingapura

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