Drag queens de Seoul lutando contra o conservadorismo

Tradução do texto de Stella Ko originalmente postado na CNN.

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Hurricane Kimchi toma o palco de um bar de Seoul, dançando agitadamente para a música de K-pop de 2008 das Wonder Girls “Nobody”.

Usando um salto alto, uma grande peruca branca e um vestido justo de paetê dourado – uma homenagem para o vídeo da música – ela comanda uma platéia fervorosa que canta e joga dinheiro aos seus pés. Em um momento, um membro da platéia joga uma nota de 10.000 wons (cerca de R$34,00) dentro do cinto dela.

Drag queens ainda são raras na Coréia do Sul. Mas o alter-ego de Hurricane Kimchi, o ativista LGBT Heezy Yang, está lutando para mudar a percepção tradicionalmente conservadora sobre gênero e sexualidade.

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Hurricane Kimchi marchando no distrito de Itaewon durante a Parada Drag de Seoul em maio de 2018 (FotoED JONES/AFP/AFP/Getty Images)

O trabalho do ativista vai desde a escrita da novela sobre a sua experiência ao sair do armário, até participar de um casamento gay encenado no metrô de Seoul. Ele também é o fundador da Parada Drag de Seoul, um evento anual que espera “encorajar tanto pessoas queer como pessoas cis heterossexuais a usarem a arte drag para encontrar sua identidade e expressar os seus verdadeiros sentimentos, pensamentos e estilos”, de acordo com o seu website.

E então existem os shows de drag realizados durante a semana que ele organiza em Itaewon, uma vizinhança internacionalmente diversa que se tornou o principal distrito gay da capital e é conhecido como “ladeira gay” pela comunidade LGBT e locais.

Com tropas dos Estados Unidos assentados em Itaewon depois da Guerra da Coréia, a vizinhança ganhou uma reputação por causa da prostituição e vida noturna. Trans e drags começaram a aparecer nos clubes para o entretenimento de soldados, e a área logo se tornou um refúgio para diferentes tipos de pessoas marginalizadas, de acordo com Todd Henry, um professor de história moderna coreana da Universidade da Califórnia, San Diego.

“É um ambiente incrivelmente diverso, e a cena drag é definitivamente algo que existe há muito tempo, desde os anos 70”, ele disse em entrevista pelo telefone. “E nesses dias, alguns dos artistas mais visíveis e criativos e ativistas vem da comunidade das drag queens”.

Drag ainda pode ser um subcultura marginalizada na Coréia do Sul, mas a cena parece estar crescendo. A primeira Parada Drag de Seoul, que aconteceu ano passado, atraiu mais de mil participantes, ultrapassando a estimativa inicial de 100 pessoas, de acordo com o co-organizador da parada Ali Zahoor. A participação em eventos da Parada do Orgulho também estão aumentando, disse Eun-oh Yang do Centro de Direitos e Cultura de Minorias Sexuais da Coréia.

“Comparado com o passado, a cultura drag existe em formas mais diversas tanto para homens como para mulheres, e hoje nós temos drag queens performando no palco do Festival de Cultura Queer”, ela disse, se referindo ao maior festival LGBT da Coréia, que atraiu mais de 150000 participantes nesse ano. “Eu acho que está se estabelecendo como parte da cultura popular”.

Drag como liberação    

Assim como drag queens ao redor do mundo, Hurricane Kimchi usa a sua performance para se expressar e quebrar “os esteriótipos e se livrar da masculinidade tóxica”, ele disse.

Co-organizadores da Parada Drag de Seoul, Ali Zahoor disse que existe também uma razão unicamente coreana para o crescimento da cena drag de Seoul – incluindo a “ansiedade” causada pela ameaça de guerra.

“A Coréia do Norte logo ao lado… Nós não temos medo, ou nós não estamos pensando sobre isso muito, mas no fundo da nossa cabeça”, ele disse “todos estão um pouco ansiosos o tempo todo e eu acho que é aí que subculturas emergem”.

“Sociedade coreana, como você pode imaginar, é extremamente estressante”, adicionou Zahoor. “As horas de trabalho são extremamente longas, crianças tem que estudar até muito tarde da noite e existe a necessidade de escapar. Drag é uma maneira de sair da rotina, se divertir e mostrar as suas qualidades”.

A Drag queen de gênero-fluido e também youtuber, Serena 303, usa o K-pop e modelos da década de 70 como inspiração para as suas montagens, que incluem um vestido transparente de plástico junto com uma viseira rosa. Seus vídeos, onde ela oferece tutoriais de maquiagem e compartilha como é ser drag, são feitos para empoderar aqueles que ainda estão entendendo as suas identidades.

“Eu quero falar para eles que está tudo bem ser quem você é, e mostrar que alguém como eu pode fazer drag”, ela diz. “A coisa mais importante é que as pessoas irão amar você”.

Para o Drag King e professor de inglês, Jaxter the Taco Master, drag é tanto um anti-depressivo e uma brincadeira com o gênero. Ele é irreconhecível no palco, com olhos esfumados e sua cara completamente coberta de glitter dourado.

“Gênero é uma construção social e eu posso ser masculino ou feminina quando eu quiser”, ela disse.

“Não é só o que outras pessoas querem que eu seja”.

“Não pergunte, não fale”

Existe ainda uma penetrante atitude de “não pergunte, não conte” em relação a comunidade LGBT e pessoas de gênero não conformistas na Coréia do Sul. Hurricane Kimchi, que usa o transporte público para ir aos seus shows, disse que ninguém ousa encarar para ela durante os 30 minutos de jornada.

“As pessoas podem pensar e julgar, mas elas não diriam nada em voz alta”, ela disse. “Mesmo quando eu ando por aí com minha maquiagem drag, as pessoas nem ao menos olham para mim, eles não fazem ou dizem nada”.

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Hurricane Kimchi colocando maquiagem antes de um show na Alley Bunker no distrito de Itaewon. (Foto: Stella Ko/CNN)

Enquanto ela hoje se sente confortável colocando maquiagem em casa, levou anos para que a sua mãe aceitasse a dua identidade.

“Eu acho que ela gradualmente percebeu que não era mais o seu ‘pequeno menino, estudante nota 10′”, ela disse.

Atitudes sociais conservadores ainda prevalecem por toda a Coréia do Sul, que não reconhece legalmente o casamento homoafetivo ou uniões civis. A homossexualidade ainda permanece ilegal no exército onde é punível por dois anos de prisão. Em 2014, o Instituto Nacional da Língua Coreana da Coréia do Sul reverteu a sua decisão de 2012 de tornar a palavra “amor” como gênero-neutro depois de reclamação de grupos religiosos. Hoje ela define amor como um sentimento de afeição “entre um homem e uma mulher”.

“A população LGBT será categorizada como sendo contra a Bíblia ou contra a tradição confucionista e valores parentais”, disse Henry, o professor de história. “Existem argumentos que gays e lésbicas são pró-Coréia do Norte, e que eles são traidores da nação”.

Serena 303 disse que enfrentou protestos de conservadores cristãos durante a parada do orgulho de Seoul no ano pasado. “Eles diziam ‘você é gay, você irá morrer’, e ‘pensem nos seus pais'”, ela se lembra.

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Ativistas contra o casamento homoafetivo participam de manifestação próximo do Festival de Cultura Queer de Seoul de 2019. (FotoChung Sung-Jun/Getty Images AsiaPac/Getty Images)

Uma pesquisa de 2017feita pela Sociedade Coreana de Lei e Política sobre Orientações Sexuais e Identidade de Gênero descobriu que 92,6% dos coreanos LGBT entrevistados tinham medo de ser alvo de crimes de ódio, e 49,3% sofreram “traumas psicológicos”, como stress e depressão, depois de enfrentarem “violência verbal”.

“Se você é LGBT, viver como minoria sexual na Coréia é muito difícil”, disse Yang.

Lenta mudança em direção da aceitação

A influência da cultura pop pode estar ajudando a comunidade drag a ganhar melhor aceitação. Hurricane Kimchi disse que a chegada da Netflix na Coréia do Sul em 2016, que trouxe shows como “RuPaul’s Drag Race”, expôs muitas pessoas para a cultura drag pela primeira vez.

A internet também está tomando a cultura drag fora dos clubes e dentro dos casas de jovens sul coreanos.

“Antes da internet, o mundo da drag estava confinado ao espaço físico dos clubes”, disse Henry. “Hoje com a internet e o Youtube, você pode modelar você mesmo e o seu estilo e persona, e você pode conversar com outras pessoas virtualmente. É um fenômeno realmente interessante”.

E tela teve um impacto na comunidade LGBT da Coréia do Sul. Paradas, eventos e shows ajudam a trazer drag para um público maior, disse Hurricane Kimchi.

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Participantes do Festival de Cultura Queer de Seoul no dia 1º de Junho de 2019 (FotoED JONES/AFP/AFP/Getty Images)

No palco, ela pode transmitir o audacioso glamour das estrelas do mundo drag.

Mas para Kimchi, drag não é só sobre a performance – é sobre quebrar barreiras e encorajando outras pessoas para abraçar a sua verdadeira identidade.

“Eu não irei ser a mais bonita ou a melhor performista, ou a drag mais bem paga”, ela disse. “Esses não são os meus objetivos”.

“Eu quero combinar drag com ativismo e arte e oferecer um lugar seguro para as pessoas onde elas podem performar e experimentar a arte drag”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Seoul’s burgeoning drag scene confronts conservative attitudes

Coreanos LGBT residentes na Alemanha retornam a Seoul para o Festival de Cultura Queeer

Por que eu me tornei uma ativista drag na Coréia do Sul

Parada do Orgulho continua sendo centro de tensões na Coréia do Sul

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