Trabalhadores de Hong Kong ainda lutam com a discriminação no espaço de trabalho

Tradução do texto de Victor Ting originalmente postado no South China Morning Post.

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Quando o empreiteiro Matriz Suen, de 29 anos, recentemente se assumiu gay para os seus colegas de trabalho, ele não imaginava que a sua história pessoal, que tomou muita coragem para ser revelada em uma indústria dominada pela imagem masculina, seria espalhada para outros como uma história cruel.

Foi uma realidade dura para o diplomado, que tinha trabalhado 11 anos em várias funções de colarinho azul antes de perceber que o seu novo espaço de trabalho não estava pronto para aceitar a sua orientação sexual.

Era somente o seu segundo mês de trabalho.

Apesar de se apresentar como uma sociedade cosmopolitana, Hong Kong ainda está tendo problemas com questões LGBT, e essa luta é mais visível nos espaço de trabalho, de acordo com especialistas, especialmente entre os trabalhos manuais estereotipicamente masculinos – e heterossexuais.

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A parada de Hong Kong de 2017 no Parque Victoria na Baía de Vauseway (Foto: Edward Wong)

A discriminação pode ser desde alvo de piadas sem graça, como no caso de Suen, até serem desconsiderados em caso de promoção. No entanto, isso também se estende para a esfera social, na forma de discursos de mau gosto, silenciamentos ou olhares maldosos no dia a dia.

Suen Yiu-tung, um professor de estudos de gênero na Universidade Chinesa, diz que tais encontros são comuns em ocupações de colarinho azul particularmente nas pequenas companhias locais onde esperasse que os empregados tolerem a discriminação no lugar de trabalho.

“Trabalhadores LGBT em posições baixas não tem muito poder de barganha. Eles normalmente são forçados a aguentar se eles não quiserem estragar as suas relações profissionais com colegas e colocar em risco as suas posições dentro da companhia”, ele disse.

Existem quatro ordens contra a discriminação em Hong Kong baseadas em sexo, deficiência, status familiar e raça, mas a lei contra a discriminação baseada na orientação sexual não está na agenda do governo.

Ricky Chu Man-kin, antigo chefe da Comissão de Oportunidades Igualitárias, as fiscalizações de igualdade da cidade, tinha listado iniciativas contra a discriminação de pessoas LGBT como uma alta prioridade durante o seu governo.

Mas ele amorteceu a euforia por mudanças sociais depois da legalização do casamento homoafetivo em Taiwan, ao pedir que a comunidade, ao invés de “lutar por mudança” focassem em “trabalhar com aspectos menos controversos da descriminação baseada na orientação sexual”, como aquelas relacionadas ao ambiente de trabalho.

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Apoiadores do casamento homoafetivo se reuniram fora do Legislativo de Yuan em Taipei, Taiwan (Foto: AP)

Entre 2016 e o ano passado, aconteceram 78 inquéritos ou reclamações sobre discriminação baseada na orientação sexual encaminhados para a comissão. Mas o porta voz disse que a comissão não tem poder legal para resolver essas queixas, seja levando o acusado para a corte ou demandando seções de conciliação entre as partes envolvidas.

“Eu queria que um buraco se abrisse e me engolisse”

Para Matrix Suen, que ainda está no seu emprego como coordenador de projeto porque ele sente que não tem outra opção além de aguentar, o assédio que ele sofre inclui ser chamado de nomes derrogatórios e colegas ficarem falando para outros “tomarem cuidado com ele”.

“Eu fiquei completamente congelado e sem palavras no momento. Parecia tão bizarro e sem sentido para mim trazer a tona um assunto totalmente irrelevante para o espaço de trabalho”, lembra-se Suen.

“Eu queria que um buraco se abrisse e me envolisse”.

Ele também disse: “Eu comecei a pensar duas vezes antes de tirar fotos para documentar o progresso de trabalho de colegas, já que eu não queria deixar uma impressão errada”, se referindo a paranoia de que meus colegas de trabalho pensassem que eu os estava espiando.

Suen Yiu-tung da CUHK disse: “A vida ficou mais difícil como a de Matrix, especialmente quando não existem muitos empregos na indústria e eles querem evitar a reputação de criadores de problemas. Então eles tendem a não levantar a sua voz”.

Enquanto Matrix Suen continua a sua luta, os problemas começaram cedo para Yeo Wai-wai. Ela perdeu o emprego depois que contou a verdade  quando perguntaram sobre a sua orientação sexual em uma segunda rodada de entrevistas.

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Yeo Wai-wai se lembra de ter sua orientação questionada em uma entrevista de emprego (Foto: Jonathan Wong)

Yeo estava em busca da posição de gerente em uma companhia de marketing em 2011, depois de trabalhar mais de dez anos na indústria, e ela estava otimista sobre as suas chances depois de ser chamada para uma segunda reunião.

Mas quando ela retornou para a companhia, Yeo ficou chocada ao descobrir que não seria questionada sobre o seu conhecimento ou experiências de trabalho durante a entrevista com o gerente senior da empresa.

“Ele perguntou meu nome, e então, na sua segunda pergunta, ele perguntou se eu era lésbica. Eu fiquei chocada e simplesmente respondi que sim. Então ele fez mais algumas perguntas mundanas… e então falou que eu poderia voltar pra casa que ele depois ele me telefonaria”, ela se lembra.

“A ligação nunca aconteceu. O que a minha orientação sexual tem a ver com a minha habilidade de trabalho?”

Tais acontecimentos colocam sob o holofote como membros da comunidade LGBT continuam a enfrentar a discriminação no espaço de trabalho, assim como a falta de políticas de companhias que asseguram a sua proteção.

Cyd Ho Sau-lan, uma ex-legisladora e ativista veterana dos direitos LGBT diz: “O governo deveria tomar a liderança para encorajar companhias a instituírem políticas pró-LGBT”.

“Elas são importantes porque a mudança sistemática irá permitir que todos sejam tratados de maneira justa, ao invés de deixá-los à mercê de alguns poucos gerentes”.

Ela adiciona que mais treinamento deveria ser oferecido para gerentes e empregadores para sensibilizá-los em como se relacionar e respeitar pessoas LGBT.

Uma pesquisa de 2016 da comissão descobriu que 56% dos cidadãos de Hong Kong apoiam leis anti-discriminação na cidade. Em 2018, essa porcentagem aumentou para 70% segundo outro estudo conduzido em parceira com a Universidade de Hong Kong e a Universidade Chinesa de Hogn Kong.

Suen Yiu-tung disse: “O governo sempre disse que Hong Kong não está pronta para essa legislação, mas a verdade é que ela está pronta. É o governo que não está pronto”.

“Tudo o que precisamos é um pouco de liderança política”.

Uma porta-voz do Gabinete de Relações Constitucionais com o Continente disse que mais de 350 organizações públicas e privadas que empregam mais de 550.000 pessoas assinaram um código de práticas contra a discriminação de empregados.

O compromisso centra na manutenção de políticas de trabalho pró-LGBT, mas não tem valor legal.

Existe a tal discriminação reversa?

Para o advogado Martin (Nome ficctício), políticas empresariais mais pró-LGBT e mecanismos de denúncia é o que ele espera ver.

Dois anos atrás, Martin foi transferido da filial britânica de sua empresa por seis meses e disse para o seu empregador que o seu namorado ficaria com ele no apartamento oferecido pela companhia em Londres. A proprietária, porém, viu o casal e perguntou sobre o relacionamento deles.

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(Na esquerda) Martin e seu parceiro (Foto: Jonathan Wong)

Martin então recebeu uma mensagem do departamento de logística de sua empresa que a proprietária estava infeliz do seu flat estar sendo ocupado por um casal gay. Ao invés de ficar do seu lado, o departamento disse que ele violou as regras da companhia e não tinha comunicado os seus planos de acomodação adequadamente.

Apesar dele ter reclamado sobre o departamento e ter no final recebido a permissão de morar no flat, ele se sentiu completamente descriminado quando a sua companhia não levou a sério as suas reclamações.

“Eu me senti assustado sabendo da atitude homofóbica do proprietário. Eu não me sentia seguro morando naquele flat sabendo que ela tinha acesso a ele”, contou Martin.

Apesar da legalização do casamento homoafetivo em Taiwan ter animado a comunidade LGBT de Hong Kong a cobrar de autoridades a seguirem esse exemplo, uma onda conservadora começou a se levantar como resposta. 

Choi Chi-sum, secretário geral do grupo conservador da Sociedade pela Verdade e Luz, argumenta que novas leis protegendo pessoas LGBT irá levar a uma discriminação reversa contra pessoas heterossexuais, falando que adicionando que falar em educação e conscientização já é o suficiente.

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Membros da Sociedade pela Verdade e Luz (Foto: Nora Tam)

“Legislações anti-discriminatórias irão oferecer privilégios especiais para pessoas LGBT e silenciar as vozes daqueles que opõe a esse estilo de vida”, disse Choi, se posicionando contra o casamento homoafetivo e a adoção de crianças por casais LGBT.

“Se eles querem proteger pessoas LGBT de serem discriminadas em entrevistas de eprego, nós precisamos expandir essa rede para proteger pessoas gordas e feias de serem descriminadas durante o processo de contratação também?”

Suen Yiu-tung descorda da visão de Choi, argumentando que discriminação reversa é um mito, adicionando “todas as ordens contra a discriminação protegem não somente aqueles que estão historicamente em desvantagem, mas também lados opostos”.

“Assim como a ordem contra a discriminação de sexo, ela protege tanto mulheres como homens igualmente de serem discriminados”.

O professor também também mostra a sua preocupação dos cidadãos se contentarem somente com novas leis. Ele reforça que é necessário que programas educacionais andem de mãos dadas com proteções legais.

Para Matrix Suen, a batalha continua, mas ele aprendeu a se manter positivo: “Eu não me arrependo de ter saído do armário, porque isso faz parte de quem eu sou”.

“Eu espero que um dia não exista mais discriminação em Hong Kong, e pessoas LGBT possam se orgulhar na maneira que eles são e na maneira que eles amam”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): While Taiwan has legalised same-sex marriage, Hong Kong is still struggling with workplace discrimination against LGBT staff – is the city ready for change?

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