O diário de uma mulher muçulmana ainda dentro do armário

Texto de autoria anônima originalmente postado no Them.

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Eu olho para trás, para o meu diário de quando eu frequentava a clínica de saúde mental Meadows em Bloomington, Indiana. Ele se parece com um daqueles diários de laboratório que nós tínhamos que usar nas aulas de ciência no ensino médio – o que faz sentido, considerando que Meadows facilmente poderia se tornar uma escola se você adicionasse mais algumas crianças e se livrasse das ferramentas de medir pressão.

Nós andávamos em linha para o almoço ou para a sala de arte ou para o ginásio. Todos estavam entre 21 e 60 anos, e todos nós vestíamos aventais azuis depois da nossa primeira busca de cavidades. As pessoas que estavam aqui por mais do que dois ou três anos vestiam outras roupas que os seus parentes e amigos traziam. Eu sabia que eu estava a frente do meu tempo, então eu mesma empacotei roupas, assim como livros e cobertores. Eu pensei em levar alguns hijabs comigo, mas eu escolhi vestir capuzes no lugar.

12 de Janeiro

Eu não sei se eu estou somente extremamente crítica ou cautelosa, mas eu quase imediatamente comecei a analisar tudo ao meu redor como se eu não estivesse naquele espaço. Quando eu entrei pela primeira vez na sala de estar (eu acho que porque ela parecia ter a mesma função de uma sala de estar), eu ficava pensando que eu não era como os outros. Me parecia que o que eu tivesse ou por qualquer razão eu estivesse aqui, não era nem um pouco tão ruim como os outros. Eu realizei a minha primeira consulta e a enfermeira se sentiu muito mal de ter que mandar eu me despir para a busca de cavidade. Talvez porque ela tivesse reconhecido que eu era diferente. Não tenho certeza…

A segunda parte das minhas observações começaram com a terapia de grupo. Essa mulher que liderava e coordenava as discussões tinha uma resposta para tudo mas ela literalmente não tinha. Alguém perguntou se fumar era tão ruim quanto beber e ela respondeu com um “ele mata as células do cérebro da mesma forma” e então riu e disse que ela fumava depois das seções.

Eu ajo como se estivesse produzindo  uma etnografia dessa clínica de saúde mental como uma pesquisadora disfarçada. Para ouvir e ver, mas não ser ouvida ou vista. Eu tento fazer com que todos saibam que eu sou esperta. Por toda a minha vida, eu tive que compartimentar minha personalidade dependendo do ambiente e das pessoas que me rodeiam. Eu sempre soube quando eu tinha que ser uma versão diferente de mim mesma. Com meus pais, eu era religiosa e gentil e educada.

Eu tinha 13 anos quando eu criei esse personagem. Era o dia de foto e eu queria vestir um vestido de flores com sapatos brancos. Meu cabelo estava partido em dois rabos do cavalo com um elástico branco e outro laranja para combinarem com o meu vestido. Eu mesma fiz o meu cabelo, então as partes não estavam muito retas, e era um produto muito rústico. Eu caminhei silenciosamente e lentamente para a porta, passei minha mãe, irmã, e irmão, que estavam dormindo no chão, não porque não tínhamos camas, mas porque era assim que eles dormiam no Sudão e minha mãe precisava de consistência.  Eu podia ver a silhueta deles mudar antes dela se sentar e pegar o telefone dela. Eu pensei, se isso fosse um filme, eu teria a habilidade de rodar e sair pela porta antes dela olhar para a minha roupa. Mas eu fiquei parada lá. Ela olhou para mim e pareceu que se eu tivesse dito para ela que eu tinha cometido um erro, ela teria alegremente acreditado em mim.

“Você não vai sair com um vestido de saia curta”, ela disse.

Eu implorei e chorei e disse para ela que todos iriam aparecer bem. Eu me troquei para uma camisa branca e jeans. Eu vesti um agasalho de dois lados. Meu cabelo permaneceu partido em dois rabos de cabalo com os elásticos laranja e branco.

Eu aprendi naquele dia que nenhuma quantidade de lógica ou razão poderia mudar as regras e ordens dos meus pais. Eu cumpria com tudo o que eles diziam. Algumas vezes eles não me monitoravam porque acreditavam em mim. Eu tinha a permissão de  ir para a casa dos meus amigos e ficar até mais tarde do que os meus irmãos. Me parecia que eu estava sendo premiada por ser desonesta.

Eu também aprendi que meus amigos e professores estavam receptivos para a lógica mas não para tradições. Eu agi diferente com cada grupo de pessoas que eu interagia. Eu pronunciava meu nome diferente. Eu decidia se dizia “ser” ou “sê” dependendo de quem estava ao meu redor. Eu sempre tinha um hijab de emergência em mãos e escondia meus shorts embaixo do meu colchão. Eu era muçulmana em casa, ateísta na escola, e agnóstica com minhas amigas católicas. Meus amigos me conheciam como queer e meus pais já tinham o homem com quem eu deveria casar em mente. Eu continuei a desenvolver essas identidades diferentes em personalidades distintas, mas eu não percebia. Eu achava que isso era normal.

15 de Janeiro

A melhor técnica para colorir é com círculos mas um pouco parecido como Andrea colore quando ela está segurando uma limonada na outra mão.

Eu tento ser todas as coisas que todos querem que eu seja. Você diz eu faço, você comanda eu ouço, mas o que é estranho é que eu sabia o que estava errado. Com a mente lavada a pensar que era isso que eu queria, quando tudo o que eu realmente estava fazendo era suportar o ato – para que eu agradasse vocês.

Eu tenho que te decepcionar. Eu tenho que te decepcionar.

1×1 =

2×2 =

3×3 =

4×4 =

5×5 =

6×6 =

7×7 =

8×8 =

9×9 =

10×10 =

Depois de alguns dias, eu comecei a sentir que talvez eu era como todos os outros. Eu fiz uma tabuada para lembrar a todos das expectativas inumanas que nós façamos todas as equações em minutos quando criança. Eu parei de tentar de analisar todos e eu comecei a realmente pensar sobre minha ansiedade e de onde ela vinha.

16 de Janeiro

Ansiedade

É estranho como você pode estar tão cansada e não fiz nada o dia inteiro. É como aquele sentimento de enviar uma mensagem ousada e esperar por uma resposta, mas nove vezes mais forte e consistente. Ou como estrar em uma montanha russa com diversas quedas e aquele sentimento de que “eu preciso me sentar por um segundo” depois que você sai mas continua sentindo isso o dia inteiro. Ou como quando você está com medo e literalmente com dores no estômago, mas somente o seu corpo está assim e sua mente não está conectada então ela não sabe se deve ficar com medo também e isso toma muita energia ter o seu corpo assustado o dia inteiro. Ou como quando você presenciou um acidente que estava prestes a acontecer e você fica com um calafrio e ele fica com você por todo dia apesar de tudo ficar bem. E eu acho que a pior parte é que eu não posso ficar sozinha com minha ansiedade mas eu queria ficar sozinha. Como quando eu sou forçada a conversar com as pessoas, mas eu não quero enviar mensagens ou falar com qualquer um. Tipo, eu quero que eles falem no telefone e não prestem atenção em mim mas ainda se sentem para comer comigo. Ou eu quero que eles vejam televisão enquanto eu durmo ao lado deles mas eu não quero que eles fiquem me observando. Vocês entendem?

Que existência dolorosa a ansiedade me traz.

Recentemente eu fui em um evento de justiça social na Universidade de Indiana chamado Coming Out Stars. Eu me sentei com meus amigos enquanto um mediador distribuía pedaços de papel colorido em formato de estrelas. Eu fico me lembrando e relembrando as instruções do líder da atividade para “escrever o nome da pessoa mais importante no tipo da sua estrela. Agora imagine contar para ela que você é queer. Eles não reagem bem. Retire essa parte da estrela e jogue ela fora”. No final da atividade, não havia mais pontas na minha estrela, significando que ninguém poderia me aceitar. Nem minha família, nem meus amigos, nem meus colegas de trabalho, nem meus professores.

Nos dias depois do evento, meu nível de ansiedade estava extremamente alto; eu tinha mais medo de ter outro ataque de pânico do que o ataque ele mesmo. Eu não podia dormir, então eu caminhei ao redor do campo três ou quatro vezes até eu me cansar fisicamente. Então eu iria dormir na minha cama com todas as roupas – sapatos inclusos – pronta para dar outra volta no campus caso outro ataque de pânico acontecer.

Eu penso sobre a minha mãe constantemente. Eu me imagino contando para ela que sou queer e tentando conversar com ela. Eu me imagino implorando e chorando.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): The Journal of a Closeted Muslim Woman

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