Porque alguns pessoas LGBT de Cingapura preferem permanecer nas sombras

Tradução do texto de Kok Xinghui originalmente postado originalmente postado no South China Morning Post.

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Quando os noticiários relataram em dezembro do ano passado que a Suprema Corte de Cingapura permitiu que um casal gay adotasse o filho deles concebido através de uma barriga de aluguel nos Estados Unidos, não foi recebido com ovações de alegria pela comunidade LGBT da cidade-estado.

A opinião pública sobre relacionamentos homoafetivos é profundamente dividido em Cingapura, onde o sexo gay ainda é tecnicamente ilegal sob a lei da era colonial e as políticas do governo promovem somente a formação de famílias heterossexuais.

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Cingapura permitiu que um casal gay adotasse o filho deles concebido por barriga de aluguel em decisão histórica (Foto: Don Wong)

Então Joanna, uma mulher de 38 anos que trabalha com vendas e é casada com uma mulher, estava preocupada que a decisão da corte resultasse em uma movimentação dos conservadores de Cingapura.

“Nós sentimos que quão mais barulhento você for, mais atenção você irá chamar para os direitos LGBT e isso pode na realidade atiçar a população a ser mais agressiva para acabar com elas”, ela disse.

Joanna, cuja esposa Casey é uma pedreira de 33 anos, disse que ela não estava convencida que “colocar um holofote” em questões LGBT fosse a melhor maneira de assegurar os direitos igualitários. Ela estava se referindo ao debate do ano passado em extinguir com a seção 377A do código penal, que criminaliza o sexo entre dois homens  mas que é raramente utilizada. Ela disse que acredita que o governo, que está conduzindo uma revisão do Código Penal, teria achado mais fácil ter terminado com essa lei se ativistas não tivessem chamado tanto a atenção de grupos conservadores e religiosos para si.

O casal – que pediu para ter os seus nomes alterados – sabe que suas visões não são compartilhadas por muitos da comunidade LGBT de Cingapura.

Na última década, questões LGBT ganharam mais destaque na medida que países ao redor do mundo se mobilizaram para legalizar o casamento homoafetivo e manifestações locais da Pink Dot atrairam mais pessoas a cada ano. Em 2007 e no ano passado, existiram chamadas para acabar com a seção 377A mas todas as vezes que debates nacionais aconteceram, o governo se posicionou de maneira neutra e não se moveu quando a sociedade estava pronta.

O governo também reforçou as suas posturas pró-família. Desde a decisão de adoção, que a corte explicou como um compromisso de priorizar o bem estar da criança e aumentar as suas propensões de adquirir cidadania cingaporeana, o Ministro de Desenvolvimento Social e da Família anunciou o seu desejo de endurecer as regras de adoção e gravidez por inseminação.

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Participantes do evento anual do Pink Dot em Cingapura (Foto: AFP)

Casey, que tem um passaporte estrangeiro e uma permissão de emprego em Cingapura, disse que ela não “se sente aprisionado” aqui.

“Eu posso me locomover, eu posso sair e ir para diferentes lugares e não me sinto oprimida”, ela disse.

Ela disse que nem ele nem Joanna enfrentaram comentários maldosos sobre a sua sexualidade como tiveram ao viajar em outros países. Enquanto elas não são legalmente reconhecidas como um casal em Cingapura, elas deram a volta criando testamentos e registrando poderes de representante legal uma da outra, garantindo direitos para ambas sobre decisões médicas ou financeiras uma da outra.

De acordo com o ex-professor Joseph Chong, atitudes públicas mudaram a ponto de “você poder andar de mãos dadas em Cingapura e ninguém irá se importar ou te perturbar sobre isso”.

Mas quando se trata de direitos igualitários para pessoas LGBT, a cultura do “não pergunte, não conte” ainda é a prevalente. Ele disse que apesar de nunca ter escondido a sua sexualidade dos colegas em uma escola de elite onde ele trabalhava, ele também nunca se sentiu confortável em sair do armário publicamente, como participar das manifestações da Pink Dot que acontece na cidade desde 2009.

“Eu não queria colocar a minha escola em algum tipo de posição onde eles pudessem ser questionados. Eu acho que eu tinha que respeitar um certo limite”, ele disse.

Para Kerry Sieh, um geologista de destaque dos Estados Unidos que foi convidado para a cidade-estado em 2008 para ser chefe do Observatório Terra de Cingapura, diz que “Cingapura tem piorado muito”.

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Uma participante do Pink Dot que aconteceu no parque Hong Lim em Cingapura (Foto: AFP)

Há dez anos atrás, o seu empregador ajudou que o seu parceiro tivesse um emprego e uma residência no país. Ele citou o impedimento da participação de estrangeiros na manifestação do Pink Dot de 2017 como evidência da mudança de opiniões.

“Eles tinham barricadas ao redor de todo parque e todos os estrangeiros tinham que permanecer do lado de fora”, ele disse.

Sieh disse que ele somente aceitou o emprego porque Lee Kuan Yew, conhecido como um dos fundadores da Cingapura moderna, disse publicamente em 2007 que o governo não iria interferir na vida privada de pessoas gays.

Em setembro do ano passado, o ministro da educação Ong Ye Kung disse que quando se trata de “trabalho, moradia e educação” não existe discriminação contra a comunidade LGBT em Cingapura.

Apesar de isso poder ser verdade, ainda existe a opinião pública que cria preocupações, de acordo com Thomas, um educador que pediu para ter o seu nome alterado.

“Se você estiver perguntando se nós queremos nos levantar e sermos contados, nós realmente não podemos”, ele disse.

“Digamos que um estudante ou os pais entrem com uma reclamação formal, isso será usado contra nós? Não existe nenhuma declaração clara do ministério da educação sobre o que irá acontecer se uma reclamação for feita contra você por ser LGBT”.

Chong, um ex-professor, compartilhou preocupações semelhantes: “o público iria se questionar “qual o posicionamento da escola? Vocês permitem professores como esse na escola? Qual o posicionamento do ministro da educação?”

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Participantes do evento Pink Dot em 2014 (Foto: EPA)

Essa pressão de apresentar publicamente uma personalidade no lugar de quem você é na vida privada é algo que Amanda Wee, uma mulher trans de Cingapura que hoje mora na Nova Zelândia, conhece muito bem.

Como católica, ela sente o peso tanto das expectativas da sociedade como da religião. Mas os seus amigos LGBT ainda pressionam ela a apoiar “tudo de todas as maneiras”.

“Eu me sinto dividida já que eu quero apoiar os meus amigos gays, mas de um ponto de vista religioso eu me sinto presa de quanto eu posso apoiar o ativismo lgbt, e francamente eu ainda não encontrei o meio termo”, ela disse.

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Amanda Wee

O assistente social e diretor executivo do grupo de aconselhamento LGBT Oogachaga, Leow Yangfa, disse que dada a “realidade pragmática da situação de Cingapura”, uma “sutil combinação” de ação e inação é provavelmente a melhor abordagem.

“O que é mais importante é que, como comunidade, nós não acabemos tendo visões divisivas sobre o que é certo e melhor”, disse ele.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Why some members of Singapore’s LGBT community prefer life in the shadows

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