Três artistas falam como é ser Queer, Muçulmanos e Paquistaneses

Tradução do texto de Pallavi Pundir originalmente postado no Vice.

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“hey
muito sexy para ser um inimigo
Nunca tive a oportunidade de beijar um Pakistani hehe (sic) ”


Aap apna tashreef lekar dafa ho jaye yaha se
Hafiz saeed ki jihadi aulad
Salaam walikhum
(Você pega essa bunda e saia daqui, seu jihadi filho de um Hafiz Saeed. Que a paz esteja sobre você). ”

Em uma tarde durante o meio da semana, Aziz Sohail compartilhou comigo um PDF, com diversos extratos incluindo os dois acima. Essas são do que ele chama de “Diários do Grindr”, que ele criou no verão passado quando visitou Nova Delhi. O conteúdo, como pode-se ver (e como ele avisa) é “sensível” – mensagens clandestinas trocadas entre Sohail, um homem cis e gay, e outros homens no famoso aplicativo gay, Grindr. Exceto que Sohail é do Paquistão, e as mensagens acima, que parecem pequenos poemas, formam uma visão do que é ser marginalizado até mesmo dentro de mundos marginalizados.

No sul da Ásia, ser queer vem acompanhado de desafios que são mais do que somente a visibilidade – esteriótipos e discriminação estão no centro das identidades e políticas LGBT. E em um país de maioria muçulmana como o Paquistão – onde as leis criminalizam a homossexualidade e tornaram o país um dos 73 do mundo onde o sexo consensual entre duas pessoas do mesmo sexo é ilegal – políticas queer não estão somente nas margens da sociedade, mas estão constantemente sendo ameaçadas também.

Aqui, ataques homofóbicos e transfóbicos são muito comuns e levados por impunidade. O relatório mundial da Human Rights Watch de 2018 observou uma contínua violência e contra pessoas trans e intersexuais, mesmo o governo paquistanês tendo aprovado uma lei no ano passado que reconhece direitos fundamentais para cidadãos trans e que também criminaliza a discriminação.

E então existe a identidade de ser paquistani, que adiciona uma camada complexa. Nessa situação, qualquer forma de voz se torna revolucionária.

E é aqui que se encontra o trabalho de Sohail, que é parte de uma grande colaboração seus colegas Abdullah Quershi e Zulfikar Ali Bhutto Jr. Nos últimos anos, os três tem, através da arte, subvertido a construção de narrativas sobre o que é ser queer no contexto muçulmano paquistani.

Trabalhando juntos de diferentes países – Qureshi mora em Helsinki, Finlândia, enquanto que Bhutto Jr e Sohail moram na Califórnia, Estados Unidos – os três se aproveitaram da tecnologia para trabalhar no seu primeiro show no ano passado nas Filipinas, chamado “políticas indisciplinadas”, que incluiam o trabalho de Sohail apresentado acima. Esse show foi acompanhado de “Na meia-noite não existem fronteiras”, que incluiu “CharBagh” (Quatro jardins) de Qureshi, uma instalação que foi montada através das contas de refugiados iraquianos gays.

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Zulfikar Ali Bhutto Jr também se apresenta pelo seu nome drag, Faluda Islam. (Foto: Nabil Vega)

Bhutto Jr, ao mesmo tempo, tem recebido atenção da crítica pelos seus trabalhos visuais e performances que o tornam mais do que o neto de Zulfikar Ali Bhutto, o fundador do Partido do Povo de Paquistão (que foi deposto em golpe militar e executado em 1979), para hoje, ser visto como um artista que trabalha com as políticas da sexualidade no Islã ao mesmo tempo que encaramos a islamofobia como crise mundial.

“Muitos pensam que a identidade queer e a muçulmana não podem co-existir”

Crescendo como um paquistani queer veio com uma dura realidade de constantes ameaças a sua vida não somente dele como pessoa LGBT, mas de sua família também. “Crescer no Paquistão foi, é lógico, muito duro, com muito bullying no ensino médio”, conta Sohail para a VICE. “Eu já estava lutando com a minha identidade antes de ir para uma faculdade nos Estados Unidos. Eu voltei em 2013 depois de me formar e trabalhei aqui por cinco anos. Na realidade, ser queer não tinha um papel nas minhas práticas por muito tempo”.

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Um detalhe de “Flora Bazooka” de Zulfikar Ali Bhutto Jr.

Por causa de informações erradas e um compreendimento linear do Islã, existe um paradoxo em ser queer e muçulmano ao mesmo tempo. Normalmente, essas duas identidades não são vistas juntas. E quando se pensa em práticas como as artes, o processo pode ser complexo, especialmente para membros LGBT que também cresceram com essas noções. “Principalmente porque muitas pessoas, incluindo muçulmanos e paquistanis, acreditam que a identidade queer não pode co-existir com a ser muçulmano e paquistani. E na juventude, eu pensava isso também”, conta Abdullah para a VICE.

“E foi difícil porque eu senti que deveria escolher entre um ou outro. Porém, na medida que eu fui encontrando mais pessoas como eu, eu firmemente acreditei que não existiam contradições em ser nenhum desses dois. E de qualquer forma, vamos esquecer sobre ser queer por alguns segundos, e olhar para ser muçulmano e paquistani. Essas duas identidades são incrivelmente complexas – existe uma única definição para qualquer uma delas?”

Qureshi, na realidadem não pensa sobre ser queer e como isso pode afetar a sua arte até ele ter voltado para o Paquistão depois de ter estudado no exterior em 2012. “Me assustou como muitas pessoas no Paquistão rejeitavam palavras como ‘gay’, especialmente quando pensávamos sobre maneiras de descolonizar. De aí em diante, conversando e pensando sobre ser queer se tornou vital para mim, e não foi uma surpresa eu ter começado a inserir de maneira forçada isso nos meus trabalhos criativos também”.

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Extrato do “Diários do Grindr” de Aziz Sohail.

“Nós também estamos conscientes que isso vem da perspectiva de três homens cis”, conta Qureshi para a VICE. Expandindo o diálogo, nos próximos anos, todos nós estamos trabalhando em uma diversidade de projetos com várias outras pessoas queer em campos de investigação semelhantes – e a colaboração continua ao incluir a voz de cada um de uma maneira ou de outra”.

“Eu primeiro pensei sobre ser paquistani quando eu estava em Londres”

Talvez foi o fato dos três terem começado os seus questionamentos quando moravam no exterior que a sua identidade nacional se tornou uma parte muito importante dos seus trabalhos. Qureshi primeiro pensou sobre ser paquistani quando estava na faculdade em Londres. “Eu me lembro de ter percebido como eu nunca realmente tinha pensado sobre o que significava ser paquistani e muçulmano. Olhando para trás, eu posso dizer que na época, eu estava fugindo de ambos porque eu sentia que eram o oposto da minha identidade sexual – que eu também estava descobrindo e sofrendo na época”, ele conta. Foi somente na sua volta ao Paquistão em 2012 que ele começou a se reunir e envolver com outros grupos marginalizados dentro do Paquistão.

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Aziz Sohail (Foto: Naiza Khan)

Bhutto Jr, que é “completamente libanês pelo lado materno e iraniano e paquistani por parte de pai”, foi muito afetado pela “ocupação, agressão e guerra” durante a invasão de Israel no Líbano em 2006, e os “problemáticos critérios duplos” em Israel. “Ficou claro na época que marrons e corpos árabes não mereciam ser salvos”, ele disse. “Essa experiência foi fundamental para o meu trabalho; minha prática escava histórias de guerra, resistência e luta de guerrilha no sul da Ásia, norte da África, Oriente Médio e Irã e a reinterpretação deles na revolução fictícia que acontecerá no futuro”.

O seu atual trabalho é influenciado pelo Islã como uma religião global e identidade política que tem sido historicamente marginalizada, vilanizada e especialmente sendo alvo de colonialismo e imperialismo. Ele conta para a VICE, “Identidades queer se tornam importante para mim porque ao olhar para essas histórias de resistência popular, a heterossexualidade é a norma, mesmo dentro do caos. Que espaços corpos queer tem na história? Que lugares eles poderiam ter? Como nós criamos um vocabulário ou estéticas para as lutas do terceiro mundo queer que está somente preocupado em colocar um fim no ciclo de guerra e violência?”

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“A meia noite não existem fronteiras” de Aziz Sohail da exibição em Lahore curada por Abdullah Qureshi e Natasha Malik. (Foto: Aziz Sohail)

“Nós somos parte de um momento coletivo maior”

O artista também reconhece que é mais importante para eles falar sobre as coisas que eles fazem agora, quando o movimento LGBT em todo o sub-continente está no seu pico, e corpos governamentais estão providenciando uma aceitação maior para a comunidade – a Índia descriminalizou a homossexualidade no ano passado e o Butão está caminhando na mesma direção.

Mas ao longo dos últimos anos, temos visto incidências de de espaços seguros para pessoas LGBT sendo invadidos e violados – um terrível exemplo aconteceu em Bangladesh há três anos atrás quando dois ativistas LGBT foram brutalmente assassinados em suas próprias casas, o que silenciou a comunidade e ativistas queer da região.

“Eu acho que é vital para nós reconhecer que independente do que nós estamos fazendo, tudo faz parte de um momento coletivo maior onde é visível dentro do Paquistão, assim como em todo Sul da Ásia”, diz Qureshi. No Paquistão, a comunidade trans está atualmente na frente do movimento queer, especialmente demonstrando força política. “Em contraste, membros LGB da comunidade, apesar de permanecerem sem proteção da lei, normalmente encontram espaços criativos – especialmente nas artes visuais e na literatura – para falar sobre o desejo homoafetivo e ser queer no Paquistão”, ele conta.

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Abdullah Qureshi (Foto: Hammas Wali)

Complementa Bhutto Jr, “Eu não acredito que qualquer um de nós esperava a escala que esse movimento LGBT que tem ganhado energia no Líbano, Egito e sul da Ásia e, quem sabe, se essa guerra global contra o terror não tivesse destruído a vida de milhões de pessoas, nós poderíamos estar vendo isso no Iraque e Síria nos dias de hoje.

Apesar disso, a visibilidade ainda é um terreno muito sensível para artistas e ativistas, e, Qureshi admite ter cautela enquanto trabalhava nos seus projetos. “Eu não acho que eu tive que me censurar nesse processo, mas em alguns momentos tive que andar com cautela – que eu faria da mesma forma quando apresentava o meu trabalho no ocidente sobre questões que muitas pessoas tinham opiniões tão fortes”, ele disse.

Também existiam preocupações da comunidade sobre a maneira que a mídia relataria essas questões e representações – e a maneira que a linguagem do relatos retratavam o movimento LGBT foi algo que uma matéria recente da Time Magazine sobre as revoltas de Stonewall apontaram. “A mídia cria um sensacionalismo sobre pessoas queer”, diz Bhutto Jr. “A grande mídia em particular não sabe como falar sobre arte queer  e ou ela é altamente fetichizante com gênero e sexualidade tomando todo o espaço da conversa ou coomo uma nota de rodapé nos esquemas das práticas artística globais. Onde está a complexidade, o meio caminho, quando iremos falar da arte em si, os seus aspectos conceituais e formais reconhecendo a sua identidade queer como uma das muitas influências que ela apresenta?”

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Trabalhos de Abdullah Qureshi da sua série de retratos de 2016 até 2018, onde os seus modelos formados de amigos queer, aliados, e principalmente encontros do Paquistão. A esquerda está “Insta Love”, e o da direita é intitulada “Eu sempre confundi amor”

No momento, porém, essa colaboração é uma maneira significante de ver como conversas diárias formam políticas queer e identidades muçulmanas dentro e fora do Paquistão. “Ainda existe um longo caminho para muitas pessoas e enquanto os três de nós podemos falar de questões LGBT na segurança dos Estados Unidos e da Finlândia, existem muitos ainda trabalhando em outros países de diversas maneiras para mudar políticas e criar acessibilidade pela conscientização da saúde sexual e tratamento de IST”, diz Bhutto Jr.

“O que Abdullah, Aziz e eu fazemos no exterior tem um efeito sobre a comunidade queer do Paquistão. Nossa visibilidade pode ser tanto positiva e negativa e isso é importante trabalharmos com cuidado.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Three Artists Tell Us What It’s Like To Be Queer, Muslim and Pakistani

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