“Eu estou pronta” diz a primeira candidata trans ao cargo de Primeira Ministra da Tailândia

Tradução do texto de Rina Chandran originalmente postado no Reuters.

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Pauline Ngarmpring pensou que ela iria ter uma vida calma quando começou a sua nova vida como uma mulher trans depois de transicionar quando tinha 49 anos.

Porém, depois de três anos, ela é uma das candidatas para Primeira Ministra da Tailândia – a primeira candidata trans para esse posto no país – e os seus dias e noites estão cheios com as reuniões de estratégias, campanhas e entrevistas.

É uma reviravolta inesperada para a antiga jornalista que se tornou promotora de esportes, e que rapidamente abraçou o seu papel como embaixadora dos direitos LGBT e igualdade de gênero em um país que tem poucas lideranças femininas ou abertamente LGBT.

“A política era o meu interesse a muito tempo, e como homem, eu recebia muitos convites para participar de partidos políticos. Mas eu não estava mais no esquema de interesses depois que eu fiz minha transição”, ela conta.

“Como uma mulher, eu estou confortável e não tenho nada a esconder. Eu estou pronta, mas as pessoas estão prontas para aceitar uma candidata trans?”

O contexto parece estar favorável para o primeiro ministro Prayuth Chan-ocha, monarquista apoiado pelos militares e e apoiadores do antigo primeiro ministro Thaksin Shinawatra que está exilado.

Ngarmpring – que se candidatou com o seu primeiro nome Pauline – é uma dos três candidatos a primeiro ministro pelo Partido Mahachon, e não é considerada uma das favoritas.

Mas, a comunidade LGBT da Tailândia tem esperanças ela – e os aproximadamente 20 outros candidatos LGBT ao parlamento que o Partido Mahachon está apoiando – irão ajudar a colocar atenção sobre os desafios que enfrentam e suas habilidades, diz ativistas.

“A sua candidatura é significante porque ela está desafiando as normas tradicionais de gênero e sexualidade”, disse Anjana Suvarnanda do grupo Anjaree, um organização de direitos LGBT.

“Apesar de termos pessoas LGBT na política da Tailândia no passado, ninguém apresentou a sua identidade abertamente para o público, e não tem acontecido discussões públicas sobre abordagens positivas dessas questões”, ela disse para a Thompson Reuters Foundation.

Conexões familiares

A Tailândia tem construído uma reputação de um lugar bastante receptivo para questões de identidade de gênero e sexualidade desde que a homossexualidade foi descriminalizada em 1956.

A sociedade budista conservadora está para aprovar uma lei que reconheceria o casamento homoafetivo no país.

Porém, pessoas LGBT enfrentam discriminação e estigmas nas escolas, locais de trabalho e atendimentos de saúde, e são normalmente rejeitadas pelos familiares, dizem ativistas.

Para mulheres trans, as barreiras são particularmente altas.

Ngarmpring, que realizou a cirurgia de transgenitalização nos Estados Unidos, e passou três anos lá durante a sua transição, se considera privilegiada.

“Eu tive sorte por que eu já tive uma longa carreira de sucesso como homem antes da minha transição”, ela conta.

“De outra forma, pessoas trans não tem muitas oportunidades de emprego, e são forçadas a trabalhar na indústria de entretenimento ou na do sexo”, ela conta.

Oportunidades na política são ainda mais limitadas.

Enquanto os números aumentam, políticos abertamente LGBT ainda enfrentam discriminação e até mesmo ameaças de morte em alguns países.

Mulheres estão em uma situação semelhante: a média global do número de mulheres em parlamentos é de 24% – bem abaixo da base de 30% considerada satisfatória no nível de representação, de acordo com a United Nations Women.

Na Ásia, a média é de 20%, enquanto que na Tailândia é de somente 5%, uma das mais baixas do mundo.

“Mulheres não são levadas a sério na Tailândia; existiram algumas mulheres na política, mas é muito difícil entrar na política sem conexões familiares”, disse Ngarmpring.

A Tailândia teve uma única mulher como primeira ministra – Yingluck Shinawatra, irmã de Thaksin – e dos aproximadamente 70 candidatos para a vaga de primeiro ministro, sete são mulheres.

Mulheres são impedidas por leis discriminatórias, assédio e violência, poucos contatos e recursos, assim como normas sociais e culturais, disse Alisson Davidian na United Nations Women em Bangkok.

“Esses fatores todos continuam a criar um ambiente que é normalmente hostil para o engajamento político de mulheres”, disse ela.

“Mas, da mudança de climas para conflito, na medida que enfrentamos desafios no século 21, nós não podemos excluir as perspectivas e habilidades de mulheres na vida política”.

Perfil público

O Partido Mahachon está fazendo uma campanha sobre direitos humanos e igualdade nas linhas políticas, econômicas, sociais e de gênero.

Seu manifesto inclui a descriminalização do trabalho com sexo e mais direitos para pessoas LGBT, incluindo a alteração de gênero em documentos oficiais, que a Tailândia ainda não permite.

Como mulher trans, Ngarmpring disse que ela tem uma perspectiva única nos desafios enfrentados por mulheres e pessoas LGBT.

“Por causa do meu perfil público, pessoas que estão no armário olham para mim como fonte de inspiração, e algumas vezes me mandam mensagens”, ela disse enquanto jantava em um restaurante antes da sua campanha em Bangkok.

“Eu digo a eles: tome o seu tempo, não é sobre o que as pessoas pensam, é sobre ser transparente consigo mesmo. Levou 40 anos para eu aceitar que eu era uma mulher”, ela conta.

Contratada pelo partido Mahachon para trabalhar inicialmente nas estratégias e políticas, Ngarmpring postou em sua página do Facebook que apesar dela ser trans, ela estava exercendo os eu direito como cidadã tailandesa de gerenciar um escritório.

“O caminho é longo, mas se você não começar hoje, as nossas crianças que podem ser trans, gay, homens ou mulheres, ou que não se conhecem e não sabem dos seus direitos… como eles terão igualdade?” ela fala.

Cerca de 14% do eleitorado, ou 7 milhões de pessoas, terão a chance de votar pela primeira vez na Tailândia, um fato que analistas disseram ser a favor de candidatos que não fazem parte da antiga guarda, e que prometem trazer uma nova onda para o governo.

Enquanto passava pelas movimentadas ruas de Khlong Toey, o maior mercado aberto e favela de Bangkok, Ngarmpring distribui cartões, se apresentava e respondia perguntas, e pousava para fotos com vendedores e transeuntes.

Vestida nas cores do partido, branco e azul, ela estava acompanhada por meia dúzia de apoiadores segurando cartazes.

Muitas pessoas não reconheciam Ngarmpring – e estava tudo bem para ela.

“Eu sei que ter me candidatado é um gesto simbólico. Eu sei que não irei ser eleita como primeira ministra por enquanto”, ela disse.

“Mas nós esperamos que ganhemos alguns assentos e pessoas LGBT representam o país. E talvez da próxima vez, mesmo uma mulher trans tenha a chance de ser eleita”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): ‘I’m ready,’ says first transgender candidate for Thai PM

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