Orgulho e Preconceito: Retratos revelam as lutas da comunidade trans de Cingapura

Tradução do texto de Stella Ko originalmente postado na CNN.

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“Passar pela transição ou cirurgia não irá te dar o corpo perfeito”, é a mensagem de um homem trans, escrita a mão sobre uma imagem do seu corpo semi-nu.

Sham é uma das seis pessoas que aparecem em “Escrevendo na parede”, um projeto de fotos da fotógrafa Grace Baey de Cingapura. A séria apresenta homens e mulheres trans em cenários íntimos de escolha deles, da cozinha onde uma pessoa encara comentários dolorosos de membros da família, ao banheiro onde outros confrontam suas cicatrizes de seis cirurgias estéticas.

“Em Cingapura, assim como em outros lugares, questões LGBT podem ser bastantes polarizantes”, disse Baey em uma entrevista pelo telefone. “Esse projeto está tentando enfatizar a jornada emocional que as pessoas passam quando estão transicionado, e os tremendos custos físicos, financeiros, sociais e emocionais”.

Originalmente uma pesquisadora em geografia humana, Baey se mudou da academia para a fotografia em 2015, e passou mais de quatro anos conhecendo os seus fotografados.

“Eu sinto um profundo senso de responsabilidade ao contar as histórias deles de uma maneira autêntica, porque precisa existir uma razão profunda do porque se tornou inevitável para eles tomarem essa jornada”, ela conta.

Próximo da sua exibição em Cingapura, um país conhecido por suas atitudes relativamente conservadoras em relação as questões LGBT, Baey falou com a CNN Style sobre o seu projeto e os estigmas que os seus modelos sofreram.

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Sonia Pravinaa, fotografada aqui, organiza um concurso de beleza anual para mulheres trans na vizinhança de Pequena Índia em Cingapura (Foto: Grace Baey)

CNN: Muitos da comunidade LGBTQ do sudeste asiático estão marginalizados. Os seus modelos compartilharam as suas experiências de discriminação ou violência?

Grace Baey: Sim, certamente. Eu tirei uma foto de Jose se barbeando em frente ao espelho porque ele precisa se barbear toda vez que ele precisa voltar para a sua casa na Malásia. Esse foi um compromisso que ele fez com o seu pai quando ele assumiu ser um homem há seis anos atrás. Sua barba é uma fonte de orgulho e parte da sua identidade masculina, e é muito doloroso para o Jose se barbear todas as vezes. Mas ele aceita já que ele quer dar tempo suficiente para que a sua família aceite a sua identidade de gênero.

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Jose, na foto, contou para Baey que o seu pai insistiu para que ele se barbeasse antes de visitar eles (FotoGrace Baey)

Quando um indivíduo está transicionando, toda a família também está em transição. Isso é porque eu decidi conversar sobre questões de família, porque eu acho que a verdadeira batalha e desafios de ser LGBT acontece na vida diária quando nós estamos com nossos familiares.

Muitas vezes isso varia da não aceitação e pessoas se afastando de seus familiares, para a tensão desconfortável dentro de casa. Eu queria encorajar conversas através de diferentes histórias familiares e na esperança de despir essas tensões em diferentes contextos.

CNN: Muitos dos retratos foram tirados sob luz natural, com seus modelos realizando atividades dos seus dia a dia. Qual elemento foi importante para você?

GB: O que foi mais importante para mim foi ter uma conversa muito honesta sobre questões trans em Cingapura. Por exemplo, ao desenhar músculos para cobrir as cicatrizes sobre o seu peito em uma foto, Sham e eu queríamos debater a questão da disforia de gênero pós-operatório.

Muitas vezes, as pessoas veem as cirurgias de confirmação de gênero como um ápice da sua jornada, esperando ter um corpo que você finalmente se sente confortável. Mas isso não é a realidade para muitas pessoas.

Sham sempre sonhou em ir para a praia e retirar a sua camisa, mas ele ainda tem medo de fazer isso e ser encarado pelas pessoas. O que ele estava apontar era que a transição não irá te dar um corpo perfeito, e isso transcende aspectos físicos.

CNN: Qual foi o momento mais chocante ou inspirante ou histórias que você ouviu enquanto fotografava eles?

O binder de Jose é um lembrete dos sacrifícios que ele teve que tomar porque ele não podia pagar pelas cirurgias, mesmo depois de juntar dinheiro por cinco anos. Ele teve que carregar o peso do binder no calor de Cingapura enquanto ele trabalhava 12 horas por dia em um bar. Ele queria colocar a imagem desse binder para adicionar uma imagem do que significa transicionar.

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Baey fotografou o binder de Jose, que ele usou desde o começo da sua transição há seis anos atrás (Foto: Grace Baey)

Cassandra Thng compartilhou uma carta de sua avó onde ela pede para que ela não ferisse o seu corpo, para pensar duas vezes antes de tomar qualquer decisão e permanecer forte. Eu podia totalmente visualizar uma senhora chinesa de Cingapura, como minha própria avó, dizendo isso e isso realmente coloca tudo dentro de uma nova perspectiva.

CNN: Cingapura fica um pouco para trás em comparação com outros países mais progressivos da Ásia quando se trata de direitos LGBT. Como as pessoas reagiram às suas fotos e como a atitude com a comunidade LGBT tem mudado?

GB: Algumas pessoas ficaram muito interessadas e outras fizeram comentários conservadores, dizendo que ninguém pode ir contra a natureza. É ótimo que esse projeto tenha ajudado a alimentar essas conversas.

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Baey trabalhou com Jose para criar uma imagem da sala de jantar de sua família, onde argumentos de ódio foram falados quando Jose decidiu começar a sua transição (Foto: Grace Baey)

Nós temos uma longa caminhada pela frente e pode ser que a mudança seja lenta em Cingapura. Qualquer forma de reunião pública ou protesto que inclua mais de uma pessoa demanda uma permissão, e qualquer forma de ativismo necessita ser bem pensado e não de forma antagonizante.

Eu acredito que Cingapura, por causa da sua paisagem política e cultural, necessita de uma maneira matizada de apresentar esses assuntos. Com sorte, com o tempo irão surgir mais projetos e iniciativas que irão ajudar a construir a compreensão e a empatia.

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