“Eu não sou corajosa. Eu só sou mãe” – Como é ser mãe de uma criança intersexo

Tradução do texto originalmente publicado no Yahoo News.

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Quando Koushumi Chakraborti viu pela primeira vez Shanaya na lista de “crianças com necessidades especiais” do centro de adoção, ela sabia o que estava acontecendo. A descrição dizia que ele era “transgênero”.

Depois de pensar por alguns dias, ela conversou com a sua mãe que não concordou com a ideia. “Ela estava preocupada, ela disse que eu não seria capaz de lidar com as necessidades emocionais da criança”. O seu irmão, também, apesar de encorajá-la, advertiu ela dos obstáculos emocionais que ela enfrentaria.

Mas, Koushumi já tinha se decidido. “Aos 40 anos, se você é uma mulher trabalhadora solteira, a maternidade pode ser um desafio. Mas eu sabia que queria ser mãe e para mim, procriar não era uma necessidade”, disse Koushumi, que mora e trabalha em Bangalore, Índia.

Chakraborti adotou Shanaya, que nasceu com órgãos sexuais e reprodutivos que não se encaixavam na definição tradicional de masculino ou feminino. “A parte estranha é que até mesmo o centro de adoção chamou ela de transgênero, e não de intersexo”, ela disse.

Ela finalmente se encontrou com Shanaya e imediatamente se apaixonou por ela. “Nós nos conectamos no momento que nos encontramos”, ela disse. Shanaya estava na lista de adoção há dois anos e ninguém a adotava. Koushumi sabia que cuidar de uma “criança com necessidades especiais” não seria fácil. “Eu pesquisei muito mas não existe nada sobre cuidados e maternidade de crianças intersexuais na Índia” ela disse. Apesar dela não ter muitos livros para se debruçar, diversas comunidades online a ajudaram a entender as necessidades de crianças intersexuais.

“Eu trato ela de maneira neutra”, disse Koushumi. Constantemente mudando os pronomes, ela continua, “Eu deixo ele vestir vestidos, camisas, o que ele quiser. Para a minha criança, eu não tenho regras de gênero”, ela disse.

Apesar do centro de adoção ter dado outro nome para a criança de quatro anos, Koushumi disse que a sua criança gosta mais de ser chamada de Shanaya, um nome que Koushumi escolheu para ela. “Toda vez que ela se encontra com novas pessoas ela fala que o nome dela é Shanaya Chakraborti”. Junto com todos os conselhos que recebeu ao adotar uma criança intersexual, Koushumi também enfrentou muitos obstáculos, especialmente da comunidade médica.

“Eles queriam realizar uma cirurgia de normalização de gênero nela. Os médicos queriam que ela se parecesse cirurgicamente com uma menina se eu fosse criá-la como menina”, adicionou Koushumi. A mãe também comentou que médicos ao redor do mundo usam desse procedimento para se livrar da confusão e para que a criança fique socialmente normal. Mas como tudo, Koushumi fez uma ótima pesquisa. “Pessoas intersexuais não querem passar por essa cirurgia”, ela disse. Koushumi teve que convencer os médicos de que ela queria que a sua criança chegasse na puberdade e decidisse por ela mesma”. Eu não posso decidir o gênero dele, ele vai”, ela adiciona.

Quando uma página do facebook compartilhou a história de Koushumi, ela se tornou uma estrela na rede social.

Imediatamente, ela foi chamada de “corajosa” e foi considerada uma “heroína”. “Essas palavras são muito pesadas. Por que me chamar de corajosa? Eu só estou sendo uma mãe. É difícil ser uma mãe solteira, mas eu não acho que exista coragem em ser uma mãe de uma criança intersexual. Nós deveríamos chamar todas as mães de corajosas também se eu for chamada de corajosa”, ela disse.

Já se passaram mais de quatro meses desde que Koushumi se tornou mãe. E como toda mãe ela enfrenta desafios no seu dia a dia. Existem dias que a criança dá muito trabalho, mas existem dias que elas se divertem muito. “Minha criança passou por muito trauma institucionalizado, então as vezes tudo pode ser muito difícil para ela. Para mim, eu sou uma nova mãe e uma trabalhadora solteira. Isso é um grande desafio e foi uma transição repentina. Mas nós estamos aprendendo uma com a outra todos os dias”, ela disse.

Koushumi está agora preparando Shanaya para entrar na escola. “Eu sei que ela irá enfrentar muitas batalhas, mas eu quero ensiná-la como não ficar perturbada e como responder da maneira correta”, ela disse.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): ‘I am Not Brave, I am Just a Mother’: What is it like to be a Single Parent of an Intersex Child​

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