‘Afternoon Breezes”: O cinema LGBT de Hitoshi Yazaki é revisitado

Tradução do texto de Mark Schilling originalmente postado no The Japan Times.

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Qual foi o primeiro filme japonês com temática LGBT? Um candidato muito mencionado é o melodrama de Keisuke Kinoshita de 1959 “Farewell to Spring”, mais pelos laços emocionais entre os seus jovens protagonistas do que qualquer cena explicitamente erótica. Mais ousado no seu tratamento – e mais aclamado pela crítica – está “O funeral das Rosas” (1969) de Toshio Matsumoto, uma recontagem livre do mito de Édipo que se passa no ambiente contra-cultural da era go-go de Tóquio e estrelando o talento gay Shinnosuke Ikehata, também conhecido como Peter.

Mais de uma década depois, “Afternoon Breezes” (Kazetachi no Gogo) de Hitoshi Yazaki também quebrou barreiras com a sua história do amor não correspondido de uma jovem lésbica pela sua colega de quarto hétero. A paixão leva ela a atos de desespero, como dormir com o namorado da colega para forçar o término do namoro, e, quando isso falha, começar a perseguir ela. A heroína – a Natsuko (Setsuko Aya) – é claramente iludida sobre as suas chances com a colega – a estilosa Mitsu (Naomi Ito), mas não consegue parar de sonhar no romance durante o verão de Tóquio.

Filmado pelo Yazaki quando ele ainda era um estudante do programa da Universidade do Japão, o filme era um curta sobre o eros da pornografia leve da era, mas estabeleceu um record depois de sua primeira exibição no teatro Forum Image de Tóquio em dezembro de 1980. Depois foi apresentado por todo o país e festivais ao redor do mundo.

Apesar do seu sucesso, Yazaki não dirigiu um filme de novo até o seu drama sobre um relacionamento incestuoso entre uma mulher de espírito live e seu irmão mais velho que sofre de amnésia, “March Comes in Like a Lion” de 1992. Convidado para dezenas de festivais no Japão e ao redor do mundo, o filme se tornou outro sucesso indie e propulsionou Yazaki nas primeiras décadas da Nova Onda Japonesa.

Começando com “March Comes in Like a Lion”, eu resenhei muito do trabalho de Yazaki para esse jornal, incluindo os seus filmes sobre amizade feminina “Strawberry Shortcakes” (2005) e o seu drama sobre divórcio “Sweer Little Lies” (2009), mas nunca consegui entrevistar Yazaki até que seu publicitário entrou em contato comigo sobre o recente re-lançamento da versão digitalmente restaurada de “Afternoon Breezes”.

Ao me encontrar com Yazaki no cinema K’s de Shinjuku – um dos dois teatros de Tóquio que começaram a exibir o filme – eu o lembrei que nós já tínhamos sido apresentados a muito tempo atrás em um evento de filmes, um encontro que sem surpresas ele já tinha esquecido.

Ele então acendeu um cigarro – o primeiro de muitos – e começou a lembrar sobre o seu filme de 39 anos atrás.

“Foi um tema chocante para a época”, ele disse. “Mas eu não queria que o filme fosse chocante. As pessoas que o colocaram dessa maneira, mas eu somente queria investigar o amor de uma pessoa para outra. Os sexos daqueles envolvidos não teve nenhuma relação sobre isso”.

Desde que ele era um estudante, eu pensei se ele enfrentou algum tipo de oposição dos seus professores ou autoridades da escola a respeito do tema. “Eu estava estudando no curso de roteiro”, ele disse com um sorriso. “A escola ficou mais surpresa pelo fato de que eu poderia dirigir o filme. O tema não incomodou eles”

Yazaki também escreveu o roteiro, inspirado por uma história de um noticiário da época sobre uma cabelereira que viajou de Okinawa para Tóquio e morreu de fome em seu apartamento. O seu final é refletido no destino da heroína lésbica.

“Não é bem o mesmo que suicídio”, disse Yazaki. “Eu penso nele como uma maneira de escolher como morrer. Mas naquela época nós estávamos tentando viver normalmente. Que alguém escolheria morrer de fome em uma cidade como Tóquio realmente me chocou”.

Mais do que expressar esse choque através de uma explicação do típico “filme problema” de sua época, Yazaki fechou o seu diálogo para o mínimo.

“Eu queria fazer um filme que permite que você redescubra o que existe para ser visto” ele disse. “O cinema é um meio que você pode sentir somente por ver. Quando “Afternoon Breezes” foi apresentado pela primeira vez no exterior, ele tinha legendas em inglês. Para mim é mais importante fazer com que o público sinta mais do que entenda”.

Na época, Yazaki estava viciado em filmes clássicos do passado como parte dos seus estudos.

“Ao fazer um novo filme foi como jogar a bola de volta depois de tê-la jogada para mim depois desses filmes maravilhosos”, ele disse. “Eu senti que precisava fazer isso. Eu tive um forte desejo de fazer algo – eu não podia resistir”.

Dentro dos seus favoritos estavam os trabalhos de Yuzo Kawashima e Seijun Suzuki, que cravou identidades distintas ao mesmo tempo que formavam filmes comerciais dos maiores estúdios na década de 50 e 60. Mas Yazaki contou que ele “rejeitou fortemente” a era de grandes filmes comerciais.

“Eles ainda são a norma ainda hoje. Em um sentido, eles me deram a energia para me manter dirigindo”, ele adiciona.

Criado quando o Japão estava no pico da sua bolha econômica, “Afternoon Breezes” é um olhar nostálgico (e algumas vezes perturbador) de uma era que está desaparecendo, mas dada a crescente atenção de questões LGBT hoje na internet e mídia japonesa, eu sugeri de que ela estaria antes do tempo. Porém, Yazaki disse que “desde que o coração da heroína seja motivado pelo amor, na produção do filme eu não senti que deveria responder alguma questão LGBT – um termo que não existia na época. O filme coincidentemente é sobre duas mulheres, mas para mim se fossem dois homens também seria perfeito. É uma história sobre duas pessoas”.

Quando o filme foi apresentado pela primeira vez no exterior, ele complementa, as respostas foram “muito boas”, mas ele ficou mais feliz com a resenha de um crítico de Nova York que escreveu que “o diretor (Yazaki) criou um filme onde o fato de serem homens ou mulheres é irrelevante”.

Ele também se lembrou do encontro com o seu público em um festival de filmes de Edinburgo que contou para ele que ela era lésbica e que “Afternoon Breezes” não era um filme lésbico: “Minha resposta foi ‘você está completamente certa'”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): ‘Afternoon Breezes’: Hitoshi Yazaki’s pioneer of Japanese LGBTQ cinema is revisited

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