“Só nos restou ir aos Estados Unidos” – Por que esse casal não pode continuar morando no Japão

Tradução do texto de Aska Otani originalmente postado no Note.

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Hoje, eu realizei a entrevista com o casal Bren e Seigo que moram no estado de Ohio nos Estados Unidos, que normalmente postam sobre a sua vida nos Estados Unidos pelo Youtube e pelo instagram.

Os dois se encontraram e moraram no Japão, porém decidiram se mudar para os Estados Unidos. E também conversamos de porquê eles decidiram continuar a postar sobre as suas vidas nas redes sociais.

Otani: Muito prazer. Muito obrigado pela entrevista. Agora, em Tóquio são 10 da manhã, então deve ser noite aí nos Estados Unidos, certo?

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Bren, Seigo:  Sim, agora são umas 10 da noite. Muito prazer.

O: Eu acompanho as fotos e vídeos que vocês publicam, vocês são muito próximos, não? Como vocês se conheceram?

S: Em novembro de 2015 eu encontrei o Bren em um aplicativo de encontros. Conversamos usando o Line, e fomos ficando próximos.

B: Nessa época eu estava morando no Japão já ha três anos, e como eu queria encontrar um namorado eu baixei o aplicativo. Eu estudava em uma escola de língua japonesa, mas não conseguia encontrar alguém.

O: Quando vocês usaram esse aplicativo, os dois já tinham consciência de que gostavam de homens, certo?

S: Até certo ponto tinha consciência. Mas, naquele tempo eu ainda tinha um sentimento de “qual será que eu gosto”… Acho que quando nos encontramos pela primeira vez ainda existia esse sentimento, né?

B: Verdade. Na verdade, no começo não queríamos reconhecer.

S: O mundo pensa que relacionamentos héteros são o normal, e no momento que você reconhece que gosta de homens, o mundo muda completamente e existia um sentimento de medo. Por isso que não conseguíamos ganhar confiança.

O: Mas, no final vocês queriam se encontrar.

B:  Sim. Mesmo que eu ainda não tenha aceitado, em algum lugar eu me sentia triste e solitário. E quando eu me encontrei com o Seigo, logo tivemos uma conexão.

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O: Esse foi o primeiro relacionamento de vocês, né? Antes, você disse que “no momento que você reconhece que gosta de homens, o mundo muda completamente”, o que realmente mudou na vida de vocês?

S: O tempo que passamos juntos é o que eu mais gosto, mas quando íamos sair com amigos, sempre sofri em como apresentar o Bren para eles. Na realidade, enquanto eu morava no Japão não consegui sair do armário. Começamos a morar juntos logo depois de nos conhecermos, mas eu apresentava ele como um amigo que conheci na faculdade e que dividia o apartamento comigo. Nessa época eu não tinha a coragem de apresentar o Bren como o meu namorado.

B: Eu também, nessa época eu não falava para os meus amigos.

O: E os seus familiares nessa época também não conversavam sobre o relacionamento de vocês?

S: Moramos juntos um ano no Japão, e nos primeiros três meses não falamos nada. Mas meus pais sabiam que eu estava morando com outra pessoa. Eu acredito que eles já sabiam da minha sexualidade desde antigamente. Um dia, minha mãe me perguntou “Vocês são mais que amigos?”. Parece que ela percebeu que eu estava namorando o Bren, nessa hora eu me assumi. Por causa desse momento eu consegui contar, o que tornou tudo mais fácil.

B: Quando a minha mãe veio para o Japão eu contei do meu relacionamento com o Seigo. Eu queria que ela entendesse que ele era uma pessoa importante para mim. E apesar dele ter entendido, ela ficou um pouco chocada. Por isso, até ela entender tudo, levou um pouco de tempo. Hoje, ela nos apoia do fundo do coração.

O: Até a mãe do Bren apoiar vocês, que tipo de conversas vocês tinham?

B: No meu caso tinha o problema da religião cristã, que foi um ponto muito complicado.

S: A sua mãe ficou dividida se seguia a religião ou se abraçava o seu próprio filho, né? Mas como eles foram se conhecendo aos poucos, ela foi entendendo que o Bren é quem ele é e aos poucos foi aceitando ele.

O: No caso do cristianismo, muitos homossexuais ficam divididos entre escolher entre a sua religião ou a sua sexualidade?

B: Na realidade não tem nada escrito especificamente na Bíblia, o próprio Cristo não pronunciou nada sobre isso, e estritamente não tem algo proibindo. Mas como ideologia, o amor entre pessoas do mesmo sexo e o seu casamento é fortemente rejeitado. Existem muitas pessoas que são contra. Mas, no final a minha mãe nos aceitou. Com certeza a nossa relação foi mais importante e eu sou muito grato por isso.

O: Que mãe incrível. Hoje, faz quanto tempo que vocês moram nos Estados Unidos?

S: Nós viemos para os estados unidos em junho de 2017. Então já faz mais de dois anos. O tempo passa rápido.

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B:  Nós queríamos nos casar, então viemos para os Estados Unidos. Nós gostávamos muito do Japão, mas não podíamos nos casar lá. Pensávamos em quando, e várias coisas aconteceram e acabamos vindo para os Estados Unidos mais cedo do que imaginávamos.

O: Realmente, o Japão não reconhece o casamento homoafetivo… quando vocês pensaram em se casar teve alguma proposta?

S: Um dia quando estávamos no quarto naturalmente pensamos “vamos nos casar”. Fazia cerca de um ano que morávamos juntos e já pensávamos em um dia casar desde que começamos a namorar.

B: Sim. Nós dois pensamos isso. Ambos somos o primeiro namorado um do outro, mas desde de o começo já sabíamos que essa era a pessoa certa.

O: A sensação de destino é bem forte, né? Para vocês, que tipo de parceiros vocês são?

S: Ele é muito gentil. Ele tem qualidades que eu não tenho, uma relação de complementação eu diria. Eu sou caseiro, mas ele me leva para diversos lugares. De certa forma penso que o fato de termos qualidades opostas ativa o que há de melhor em nós dois.

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B: Ele é um parceiro que eu consigo conselhos sempre quando estou triste ou alegre. O fato dele estar ao meu lado me dá segurança.

S: Mais do que um namorado, é uma sensação de melhor amigo.

B: Sim. Quando eu estou triste, eu fico muito mais animado quando me encontro com o Seigo. Em qualquer situação, ele é uma presença que não me deixa desistir. Apesar de achar que é impossível que seja 100%, mas ele sempre está me apoiando.

O: Uma relação ideal! Ao se mudarem para os Estados Unidos, como é a recepção pública de casais gays? Qual a diferença com o Japão?

S: Antes de ir para os Estados Unidos eu achava que a compreensão sobre o casamento homoafetivo estava avançado e sair do armário era algo fácil, mas por causa de questões religiosas, no começo pareceu que seria algo impossível, e lógico que existem muitas pessoas preconceituosas. Por isso, para ser sincero, para onde você for irá depender muito de pessoa para pessoa. Não é só porque é os Estados Unidos que a compreensão será automaticamente avançada.

B: Verdade, acredito que a questão religiosa é a maior de todas. As raízes do pensamento cristão estão fortemente enraizadas. Depois, no caso dos Estados Unidos irá depender muito também de onde você mora.

O: Entendi. Especialmente no cinturão da bíblia ou no interior dizem que esses valores estão muito enraizados. Nesse sentido, parece não ser muito diferente do Japão, né?

S: Sim. Para ser sincero, ao voltar ao Japão, hoje eu consigo me expressar abertamente. No Japão não existe essa visão religiosa tão forte, então não recebi tanta rejeição.

B: Exatamente. Quando disse que me casaria com o Seigo no Japão ninguém falou que não podíamos. Não teve estranhamento e todos receberam essa notícia com curiosidade. Havia a sensação de que “existem muitas pessoas diferentes, não?”. Nesse sentido, não houve uma grande barreira.

S: Para ser sincero, no começo existia a sensação de que eu seria mais discriminado no Japão quando eu me assumi. Por isso, até eu namorar o Bren, eu não achava que era necessário que eu me assumisse. Mas, usando as redes sociais eu postava fotos do Bren e lembranças de momentos que passamos juntos. Mas, se eu ficasse só postando fotos do Bren, as pessoas poderiam suspeitar e eu ficava com muito medo. Depois de sofrer muito, e por ser muito trabalhoso contar para todos um por um, eu resolvi usar as redes sociais para me expressar. Depois de me mudar para os Estados Unidos, eu resolvi escrever sobre a nossa relação no Instagram. Um dia, do nada, eu escrevi “Eu me casei com o Bren”.

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O: Qual foi a reação nesse momento?

B: Houveram muitas mensagens de apoio. Muitos, ao saber da nossa relação, passaram a compreender melhor a gente.

S: Na realidade eu tive muito medo de ver as respostas de todos. Depois de escrever eu me afastei do celular. Eu dizia “ainda não posso ver” para o Bren. Na manhã do dia seguinte eu tomei coragem e ao ver, não tinha nenhum comentário negativo. Todos olharam a minha foto e diziam parabéns. Fiquei muito feliz. Nessa hora, eu percebi que era uma ideia que eu coloquei na cabeça de que se eu me assumisse ninguém do Japão iria me aceitar.

B: Eu acredito que todos simplesmente não sabiam. Não existem muitas pessoas como nós dentro dos círculos de conhecidos. Por isso, eles não negam mas ao mesmo tempo não tem a oportunidade de apoiar.

O: Muitas pessoas dizem que “ao sair do armário, as pessoas me aceitaram mais do que eu imaginava”. Mas, ainda existe uma atmosfera ruim na sociedade que impede de falarmos. Sera que é por causa da falta de informação?

S: Sim, por isso que nós continuamos postando conteúdo no Youtube e no Instagram. Não é porque somos gays que temos um dia a dia especial. Somos iguais a um casal heterossexual. Por isso, sem nada de especial, falamos sobre o nosso dia a dia. As pessoas que nos assistem não irão ver muitas diferenças entre nós e outros casais.

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B: Nós somos gays, só isso. Existem muitos no youtube mas até hoje existem poucos youtubers LGBT no Japão. Diferente no exterior, onde já existem muitos.

O: O conteúdo que vocês enviam são o do dia a dia dos dois. Foi uma grande decisão de vocês se mudarem para os Estados Unidos, mas porque vocês decidiram dar entrada formal no casamento nos Estados Unidos?

B: Eu sou estrangeiro então mesmo que eu ficasse no Japão, existia o problema do visto. Também existem muitos obstáculos no trabalho. Ao pensar nessas questões, Ao vivermos juntos, a relação de nós dois precisava primeiramente ser assegurada. Na realidade eu queria permanecer no Japão.

S: Nós demos entrada no casamento em Agosto de 2017, é lógico que se pudéssemos fazer isso no Japão, ainda estaríamos morando lá. No momento, até que possamos ter o casamento reconhecido não podemos voltar. Ao morar nos Estados Unidos, demora um pouco a retirada do visto mas, finalmente estamos vendo a luz no fim do túnel. O casamento em si não ofereceu grandes dificuldades. Ao pensar nisso, acho que essa solução foi melhor do que ficar esperando que o casamento fosse aprovado no Japão.

B: Se pudéssemos ficar, teríamos ficado.

S: É mais o Bren que gosta mais do Japão, então a vontade de continuar morando lá era mais forte nele. Mas a parceria civil ainda não é reconhecida em todo o país, o relacionamento entre um japonês e um estrangeiro apresenta problemas com o visto, então era muito problemático. Por isso, para nos casarmos e podermos morar juntos, só tínhamos a alternativa de vir morar nos Estados Unidos.

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B: Os casais internacionais sempre se encontram nesse problema. Existiam casais de japoneses com estrangeiros ao nosso redor, e sempre um deles tinha que voltar para o seu país. Por isso, existia esse forte sentimento de que precisávamos nos casar. Mas se voltarmos hoje, no Japão não irão reconhecer o nosso casamento e não nos reconhecerão como família. Desse modo, se algum de nós ficar doente ou se ferir  não sabemos como conseguiremos ajudar. Também existem dificuldades para podermos morar juntos nessa condição.

O: Eu tenho esse forte questionamento de “por que o casamento não é reconhecido”? Mas, eu não tenho uma resposta. Dizem que a legislação do Japão está atrasada em comparação com a dos Estados Unidos. O que vocês acham disso?

S: Nós falamos sobre como existe um grande problema a repeito da religião nos Estados Unidos, na realidade se existem estados onde a compreensão está bastante avançada, em outros não existe nada. O pensamento é completamente diferente. Mas, acredito que exista uma regra no Japão de seguirmos regras. Desde antigamente existe esse medo de mudar as regras. Então mesmo no dia a dia é uma questão difícil de discutir.

B: Historicamente o Japão não foi tão opressor com os homossexuais. Não é um país com uma visão tão religiosa. Com a entrada do cristianismo, a estrutura do matrimônio foi estabelecida e o pensamento de que o casal é formado por um homem e mulher foi introduzido como forma padrão de pensamento.

S: Mesmo que se debata no país, o casamento homoafetivo foi colocado de lado. Considerando que se esse problema não for resolvido, não causará problema. Sentimos que muitos pensam que se deixarem de lado essa questão nada de mal acontecerá. Também existe o argumento que eu não entendo de que com o reconhecimento do casamento homoafetivo a diminuição de natalidade irá aumentar.

O: O argumento da taxa de natalidade. As pessoas não entendem que como os jovens casais não conseguem se casar porque não conseguem sair de casa é o real problema.

B: Se o casamento homoafetivo não for reconhecido, isso não significa que os casamentos heteroafetivos irão aumentar e mais crianças irão nascer.

S: Ao contrário, como o casamento homoafetivo não é reconhecido, já ouvi de pessoas que ficam preocupadas com o que os outros irão pensar, e acabam escondendo a sua sexualidade e casando com pessoas do sexo oposto. Com a vontade de ter uma família “normal” algumas escolhem essa opção, mas acredito que é muito doloroso e triste esse tipo de atitude.

O: Eu ouço que, no exterior, a compreensão sobre LGBT é bastante avançada. Eu fico curioso em saber o quanto o Japão está atrasado. Vocês sentem realmente que existe uma diferença?

S: Quando os Estados Unidos começaram a reconhecer os LGBT, foi nos últimos três anos. Mais do que atrasado, eu acredito que o Japão desconhece essas pautas. Na televisão, os gays culturalmente são vistos como alívio cômico. Também, muitos tem a imagem de que todos os gays são drag queens. Ainda não existe um conhecimento sobre a palavra gay, todos ainda usam de frases como “daquele lado” ou gestos ofensivos.

B: Mas mesmo se você ver filmes do ocidente, existem muitos que usam gays como alívio cômico. Hoje, está melhor. Por isso eu acredito que não exista tanta diferença. Mas, hoje vejo muito mais jovens confiantes e dizendo que está tudo bem nos Estados Unidos.

S: Verdade. As informações são disponibilizadas mas poucas pessoas falam sobre o assunto. Meus amigos dos Estados Unidos sempre afirmam que são aliados.

O: Existe uma sensação diferente quando as pessoas se declaram aliadas?

S: Completamente diferente. Só deles falarem que está tudo bem, já foi mais fácil para eu me abrir. Meu coração ficou mais leve.

B: Nesses momentos a distância diminui imediatamente.

O: Tenho a impressão de que a palavra LGBT está ganhando mais visibilidade, e acredito que os próximos passos é a empatia e o sentimento de que “está tudo bem”, que “nós queremos ser amigos”. 

S: Ao colocarem o filtro do arco-íris no perfil, e espalhar a hashtag Aliado, aos poucos as pessoas irão se sentir mais confortáveis em falar sobre esses temas.

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O: Nesse sentido, é muito importante a existência das redes sociais. De onde vocês tiram a força para postar os seus conteúdos?

B: Ao ver o Youtube e os comentários, existem muitas pessoas que nos apoiam. Essas pessoas  dão força para nós.

O: Tem algo que vocês gostariam de mudar na sociedade?

B: Nós postamos os conteúdos e ficaríamos felizes em transmitir que não existe nada de errado. Nós somos iguais a todos, e pessoas como nós existem em qualquer lugar.

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S: Eu gostaria de morar em um mundo onde eu não precisasse dizer que eu sou gay. Hoje eu preciso ficar falando que não sou hétero, e preciso ficar me categorizando. As pessoas que são heterossexuais não precisam ficar afirmando que são hétero ao se apresentarem. Quando vamos conversar sobre amor ou casamento sempre preciso falar que a pessoa que eu amo é um homem. Por isso, espero que um dia não precisemos mais ficar especificando.


Ao conversar com os dois, a conclusão que tive foi que:

Se possível, seria bom se os dois pudessem ter ficado no Japão

Lógico que eles estão vivendo felizes nos Estados Unidos, mas porque eles não conseguiram se casar, eles tiveram que se afastar de amigos e familiares para poderem viver como um casal juntos.

O casamento é para quem?

Ao todos se declararem aliados, aos poucos o pensamento da sociedade vai mudando. Se cada pessoa que lê-se esse artigo se pronunciasse, aos poucos a atmosfera social iria mudar.

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