Leslie Cheung: um ícone gay da Ásia

Tradução do texto de Gwyneth Ho originalmente postado na BBC.

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Pelos últimos 15 anos fãs da tormentada super-estrela Leslie Cheung, uma das primeiras celebridades a se assumir gay na Ásia, se reuniram no hotel Mandarin Oriental de Hong Kong para fazer o luto no dia que ele tirou a sua própria vida.

É um pungente sinal de porque essa estrela desafiadora e perturbada ainda é importante nos dias de hoje.

Um dos cantores e atores mais populares de Hong Kong de meados dos anos 80, Leslie Cheung Kwok Wing não teve medo de provocar controvérsias com a sua evidente sexualidade e performances provocativas durante uma era socialmente mais conservadora.

E 15 anos depois da sua morte, Cheung ainda atrai novos fãs, incluindo adolescentes e millenials.

Lam, uma adolescente de 15 anos que participou da vigília do dia primeiro de abril, tinha somente alguns meses de idade quando Cheung morreu. Ela disse para a BBC China que ela tinha “descoberto ele pelo Youtube”.

“Ele era carismático; especialmente quando ele se apresentava de maneira andrógina… era maravilhoso”, ela disse.

Enquanto isso, Wu, de 25 anos, viajou da província de Hunan com o seu namorado para fazer o luto desse ícone.

Wu contou para a BBC China que ele tirou a força de do “espírito de viver o seu eu verdadeiro” de Cheung.

“Ele mostrou ao mundo chinês que pessoas gays podem ser positivas, brilhantes e merecedores de respeito”.

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Cineasta Christopher Doyle disse que Leslie “não era somente um grande cantor e ator, mas uma verdadeira estrela”

Nascido em 1956, Leslie Cheung foi uma das estrelas mais famosas de Hong Kong durante a era de outo do Cantopop nos anos 80.

Ele era arrojado, estiloso e adequado para a ideia pública de um amante heterossexual perfeito. Mas na realidade, ele estava em um relacionamento com um dos seus amigos de infância, Daffy Tong.

Não era um momento fácil para ser gay. Nesse momento, a homossexualidade ainda era vista por muitos como uma doença ou anormalidade em Hong Kong, especialmente depois da emergência dos primeiros casos de Aids em 1984. Não foi até o ano de 1991 que a homossexualidade foi descriminalizada no território.

“O movimento LGBT em Hong Kong ganhou força nos anos 90, quando a comunidade finalmente se tornou visível para o público”, disse Travis Kong, um professor associado de sociologia que pesquisa a cultura gay na Universidade de Hong Kong, para a BBC China.

E foi nessa época que Cheung se tornou mais desafiante no seu trabalho.

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Cheung como uma estrela andrógina da Ópera de Pequim no filme “Adeus minha Concubina”

Ele ganhou atenção internacional pela primeira vez com a sua interpretação de Cheng Dieyi, a estrela andrógina da Ópera de Pequim, para o filme “Adeus minha concubina”, que ganhou a palma de ouro em Cannes em 1993.

Ele estrelou o filme “Happy Together” dirigido por Wong Kar Wai – um filme clássico gay sobre um casal lutando para encontrar uma co-existência pacífica.

“‘Happy Together’ é diferente. É um romance esteriótipo heterossexual, mas interpretado por dois homens”, disse Kit Hung, um diretor de Hong Kong.

Enquanto isso, Christopher Doyle, o renomado cineasta que trabalhou com Cheung em vários filmes Wong Kar Wai, disse para a BBC China: “Ele era tão bonito. Nós queríamos transmitir através das minhas lentes o lado mais bonito e sincero dele”.

“Ele entrava na nossa imaginação de maneira audaciosa… sempre nos mostrando possibilidades melhores”.

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Leslie Cheung é lembrado tanto pelos seus filmes e performance musicais – e até tem a sua própria estátua de cera no Madame Tussauds.

No palco, Cheung desencadeou um charme sexualmente fluido. A sua performance queer definitiva surgiu no concerto de 1997 onde ele dançava intimamente com um dançarino na sua música Red. Ele vestia um terno preto e um par de saltos altos vermelhos brilhantes.

No concerto ele dedicou uma canção de amor clássica para os dois “amores da sua vida”, sua mãe e o seu parceiro Daffy Tong. Isso foi visto no momento como sua saída do armário. Cheung não proclamou a sua sexualidade, mas confessou o seu amor por um homem.

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Cheung vestindo os seus pares de saltos vermelhos icônicos no concerto de 1997.

“Nos anos 90, em uma época onde homens gays ainda eram chamados de ‘homens da Aids’ e ‘pervertidos'”, conta Kong. “Em uma sociedade tão opressora para a comunidade LGBT, uma super-estrela sair do armário teve um grande efeito no público geral”.

Apesar do seu sucesso na Ásia, existiram muitos que não apreciavam esse lado de Cheung.

Nas premiações do Hong Kong Film Awards de 1998, ‘Happy Together’ foi satirizado por comediantes, que o descreveram como um filme que faria o público vomitar. Um vídeo clipe que ele dirigiu o mostrando sem camisa com um dançarino de ballet também foi censurado pela maior televisão local, a TVB.

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As imagens versáteis de Cheung no palco gerando controvérsias

No ano de 2000 Leslie se tornou o primeiro ator asiático a vestir um terno feito pelo mestre francês Jean-Paul Gaultier em um concerto. Com um cabelo longo, uma visível barva e um corpo musculoso, Cheung também vestiu calças transparentes e uma camisa curta.

Ele terminou o concerto com a sua balada. “O tema da minha performance é essa: a coisa mais importante da vida, além do amor, é apreciar a si mesmo”, ele explicou.

“Eu não vou me esconder, eu irei viver a minha vida da maneira que eu quiser sob o sol” ele cantava. “Eu sou o que eu sou, luz de fogo em diferente cores”.

Mas ele foi dispensado como um “travesti”, “pervertido” ou “assombrado pelo fantasma de uma mulher” pela mídia local. Ele ignorava essas críticas como sendo superficiais e limitadas.

Ele permanece uma figura icônica das questões LGBT emergentes de Hong Kong de tal forma que o Hotel Mandarin Oriental é a primeira parada por turistas que visitam a história LGBT da cidade.

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Multidões no Mandarin Oriental durante o 15º aniversário de morte de Cheung
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Fãs recriam o sapato vermelho de Cheung com rosas

Foi desse local que ele pulou para a sua morte no dia primeiro de abril de 2003 depois de sofrer com depressão. Foi um momento chocante para a cidade, e um momento devastador para os fãs.

Dezenas de milhares apareceram para se despedir e no seu funeral, o seu parceiro Daffy Tong assumiu o papel tradicionalmente reservado para as esposas, um profundo reconhecimento público do seu relacionamento.

Nunca legalmente casado, Tong foi o primeiro nome listados no anúncio da morte de Cheung, creditado como “amor da sua vida”.

O casamento homoafetivo ou a união civil ainda não é legalizada em Hong Kong, mas na memória coletiva da cidade, Cheung e Tong são sempre lembrados como um icônico casal que se amava.

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Daffy Tong ao lado da estátua de cera de Leslie Cheung no Madame Tussauds de Hong Kong

Hong Kong ainda falha em não ter leis de proteção da comunidade LGBT contra a discriminação, mas pessoas queer não são mais um tabú e são parte da sociedade.

Ano passado o museu de Hong Kong apresentou a exibição “Ambiguamente seu: gênero na cultura popular de Hong Kong”. Os primeiros exibidores se deparavam com um salto alto vermelho logo na entrada – o par que Cheung vestiu na sua performance de Red em 1997.

“A maior conquista de um artista é poder incorporar ambos os gêneros ao mesmo tempo”, proclamou Cheung uma vez. “Já que a arte em si não tem gêneros”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Leslie Cheung: Asia’s gay icon lives on 15 years after his death

Leslie Cheung: Culposamente belo

Receita Federal de Hong Kong reconhece casal homoafetivo

Como é o dia dos namorados para Vincy, ativista trans de Hong Kong

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