Doutores da Índia: Da “conversão” para a “conversa” sobre questões LGBT

Tradução do texto de Rebecca Rosman originalmente postado no Openly.

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Tudo começou com uma postagem homofóbica nas redes sociais.

Dr. Prasad Raj Dandekar, um oncologista de Mumbai, estava olhando para a sua página do Facebook quando viu uma postagem de um colega que tinha comentários homofóbicos.

“Eu comentei que ‘isso não é apropriado; talvez você não tenha a intenção de dizer isso'”, disse Dandekar para a Fundação Thomson Reuters.

Ao invés de pedir desculpas, o colega iniciou uma série de ataques verbais afirmando que homossexuais são criminosos que deveriam ficar na cadeia.

“Talvez esse incidente tenha surgido da ignorância. Talvez ele não saiba”, disse Dandekar sobre o que pensou no momento. “E se esse for o caso, isso pode ser mudado”.

Muito mudou na Índia desde essa postagem de 2012 no Facebook. Em setembro do ano passado a suprema corte do país encerrou uma lei de 154 anos que criminalizava a homossexualidade, conhecida como a seção 377.

Vários meses antes dessa decisão histórica, Dandekar fundou a Profissionais da Saúde para Indianos Queer (HPQI), uma organização voltada para a educação de provedores do sistema de saúde sobre as necessidades da comunidade LGBT da Índia.

Até hoje, a HPQI treinou aproximadamente 1.000 profissionais da saúde em toda a Índia.

A demanda pelos seus seminários aumentaram desde setembro, deixando ele muito ocupado e preocupado com sua agenda, disse Dandekar.

Na sua decisão, a Suprema Corte da Índia declarou que o “direito à saúde é compreendida como indispensável”.

Nessa decisão, todas as pessoas LGBT da Índia teriam garantidos “o direito a cuidado médico emergencial e o direito da manutenção e melhoria da saúde pública”, disseram os cinco juízes da Suprema Corte.

Mesmo assim, meses depois da decisão, o medo está crescendo entre muitos indianos LGBT que evitam visitas médicas por medo da discriminação.

Destruindo obstáculos para a saúde mental

Nakshatra Bagwe, um homem de 28 anos que cuida de uma companhia de viagens de Mumbai, disse que ele ainda se lembra da desconfortável conversa que ele teve com um dermatologista depois de ter contado que ele era gay.

Bagwe disse que o seu doutor perguntou se ele tinha certeza disso. “Você acha que existe um caminho de volta pra isso?” disse o doutor, perguntando se Bagwe iria mudar de ideia sobre a sua sexualidade.

Bhusan, um médico trans de 28 anos cujo nome foi alterado para sua proteção, disse que ele já enfrentou questionamentos similares de diversos médicos depois de começar o seu processo de transição.

“Eu como doutor, não esperava que existisse tanta falta de conhecimento”, ele contou para a Fundação Thomson Reuters.

Bhusan disse que precisou de nove visitas separadas em diferentes médicos antes que um concordasse em providenciar à ele os papéis necessários para começar a terapia hormonal.

“Até então, eu tive médicos me contando que tudo era coisa da minha cabeça – que eu deveria deixar de lado esses pensamentos”, disse Bhusan.

Em julho de 2018, a Sociedade de Psiquiatria da Índia (IPS) declarou que a homossexualidade não era uma doença, parcialmente na esperança de impedir que psiquiatras usassem “terapias de conversão” em pacientes LGBT na tentativa de “convertê-los” para a heterossexualidade.

Ainda assim, o medo ainda continua de que muitos médicos ainda resistam à mudança da sociedade.

“Muitos poucos de nós crescemos em uma sociedade onde as pessoas conversam sobre ser homossexual”, disse Dr. Kersi Chavda, que em 2016 organizou uma força tarefa na IPS focando nas necessidades da comunidade LGBT da Índia.

“Existe a necessidade de sermos mais sensíveis”, adicionou Richa Vashista, uma especialista em saúde mental que trabalhou na organização LGBT Humsafar Trust de Mumbai.

“Não existe muita conscientização sobre questões relacionadas a sexualidade ou identidade de gênero quando estamos falando de terapias”, disse Vashista.

Vashista disse que até mesmo no seu próprio treinamento, não existia um guia de como tratar pacientes LGBT.

“Eu não sabia muito sobre pessoas LGBT. Foram os meus clientes que me ensinaram”, ela contou.

Em mais de quatro anos trabalhando como terapeuta, Vashista disse que ela ouviu diversas histórias de clientes LGBT sobre experiências negativas durante o que deveria ser somente um check up de rotina.

“É isso que nós queremos acabar”, disse Dandekar. “Nós queremos que os médicos sejam mais sensíveis. Nós queremos que os médicos sejam mais educados”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): India’s doctors: from ‘conversion’ to conversation on LGBT+ issues

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