Sobre o quadrinho “Ameaça de Morte” de Vivek Shraya

Tradução do texto de Harron Walker originalmente postado na Out.

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Não querendo criar uma comparação binária de lixo versos tesouros, mas Vivek Shraya realmente transformou lixo em tesouro com esse trabalho.

O seu novo livro, Death Threat (“Ameaça de morte”, ainda inédito no Brasil), é uma graphic novel feita em colaboração com a ilustradora Ness Lee que explora os danos de assédio on-line podem causar na vida on-line de quem é assediado. Inspirada por uma série de e-mails muito reais que a artista-música canadense recebeu – o seu texto reproduzidos em Death Threat – Shaya leva o leitor em uma jornada através do processo de violência, mensagens transfóbicas que continuam a surgir nas suas caixas de mensagens, com as vividas ilustrações de Lee trazendo humor e vida para um então conto mórbido.

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No começo Shraya riu desses e-mails de ódio, e então começou a pensar se esse conteúdo poderia ser verdade. Ela realmente estava sendo caçada? Os seus pais realmente sentiam vergonha? O conto se transforma conforme vemos Shraya tentando se tornar em um manuscrito em Death Threat, e como o assédio e dúvida começaram a bloquear a sua habilidade de criar.

A Out recentemente teve a chance de falar com Shraya sobre Death Threat, publicado originalmente pela Arsenal Pulp Press em maio. Nós também falamos sobre trabalhar em diferentes medias, o perigo da visibilidade, e as políticas de um projeto em grupo de estudantes do ensino médio. Nossa conversação foi editada e condensada por claridade.

Out: Como foi criar uma graphic novel em comparação com, vamos dizer, escrever ou criar música?

Vivek Shraya: É um meio tão excitante. Talvez seja a minha perspectiva como observador, mas eu sinto que tudo é possível nas graphic novels. Hoje, eu acho que a literatura é um pouco dura, comparativamente. É lógico, qualquer gênero pode ser um “experimento” por assim dizer, mas a graphic novel são bastante experimental em maneiras que nós tomamos como por garantido. Leitores de graphic novel são mais abertas para esse tipo de possibilidade que eu não acho que o leitor comum ou os editores comuns. Para mim, o maior desafio foi o peso do trabalho. Eu sou alguém que, quando fazia algum trabalho em grupo no ensino médio, normalmente fazia todo o trabalho.

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O.: Por que o seu time não fazia o trabalho ou por algum tipo de auto-martírio?

V.S.: Provavelmente um pouco de ambos! Eu cresci com uma mãe que sempre fazia quase todo o trabalho que conseguia colocar em suas mãos, então foi desse jeito, também. Mas eu também era boa no que estava fazendo, para que as coisas fossem colocadas no meu prato – mas isso era uma tangente. O que eu estou dizendo é que eu tomo a divisão de trabalho muito seriamente porque trabalho desigual não é realmente minha vibe (risos). Mas com uma graphic novel, o fardo recai sobre o ilustrador, especialmente com um livro como esse onde quase todo o texto foi tomado diretamente de cartas que eu recebi. Isso não significa que eu não coloquei muito trabalho por trás das cenas para criar uma história, mas Ness fez a grande parte dele. Eu amaria criar outra graphic novel, mas eu não consigo desenhar nada.

O.: Essa foi, tipo, a pergunta menos profunda que eu tive, mas eu percebi que as linhas do trabalho são pretas e azuis. Porque linhas azuis?

V.S.: Ness costuma trabalhar com preto e branco. Eu fiquei preocupada que um quadrinho sobre ameaças de morte e cartas de ódio em preto e branco pudessem ser depressivos. Para mim, o objetivo foi criar algo um pouco satírico, então uma das conversas Ness e eu tivemos era de como trazer cores para o trabalho dela. Eu acho que a decisão sobre a cor azul foi dela. Eu estava realmente inspirada pela paleta de cores de artistas que eu encontrei no Instagram como de Ricardo Cavolo – muitas cores primárias, saturadas e brilhantes.

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O: Eu imagino que deve ter sido doloroso revisitar aquelas experiências várias vezes para produzir o Death Threat. Foi difícil? Catártico?

V.S.: Honestamente, foi um processo muito feliz. Eu sempre fiquei hesitante para admitir isso porque eu não quero diminuir a seriedade de receber ameaças de morte e mensagens de ódio, mas o ponto do projeto de diversas maneiras foi de usar o humor para desmantelar o poder dessas mensagens. Para mim e Ness, nós tendemos a navegar pelo lado emocional das coisas, então foi engraçado pensar como nós poderíamos exagerar essas mensagens e apontar o quão ridículas elas eram – como Ness desenhou literalmente galhadas na minha cabeça quando o autor daquelas mensagens disse que sua mãe “iria me caçar” ou jogar CDs da Dixie Chicks em uma fogueira dos meus livros para mostrar como toda a comunidade estava contra mim. Ao fazer arte sobre as cartas me permitiu desconectar do quão perturbador essas mensagens eram quando eu recebi, especialmente pela primeira vez.

O: Que tipo de mensagens você gostaria de ter na sua caixa de mensagens?

V.S.: Essa é uma ótima pergunta! (risos) Que tipo de mensagens… Tipo, já que você perguntou, eu desejava algo do tipo, “Ei, nós queremos te contratar para o nosso novo show!”. Eu tenho muita sorte. Eu acho que a internet e as redes sociais tem sido muito boas para mim como um artista independente. Boa parte da minha carreira, desde a época do MySpace, essas plataformas foram os únicos lugares onde eu poderia acessar um público maior. Muitas pessoas os usam para mostrar apoio, seja através de tweets ou comentários por mensagens diretas, então eu tentei manter isso em mente na medida que eu navegava entre trolls que apareciam.

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O: Quado nós falamos sobre visibilidade, normalmente é enquadrado como um tipo de algo virtualmente bom para pessoas trans. Mas Death Threat mostra como estar público e visível pode levar para assédio on-line – assim como o seu recente livro, I’m Afraid of Men (“Tenho medo de homens”, ainda inédito no Brasil), explora o medo de ser visível quando você sai de casa. Essa foi uma dificuldade de explorar, tornando público algo que tem a potencialidade de te deixar mais vulnerável?

V.S.: A verdade é que eu sempre fui uma artista pública, até mesmo antes de me identificar como trans. Eu comecei como escrevendo músicas pop de amor. Eu sempre escrevo essas músicas para serem compartilhadas, para conectar com outros. Eu nunca fui uma artista reclusa, por assim dizer. Eu acho que não tem nada de errado com isso, mas nunca foi o caminho que eu escolhi para a minha carreira.

Existiram definitivamente momentos que eu questionei as minhas escolhas. Eu acho que minhas ideias sobre representação e visibilidade adquiriram mais nuances nos últimos anos. Muitos de nós, quando nós começamos, somos motivados a criar a visibilidade que nós não tivemos quando crescíamos, o que é válido. Mas como muitas outras pessoas trans e queer do passado tem apontado, a visibilidade não necessariamente se traduz em segurança física ou financeira ou qualquer outra coisa que imaginamos que a visibilidade e representatividade irá curar.

Eu estou muito mais consciente e posso fazer uma auto-crítica e fazer uma compressa nas águas de representação como uma justificativa do meu trabalho nesses dias. Eu não criei Death Threat pensando “Esse é um quadrinho trans” ou, você sabe,  uma “contribuição trans para o mundo das graphic novels”. Tudo isso é verdade, mas eu estou interessada na história e se ela faz sentido.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): The Joyful Side of Death Threats with Vivek Shraya

“Eu posso ser eu mesmo”: História do refugiado sírio que liderou a parada do orgulho de Kelowna, Canadá

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