Parada do Orgulho continua sendo centro de tensões na Coréia do Sul

Tradução do texto de Yoon So-Yeon originalmente postado no Korea JoongAng Daily.

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No dia 17 de maio, o Dia Internacional Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, o legislativo taiwanês legalizou o casamento homoafetivo, se tornando o primeiro corpo governamental da Ásia a fazê-lo. O voto veio depois que a Corte Constitucional decidiu que casais do mesmo sexo deveriam ter o direito de se casarem em 2017, e deu ao parlamento o dia 24 de maio como data limite para que criassem uma nova lei.

A presidenta de Taiwan Tsai Ing-wen louvou o voto em um tweet que dizia, “No dia 17 de maio de 2019 em #Taiwan, #AmorVence. Nós tomamos um grande passo em direção à verdadeira igualdade, e tornamos Taiwan um país melhor”.

Nesse mesmo dia, a organização LGBT coreana Rainbow Action – uma aliança de 20 grupos que lutam pelos direitos LGBT – realizaram uma manifestação em frente ao Centro de Sejong para Artes Performáticas em Gwanghwamun, em Seoul, e marcharam em direção para a então chamada “rua gay” em Jongno 3-ga.

“Todos tem o direito de viver a sua vida de sem sofrer com o ódio ou a discriminação, mas na realidade, as vidas de minorias sexuais estão constantemente sob ameaça”, dizia a declaração publicada pela organização que teve a assinatura de 115 grupos ativistas e 438 indivíduos. “Nós prometemos lutar contra a discriminação de minorias sexuais e tornar a nossa existência visível nessa sociedade (…) Igualdade é o caminho para a sociedade onde todos são seguros”.

Os participantes da marcha gritavam lemas como “Vamos brilhar as luzes da igualdade e segurança contra o ódio e a discriminação”, “Nós estamos aqui, não apaguem minorias sexuais” e “não existe igualdade sem direitos humanos para minorias sexuais”. A marcha terminou por volta das 21 horas, na estação de metro de Jongno 3-ga.

Enquanto cerca de 30 países ao redor do mundo reconhecem o casamento homoafetivo, o conflito entre aqueles que apoiam e aqueles que são contra os direitos LGBT na Coréia ainda permanecem uma questão polêmica, tornando o Festival de Cultura Queer de Seoul o centro de atenções para ambos os lados.

A grande reunião

O primeiro Festival de Cultura Queer de Seoul, entitulado “Rainbow 2000” aconteceu entre os dias oito e nove de setembro de 2000. Foi um festival pequeno e humilde de dois dias, apresentando conferências e performances na Universidade de Yonsei em Seoul e uma parada por Daehangno na tarde do segundo dia. Cerca de 50 participantes marcharam pelas ruas chuvosas enquanto as pessoas assistiam com curiosidade.

O Festival de Seoul tem sido então realizado todos os anos desde 2000 em diversas vizinhanças pela cidade, principalmente perto das áreas de Jongno e Cheonggye nos primeiros anos, e depois se mudando para vizinhanças mais amigáveis para estudantes como Sinchon e Hongdae. O festival tem sido realizado em uma área aberta em frente da prefeitura desde 2015, com a sua parada direcionada para as ruas de Jongno e Euljiro.

De acordo com organizadores, o 20º Festival de Cultura Queer de Seoul seria “o maior até o momento”. Diversas palestras começaram no dia 21 de maio, com uma seção intitulada “Nossa Narrativa Dentro do Festival: O Discurso de Formação e Desenvolvimento do Festival de Cultura Queer” pelo palestrante Gahng Taw-gyung, diretor do Instituto Cultural de Criatividade da Ásia. Uma segunda palestra foi realizada por Kim In-sun, que falou da sua história como mulher lésbica morando na Alemanha, e Jeong Min-woo, cuja palestra  é intitulada “Paradas do Orgulho e Políticas Queer em Taiwan, Cingapura, e Coréia do Sul”.

Um evento especial patrocinado pela “Seoul Pink Dot” aconteceu no dia 31 de maio na Seoul Plaza das 17h até as 19h30, apresentando diversas tendas e performances. O 19º Festival de Filmes Queer da Coréia aconteceu entre os dias cinco e nove de Junho no Cinema Daehan no centro de Seoul. Mas o ponto alto do festival, a 20ª Parada Queer de Seoul, aconteceu no dia primeiro de junho ddas 16h até as 18h do plaza até Euljiro, Gwanghwamun, e depois de volta até a prefeitura.

Ambos os lados da rua

Ano passado, a parada aconteceu em um dia quente de Julho. Enquanto cerca de 50.000 participantes encheram a Seoul Plaza, um grupo de manifestantes anti-LGBT, em sua maioria grupos cristãos e conservadores, tomaram as ruas e balançavam as bandeiras da Coréia do Sul e dos Estados Unidos. As suas placas liam, “Nós nos opomos ao comportamento homossexual porque nós amamos” e “sexo entre dois homens é a causa da AIDS”. Os manifestantes conservadores chegaram a deitar nas ruas para tentar impedir que a parada acontecesse.

As pessoas foram menos agressivas e hostis contra aqueles que participaram há 19 anos atrás, de acordo com Han Chae-yun, a diretora da Parada Queer de Seoul. Abertamente lésbica, Han atualmente trabalha em diversos grupos de ativistas sociais, incluindo o Festival de Cultura Queer de Seoul, o Centro de Direitos e Cultura de Minorias Sexuais da Coréia e a Fundação Além do Arco-íris para ajudar a comunidade LGBT da Coréia.

“Nós começamos a receber uma forte oposição, como a que vemos nos dias de hoje, começando em 2014”, disse Han. “Quando eu era ainda uma estudante universitária, há 20 anos atrás, as pessoas simplesmente nos chamavam de ‘pervertidos’ ou ‘homos’, mas era isso. Nós não víamos uma forma organizada de ódio dirigido a nós. Existem mais pessoas que dizem que nós merecemos tratamento igualitário, mas ainda existe a mesma quantidade de pessoas que não nos tratam como seres humanos”.

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Han Chae-yoon

Ela adicionou, “Eu acho que é evidente o fato de que nossa presença se tornou mais visível na sociedade. Porque você precisa ser reconhecido para receber oposição”.

A oposição é forte, de acordo com Han, que os organizadores do festival precisam acampar do lado de fora de estações policiais para reservar o evento, que é organizada em um sistema de quem chegar primeiro. Esse ano foi mais intenso do que nunca. Um total de 290 pessoas, incluindo os organizadores do festival e voluntários, fizeram turnos para manter o assento nos arredores da Polícia de Namdaemun, na Polícia de Jongno e a Agência do Distrito Policial de Seoul por oito dias seguidos, para que eles pudessem realizar a parada pelo centro de Seoul. Próximo deles, estavam membros da oposição, que “eram desde conservadores até devotos religiosos”.

“Na Coréia, as pessoas que se opõe contra a comunidade LGBT usam o festival contra questões maiores. Como o fato de que anos atrás, um pastor comentou que foi ao protesto não porque realmente odiava os gays, mas porque odiava o então prefeito de Seoul, Park Won-soon. É o mesmo para a religião. Eles ensinam essas coisas na igreja sobre as coisas que nunca aconteceram e que nunca acontecerão, e depois dizem que é contra o direito de liberdade de expressão serem proibidos de pregar isso”, disse Han.

Conservadores na Coréia normalmente usam a sua oposição contra a comunidade LGBT como maneira de unificar os manifestantes. Por exemplo, no dia 17 de maio, o diretor do Partido da Liberdade da Coréia, Hwang Kyo-ahn declarou que ele “se opõe a homossexualidade pessoalmente e politicamente”, enquanto o partido lançou uma declaração contra o Festival de Cultura Queer no dia 20 de maio que dizia que “o festival tem se manchado pela exibição de corpos e ações, assim como de slogans sugestivos”. O porta voz do partido, Min Kyung-wook até mesmo falou para que o atual Partido Democrático “sair do armário como o Partido Queer”, apontado o fato de que alguns membros do Partido Democrático expressaram os seus planos de participar da parada.

Existem muitas razões para manifestantes tomarem as ruas em oposição à parada anual, mas as estatísticas provam que os coreanos estão lentamente se tornando mais receptíveis para a comunidade LGBT. De acordo com a “Pesquisa de Integração Social Coreana 2018” publicada pelo Instituto Coreano de Administração Pública em fevereiro, a porcentagem de pessoas que disseram que eles “não aceitam homossexuais” caiu para menos de 50% pela primeira vez na história da pesquisa. Conduzida de setembro e outubro do ano passado, a pesquisa entrevistou 8.000 cidadãos coreanos, 49% deles respeonderam que eram contra a homossexualidade, enquanto o resto dos entrevistados respondeu que eles poderiam aceitá-los como vizinhos (30,5%), colegas de trabalho (14,6%), amigos próximos (6,5%) ou cônjuges (0,4%).

A porcentagem de pessoas que responderam que não aceitariam pessoas homossexuais foi de 62,1% em 2013. E caiu para 57,2% em 2017.

Um passo de cada vez

“Nós estamos demandando uma lei contra a discriminação desde 2007, e isso ainda não aconteceu ainda”, disse Han. “A economia cresceu tanto nesses últimos 12 anos, mas o nível de conscientização da sociedade se manteve o mesmo. Nós passamos a nossa vida inteira sofrendo com as questões sobre quem nós somos e porque nós somos assim, questões que nunca passariam pela cabeça de heterossexuais”.

“Quando eu era mais jovem, eu sentia que eu estava fazendo algo errado – mesmo eu não sabendo o que em específico – quando eu me apaixonei por alguém do mesmo sexo. Nós descobrimos depois que nós duas nos amávamos, mas nós também sabíamos que devíamos manter isso em segredo, que era perigoso que outros soubessem disso. Eu tinha que constantemente me policiar, por causa do fato de que eu amava outra pessoa”, ela relembra.

Apesar de mais pessoas terem saído do armário nos últimos anos, a sociedade coreana ainda tem uma mentalidade de querer manter as pessoas “na linha”. A parada é então voltada para todas as pessoas, todos os gêneros e sexualidades, de acordo com Han.

“Ela é referenciada como a “Parada do Orgulho” em inglês, porque o festival é para nós termos orgulho de quem somos. As pessoas pensam que nós não existimos na sociedade e tentam nos apagar de todos os cenários. Mas nós estamos aqui. Nós somos os seus amigos, sua família, seus vizinhos e seus colegas de trabalho, e nós não temos vergonha disso. Nós temos orgulho de quem somos, porque é aí que tudo começa”, disse Han.

Ela adicionou, “Para aqueles que ainda estão sofrendo – você está bem simplesmente da forma que você é”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Parade still at center of Korea’s LGBTQ debate: The Seoul Queer Culture fest expects more support (and opposition) this year

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