Humilhando passivos com um toque de “não curto orientais” – Entrevista com Hoang Tan Nguyen sobre o seu novo livro

Tradução do texto de Graham Gremore originalmente postado no Queerty.

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“Eu penso que a impressão que a mentalidade de muitos homens gays é de que, no fim da noite, todos os homens asiáticos irão se deitar, jogar as suas pernas para o ar, e implorar para serem penetrados”, disse o autor e diretor Hoang Tan Nguyen para o Queerty para essa entrevista.

O seu livro, “Uma visão de baixo: a masculinidade do asiático-estadosunidense e a representação sexual” (A View from the Bottom: Asian American Masculinity and Sexual Representation. Título ainda inédito no Brasil) desafia os estereótipos ao oferecer uma crítica profunda sobre feminilidade masculina e a sua racialização na cultura pop.

Nguyen nasceu em Saigon, Vietnã. Sua família se mudou para os Estados Unidos quando ele tinha cerca de 10 anos. Hoje, ele é professor assistente de Estudos de Inglês e Cinema na Faculdade de Bryn Mawr. Nós tivemos uma oportunidade de conversar com ele sobre o seu livro, o seu trabalho e os seus pensamentos sobre a visão da sociedade sobre homens asiáticos gays.

Queerty: Em seu livro você examina alguns dos esteriótipos que rodeiam os homens asiáticos gays. Qual é o esteriótipo mais comum que você observou?

Nguyen: O esteriótipo mais popular é que os homens asiáticos são afeminados, sempre passivos. Isso também se aplica aos jovens musculosos em bares ou na internet. Eles não são percebidos como “machões” da mesma maneira que homens brancos são. Eu acho que a impressão que a mentalidade de muitos homens gays é que apesar deles parecerem masculinos, no fim da noite, esses garanhões asiáticos irão se deitar, jogar as suas pernas para o ar, e implorar para serem penetrados. Um dos argumentos chaves desse livro é que enquanto homens asiáticos gays são associados com a posição sexual de passividade, não existe nada de errado em ser passivo. O que é problemático é a ideia de que o desejo sexual de todos os homens asiáticos está restrita a apenas uma posição sexual.

Q.: Como um homem asiático que é passivo é visto diferentemente, por assim dizer, de um homem branco que é passivo?

N: A percepção do homem asiático, gay ou hétero, como afeminado, com uma que falta a porção de masculinidade, e por isso, sexualmente indesejável, pode ser atribuído a uma mentalidade do ocidente colonial que julga o “oriente” como um espaço misterioso, feminino, a ser seduzido, conquistado, e penetrado. Então homens asiáticos que são passivos são considerados uma expressão “natural” da sua natureza racial. Mas o ato de ser passivo para homens brancos não diz nada sobre a sua essência racial. É somente um papel sexual que eles preferem. Ao mesmo tempo que a ideia de que estar do lado receptivo do sexo anal é categorizada como feminilizante, raça complica essa questão. Ser penetrado não necessariamente impugna as questões sobre os privilégios de masculinidade entre homens brancos da mesma maneira que ela acontece para homens asiáticos.

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Q: Você argumenta que essa é no final uma maneira de reforçar a sexualidade do homem branco na sociedade.

N: A sexualidade racializada tem sido construída para reforçar as normas de homens brancos. A assexualização do homem asiático existe para contra balançar a hiper-sexualização de homens negros e latinos; Asiáticos possuem muito pouco, negros e latinos possuem muito. Os dois polos servem para confirmar a masculinidade branco como exata, segura no meio. Colocando de outra maneira, a branquitude é atrelada à categoria  de humanidade e concebida como universal, que no caso, nós podemos lincar com a versatilidade da sexualidade do homem branco.

Q: O que você pensa sobre homens que escrevem coisas como “não curto orientais” nos seus perfis de namoro?

N: Racismo sexual não é algo novo. Um classificados de emprego que afirmasse “Orientais não” seria obviamente considerado preconceituoso e discriminatório. Então porque seria diferente nos aplicativos de namoro? Porque um corpo atraente se torna indesejável quando um rosto asiático é revelado?

Q: Muitas pessoas irão argumentar que isso é somente a “preferência pessoal” deles.

N: Eu fico mais do que feliz em apoiar as preferências pessoais de cada pessoa, sexual ou não. Porém, é claro que uma pessoa não acorda do nada preferindo exclusivamente jovens brancos, ursos musculosos, lontras vegetarianas, e assim por diante. Muito do que nós chamamos de “preferências” na realidade são moldadas pelas normas culturais e instituições sociais. Racismo não é uma preferência, é uma instituição que confere benefícios e privilégios para alguns ao mesmo tempo que exclui outros.

Q: Quais são os passos que você acredita que devem ser tomados para superar os esteriótipos e estigmas que esses homens impõe sobre homens asiáticos?

N: Bem, o primeiro passo é sair por aí e ter relacionamentos sexuais com homens asiáticos. Esse conselho se aplica para homens asiáticos e não-asiáticos. Não reclame antes de provar, como diz o ditado.

Ao desafiar a estigmatização de homens asiáticos gays, nós temos que ser muito cuidadosos para não cair na padronização da masculinidade normativa. No momento, a resposta padrão de críticos e ativistas asiáticos americanos tem sido de afirmar que homens asiáticos são tão masculinos e potentes como homens de outras raças. Isso é claro que é verdade. Mas, tal defesa pode terminar reforçando a misoginia. Qual o problema de ser afeminado? Essa é uma questão de interseccionalidade. Gordos, afeminados, asiáticos, qualquer um, nós não deveríamos jogar os outros para baixo do ônibus.

Eu não estou interessado em combater a veracidade ou falsidade da fraqueza e submissividade do homem asiático. Mas, eu estou mais interessado em expandir como nós pensamos sobre ser asiático e masculino ou feminino. Eu quero que nós pensemos em eroticidade e desejabilidade dentro da ética do prazer e agir sem policiar o que é ou não é legítimo.

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Q: Você toca nessa questão no seu vídeo Forever Bottom!

N: Sim. Meu vídeo Ferever Bottom! critica a pressuposição de que todos os homens asiáticos são passivos mas não tenta recuperar a masculinidade asiática. O vídeo é uma montagem de quatro minutos de homens asiáticos sendo penetrados em diversos lugares (o quarto, o banheiro, contra o fogão, na grama, em um carro, na praia); o vídeo mostra um passivo ocupando espaços públicos e privados. Eu não tento ir contra o esteriótipo mostrando ou dizendo que asiáticos podem ser ativos musculosos. Eu não coloco ser ativo como sendo melhor que ser passivo. A passividade é poderosa!

Q: Como a passividade pode ser poderosa?

N: Como muitos especialistas em erotismo anal podem te dizer, a categoria da passividade abraças diversos tipo: passivos mandões, passivos insaciáveis, passivos preguiçosos, passivos submissos, passivos de pênis grande, passivos dominantes. Os inúmeros adjetivos que podem modificar a passividade sugere que ser passivo não significa somente uma coisa, especialmente, na determinação das necessidades, vontades, demandas e desejos. Minha frase “passividade é poder” reverbera do slogan da segunda onda feminista “irmandade é poder”. Nesse nível, ela desafia a suposição de que a passividade é desprovida de poder, humilhante, e envergonhante; ser penetrado não significa que você é dominado. Em outro nível, a frase é um pouco brega porque o meu pensamento de passividade privilegia o prazer e a ação de se render ao poder. Passividade, submissão e masoquismo podem ser escolhidos e podem oferecer prazer.

De maneira alternativa, nós podemos focar nos aspectos positivos da passividade e abraçar a vulnerabilidade, receptividade e abertura. Adotar a posição de passivo nos permite pensar sobre e fazer coalizões com aqueles que estão na mesma situação. Como membros de um grupo racialmente e sexualmente marginalizados, homens asiáticos gays estão em um lugar ideal para oferecer uma crítica forte do status quo sexual e racial. Ao invés de lutar entre nós pelos restos que nos são jogados, seria mais produtivo nos unir com outros localizados nesse lugar – queers, pessoas racializadas, mulheres, pessoas com deficiência – para desfazer a hierarquia existente. Nesse caso, a passividade pode ser realmente poderosa.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Bottom Shame With A Side Of “No Asian”: A Message For All You Racist Grindr Users Out There

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2 comentários em “Humilhando passivos com um toque de “não curto orientais” – Entrevista com Hoang Tan Nguyen sobre o seu novo livro

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