Ativistas LGBT lutam contra atitudes da era colonial

Tradução de Vincent Vichit-Vadakan originalmente postado na Nikkei Asian Review.

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Para mim, a imagem da drag queen mais famosa andando na frente de uma estátua de um monarca britânico do século XIX – que foi responsável por criminalizar a homossexualidade em todo o império – é algo que grita sobre as mudanças de atitudes na Ásia em relação à comunidade LGBT.

A performance e Pangina Heals (O nome de palco de Pan Pan Narkprasert) aconteceu na residência do embaixador britânico em Bangkok. Convidados passaram na frentte das imagens da Rainha Vitória, cujas leis coloniais criminalizaram comportamentos LGBT, conhecidos como a seção 377, e que permanecem nos livros jurídicos anos depois da independência de países como Cingapura e Malásia. A mesma lei que existiu na Índia até setembro de 2018, quando finalmente foi anulada pela Suprema Corte Indiana.

A noite, que ocasionalmente fugia dos protocolos da embaixada, foi levantada para marcar a premiação do Hero Awards, um evento organizado pela Apcom, um grupo de ativismo de Bangkok, para reconhecer militantes e grupos que lutam contra a discriminação e em favor dos direitos LGBT em toda a região da Ásia do Pacífico. No meio da música e de conversas animadas, eu consegui conversar com quatro vencedores na silenciosa varanda da embaixada sobre a sociedade em que vivem, e como eles batalharam o preconceito e até mesmo condenações.

Raymond Tai, representante da Fundação Pink Triangle da Malásia, aponta a recente perseguição contra questões LGBT como um dos maiores obstáculos em seu país. “Nós regredimos”, ele disse com franqueza. “Se você é gay e muçulmano não existe nenhuma maneira de sua voz ser ouvida”. Tai citou a punição física de duas mulheres por terem tido uma relação sexual no estado conservador de Terengganu como “algo que nunca deveria ter acontecido há 20 anos atrás, mas mesmo assim aconteceu nos dias de hoje”.

Com verba limitada – a fundação recebeu menos de US$15.000 de financiamento público em 2017 – o desafio para a fundação é ser criativa, gerenciando a clínica como uma empresa social autossustentável e alcançar através das mídias sociais serviços como testes de HIV.

A ativista veterana Jean Chong, de Cingapura, argumentou que transformar “uma lei vestígio da era colonial” que criminaliza a homossexualidade deveria ser uma prioridade nacional na cidade-estado. “Pessoalmente, eu acho que alguns dos políticos são simpáticos para a questão”, ela disse. “Mas eles são políticos, não é?”. A luta será difícil, ela aponta, indicando para as lições aprendidas com Taiwan, onde um referendo complicou os planos de reconhecimento do casamento homoafetivo.

“Eu acho que o que aconteceu em Taiwan nos conta que nós não podemos nos apoiar na maioria para oferecer a nós, minorias, direitos porque eles nunca passaram pelo que passamos”, diz Chong, adicionando que enquadrar os direitos LGBT como direitos humanos fundamentais, e não como questões minoritárias é uma estratégia mais efetiva em criar uma conscientização e apoio.

O ativista filipino Justin Francis Bionat disse que quando ele tinha 18 anos, ele organizou com sucesso a primeira “parada” pelos direitos de pessoas homossexuais em sua “muito pequena, muito conservadora” cidade natal de Iloilo. Ele também liderou uma oder municipal contra a discriminação que inclui identidades de gênero e orientações sexuais. “Eu era jovem e ninguém queria me escutar”, disse Bionat, que hoje tem 22 anos e é coordenador regional do Painel de Vozes Jovens, uma rede de apoio para jovens.

Bionat recebeu o prêmio pela história mais emotiva da noite. “O maior presente que um filho pode receber é a aceitação e amor de seus pais”, ele disse para a sua mãe e pai que estavam no público. “E eu me sinto amado e aceito, e poucos jovens tem isso”.

Outro vencedor, Taiga Ishikawa, publicou o livro “Boku no Kareshi wa doko ni iru” (Onde está o meu namorado?) em 2002, uma memória franca sobre crescer gay no Japão sem nenhum modelo visível. Ele se tornou o primeiro político abertamente gay do país ao ser eleito para a assembléia do distrito de Toshima, na região metropolitana de Tóquio em 2011.

“Eu descobri que eu era gay no ensino médio, e eu queria fazer algo para ajudar outros na sociedade”, disse Ishikawa. Mas só quando ele completou 25 anos que ele se assumiu, fez amigos gays e abriu uma organização sem fins lucrativos que apoia jovens homossexuais e pessoas trans.

“Eu acredito que o reconhecimento de parcerias LGBT é muito importante”, disse Ishikawa, citando nove cidades japonesas que oferecem o registro de parceria civil para casais do mesmo sexo. Ele também louvou diversas companhias japonesas por reconhecer casais do mesmo sexo como famílias para serviços como telefonia, seguro de saúde e milhagem de viagens.

Ishikawa, que espera conseguir um lugar na Casa de Concelheiros, a casa superior do parlamento japonês, disse que a sociedade japonesa está “se movendo de maneira muito positiva”.

Algumas questões ainda permanecem problemáticas, porém, ao tentar aumentar a sensibilidade além da Ásia. “Com tantas mudanças positivas, onde está o seu namorado?” Eu perguntei para ele, citando o título do seu livro. “Isso”, ele respondeu depois de uma pausa, “É uma pergunta muito difícil”.

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Matéria original (Em inglês): Asian LGBT activists strike at colonial era attitudes

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