Artistas LGBT resistem enquanto a censura chinesa se torna mais forte

Tradução do texto de Steven Jiang originalmente postado no Gay Star News.

__________________________________

Charlene Liu tinha o perfeito local em mente – um abrigo nuclear que foi transformado em um espaço multi-uso – para apresentar as artes que ela e seus colegas organizadores tinham curado para os eventos do Orgulho de Shanghai desse ano, a maior celebração LGBT que tem acontecido na China.

Liu, que tem organizado o Orgulho de Shanghai desde a sua criação há 11 anos atrás, disse ela ficou imperturbada quando as autoridades demandaram que ela mudasse de lugar de última hora. A CNN entrou em contato com o governo de Shanghai em busca de uma resposta.

“É realmente parte e parcela da organização do Orgulho em todos os anos”, disse Liu, que veio da Malásia. “Nós tivemos problemas semelhantes no passado, e nós sempre temos que ter um plano B ou plano C”.

O plano B desse ano foi uma galeria no famoso distrito artístico da cidade, o M50. No dia 8 de junho, a abertura da exibição aconteceu sem grandes problemas, atraindo um público grande de fãs das artes da comunidade LGBT e de transeuntes curiosos.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190628150455-shanghai-pride-3
Uma visitante durante a abertura durante o festival de arte  do orgulho na Galeria Polar Bear em Shangai (Foto: Shanghai Pride)

Mas, alguns dias depois, disse Liu, oficiais ordenaram que algumas das artes fossem removidas sem nenhuma explicação.

O incidente mostra como é o cenário artístico LGBT da China nos dias de hoje: emergindo do clandestino mas ainda lutando para encontrar aceitação.

A homossexualidade é legal na China e, desde 2001, as autoridades a removeram da lista oficial de doenças mentais. Mas especialistas e ativistas dizem que pessoas LGBT da China ainda enfrentam uma persistente discriminação e preconceito tanto do governo como da sociedade. E apesar da legalização do casamento homoafetivo em Taiwan, que Beijing considera como uma província separatista, existe pouca esperança do continente adotar tais decisões no futuro próximo.

Entre os artistas que estavam apresentando os seus trabalhos na exibição do orgulho estava Yang Yiliang, que incorpora arte folclórica chinesa e outras influências tradicionais nas suas pinturas com temática LGBT. Cinco rolos da sua série “Noivos de Papel” (Paper Grooms) foram dispostas, todas apresentando um proeminente símbolo de “dupla-felicidade” – um carácter chinês normalmente associado com casamentos – ao lado de animais do mesmo sexo simétricos intrinsecamente cravados no papel vermelho.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190627152705-yang-yiliang-paper-grooms
“Noivos de Papel” (Paper Grooms) de Yang Yiliang

Em um trabalho, dois homens sorridentes se sentam sobre o caractere de “dupla-felicidade” rodeados de dois dragões; outro trabalho mostra um homem solitário observando ao longe tendo ao fundo pinheiros, com dois pássaros (pegas) no fundo.

Yang, de 28 anos, explica que, de acordo com a cultura tradicional chinesa, as árvores representam a força, enquanto que os pássaros simbolizam esperanças promissoras, significando um eventual reconhecimento público da luta da comunidade gay por igualdade. A obra também aponta para a fragilidade do casamento – “como algo precário como papel”, disse o artista – na era moderna.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190627152747-yang-yiliang-paper-grooms-2
“Noivos de Papel” (Paper Grooms) por Yang Yiliang

“Muitas galerias de arte contemporânea ficam relutantes em expor meus trabalhos, afirmando que o meu trabalho é bom mas o tema é muito tabu”, ele disse de sua cidade natal em Changsha, na China central.

“Exibições de arte podem alcançar um público podem alcançar um grande público”, ele disse, adicionando que ele trabalha em cooperação com grandes eventos LGBT como o Orgulho de Shanghai, assim como em bares gays de grandes cidades. “Eu quero que as pessoas saibam sobre a nossa existência, nossas necessidades emocionais e nossos sentimentos internos através de formas tradicionais de arte”.

Espaços seguros

Um estabelecimento que abraçou artistas como Yangi é o clube noturno de Beijing, o Destination. Aberto por 15 anos, o clube gay localizado no centro é extremamente popular na capital chinesa, atraindo hordas de moradores locais e visitantes de diversos locais todas as semanas.

Hoje ocupando um prédio de quatro andares, o espaço expandiu além do clube noturno para incluir um centro comunitário com diversas programações, oferecendo tudo desde yoga e aulas de dança até testes gratuitos de HIV. Uma espaçosa galeria de diversas salas chamada Art.Des se encontra no terceiro andar.

“Eu pensei que seria uma boa ideia usar o espaço para fazer algo diferente para a comunidade LGBT”, disse o co-proprietário da Destination, Edmund Yang. “Por essa plataforma, as pessoas podem ter outra perspectiva de como as pessoas LGBT são”.

Os empresários gays descreveram a reação inicial do público da Art.Des como uma agradável surpresa, em sua maioria. Mas ele notou que o preconceito permanece, citando um incidente onde diversos artistas foram pressionados por amigos a retirar suas obras da exposição porque a Destination era um “espaço gay”.

Admitindo a sua própria falta de experiência artística, Yang disse que ele deseja transformar o Art.Des em um espaço “inclusivo” mas depende de seu amigo Pierre Alivon, um artista francês, para curar os trabalhos da galeria. A atual exibição “Amor é amor”, visualiza o tema através de pinturas, fotografias e esculturas para coincidir com o mês do Orgulho de junho.

Expressando uma preferência por trabalhos de jovens artistas chineses, Alivon disse que a falta de compreensão do público de artes tematizadas queer impõe um desafio para curadores. “As pessoas simplesmente irão me chamar e dizer ‘eu sou gay, eu sou um artista… eu pinto sobre sexo gay’ e esperam ser selecionados”, ele disse.

O artista Guang Ye algumas vezes pinta sobre sexo, mas ele foca na beleza do corpo masculino. O seu trabalho recebeu o reconhecimento da curadoria do Art.Des – assim como de um leal grupo de seguidores que inclui um crescente número de mulheres heterossexuais.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190627161802-guang-ye-mirror-image (1)
“Imagem Espelhada” (Mirror Image) por Guang Ye

“Eu decidi pintar o que eu desejava”, se lembrou o artista gay de 34 anos, que pintou mais de 1.000 corpos masculinos nos últimos oito anos. “Foi assim que eu comecei, e ficou provado ter sido a escolha certa”.

As pinturas em óleo de Guang expostas no Art.Des abraçam desde a inócua “Polo Aquático” (Water Polo), que enfatiza corpos atléticos em movimento para o mais explícito “Amigos do peito” (Bosom Buddies), que mostra os torsos de dois homens fortes em cuecas brancas, com a mão de um deles agarrando a virilha do outro.

O artista também pintou aquarelas e pinturas tradicionais chinesas, normalmente misturando estéticas ocidentais e orientais para criar corpos musculosos, exagerados em situações íntimas ou sexuais.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190627161904-guang-ye-water-polo
“Polo Aquático” (Water Polo) por Guang Ye

“Esses corpos masculinos existem e eles não são monstros aterrorizantes – isso é o que eu gentilmente tento fazer com que as pessoas reflitam através do meu trabalho”, disse Guang. “Eu quero dizer para as pessoas que todas as pessoas, todos os corpos, precisam ser tratados com gentileza”.

“Ninguém invade o meu estúdio para me impedir de pintar”, ele conta sobre o ambiente artístico de pessoas queer. “Eu acredito que tudo irá ficar melhor. E quando o seu trabalho brilha, as pessoas irão se atrair por você”.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190630092603-guang-ye-bosom-buddies
“Amigos do peito” (Bosom Buddies) de Guang Ye

“Jogo de gato e rato” com censores

Outro artista da exibição da Art.Des é Gao Zhouyue, cujas pinturas “Amanhecer” (Dawnings) mostra um casamento dentro de uma igreja entre uma mulher trans e sua esposa, testemunhada pelas suas crianças. Inspirado pela série americana “Sense 8”, Gao afirma que a sua obra é um testamento da fluidez da sexualidade, assim como da transcendência do amor.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190627162706-gao-zhouyue-2
“Amanhecer” de Gao Zhouyue

“Pintar esse quadro foi uma experiência de aprendizado para mim”, disse o artista de 26 anos, cujo ex-namordo foi tema do seu primeiro trabalho com temática queer. “Isso me ensinou muito sobre a comunidade trans”.

Formado na mais prestigiosa escola de arte da China, a Academia Central de Belas Artes, Gao é conhecido por colocar os seus modelos em fundos religiosos – algo que ele atribui aos seus estudos de murais europeus.

“Eu gosto do sentimento sagrado e magnífico encontrado nas igrejas”, ele disse, notando que ele usa materiais como conchas, vidro e outro para acentuar o seu trabalho.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190627162445-gao-zhouyue-1
Uma pintura de Gao Zhouyue

“No ocidente,  eu sei que a religião é o maior obstáculo para os movimentos de direitos LGBT”, ele adicionou. “Eu quero transmitir a mensagem de que religião e a comunidade LGBT podem interagir e comunicar, e ver como os seus relacionamentos se envolvem”.

Na China, um país oficialmente ateu sob o regime do Partido Comunista, a religião não tem um papel muito ativo nessa questão. Mas os censores do governo aparentam se veemente opostos da disseminação pública de conteúdos com temáticca LGBT, que tem um impacto desproporcional sobre diretores chineses queer.

Desde 2016, censores chineses baniram a representação do que eles veem como “comportamentos sexuais anormais”, incluindo relacionamentos gays e lésbicos, em programas de televisão e na internet. Diretores dizem que a regulação de filmes está se tornando cada vez mais conservadora e imprevisível – Embora sem uma proibição explícita da homossexualidade.

“Esse senso de incerteza nas regras de censura é o pior, porque ninguém está certo sobre nada”, diz Popo Fan, um proeminente diretor gay que morou em Berlin desde 2017. “Regras não escritas levam à auto-censura, que é mais terrível que a própria censura”.

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190627163017-chinese-filmmaker-popo-fan
Diretor chinês Popo Fan

O último curta de Fan, “Floss”, que foi filmado durante a sua última visita na China em Abril, é sobre o fetiche de homens gays pelos dentes de seus amantes. O diretor de 33 anos, que participou da estréia do seu filme no Festival Internacional de Curtas de Palm Springs na Califórnia, disse que a única maneira de filmes como esses serem vistos na China é através de pequenas exibiç~pes particulares. Esse sentimento é compartilhado pelo seu colega, outro direitor gay, Xiogang Wei, que também é um grande ativista pelos direitos LGBT na China.

“Para mim, nada mudou – sempre foi tudo ruim”, disse Wei, de 43 anos, que está trabalhando em um documentário sobre uma drag queen chinesa em busca de fama e fortuna através de apresentações ao vivo pela internet. “Não existe nenhuma maneira de distribuir ou exibir meus filmes – alcançando um público grande é simplesmente impossível”.

Tanto Wei e Fan se lembram do jogo de “gato e rato” nos primeiros anos do Festival de Filmes Queer de Beijing, onde oficiais tentaram fechar as exibições. Filmes do evento anual foram então apresentados em embaixadas ocidentais ou em centros culturais. Vivendo em um exilo auto-imposto por dois anos, Fan relata uma falta de talentos no círculo de diretores independentes da China – incluindo artistas queer. “Achar financiamento é difícil porque o seu filme nunca irá passar pelos censores… e sem uma permissão de filmagem, você está constantemente preocupado em ser detido”, ele fala. “A oferta tem sido menor por que muitas pessoas tem saído do país, enquanto outros, depois de realizarem os seus projetos, mudam para projetos mais comerciais. É muito difícil”.

Sinais de esperança

Dentro dos crescentes desafios, porém, os artistas e seus aliados parecem determinados em não perder a perspectiva – ou, mais importante, a esperança – quando se fala em aceitação dos seus trabalhos e identidades.

Cada um tem uma história positiva para contar: O pintor Guang relembra como os seus pais de educação pobre rural o abraçou quando ele contou que era gay; o artista Gao se lembrouda surpresa que teve quando um professor conservador aceitou o seu projeto com tema queer sem nenhuma exitação; o diretor Fan descreveu a sede do público chinês “por filmes LGBT de qualidade como  um sinal positivo da indústria doméstica de filmes; o ativista Wei apontou para a abundância de conteúdo LGBT pela internet chinesa, apesar do punho firme dos censores; e a organizadora do Orgulho de Shanghai, Liu, percebeu que a adesão do evento tem aumentado cada vez mais (Mais pais de crianças LGBT e famílias LGBT, disse ela).

http___cdn.cnn.com_cnnnext_dam_assets_190628160640-shanghai-pride-4
O curta “Beijo de um Deus Coelho” (Kiss of the Rabbit God), dirigido por Andrew Thomas Huang venceu o prêmio de melhor edição e melhor cinematografia no Festival de Filmes PRIDE de Shanghai de 2019

O fundador da Art.Des, Yang, disse que sua galeria e centro comunitário atualmente está alinhado com os objetivos de estabilidade social das autoridades, na medida que eles “criam um senso de pertencimento para pessoas LGBT”.

O contador que acabou se tornando um empresário, comparou os periódicos ataques do governo com os altos e baixos do mercado de ações: “Um pequeno impedimento está tudo bem desde que a direção geral seja positiva”.

“Nós só precisamos ser cuidadosos para não irmos diretamente de frente contra o governo”, adicionou Yang. “A gente não atravessa a linha deles e eles nos deixam florescer”, ele disse. “Com o tempo, nós esperamos mudar essa linha na direção que nos ofereça mais espaço”.

__________________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): China’s LGBTQ artists persevere as censors’ grip tightens

Postagem criticando educação inclusiva viraliza nas redes sociais chinesas

Como é o dia dos namorados para Hiker, ativista intersexual de Taiwan

China promete proteger direitos LGBT em reunião da ONU

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: