Ian Alexander: Vida em cores

Tradução do texto de Gabe Bergado para o Them.

_____________________________________

Eu cresci como uma criança de Tumblr. Eu sinto que todos da minha idade tiveram uma fase Tumblr, mas era um espaço seguro onde eu podia expressar a minha identidade. Eu me assumi para a minha família quando eu tinha 13 anos, e eles tiveram muita dificuldade de lidar com essa situação da época – eles não necessariamente me aceitaram no começo, então eu busquei amigos e a comunidade online por apoio sobre a minha sexualidade e gênero.

Eu seguia diversas pessoas trans, e muitas delas estavam postando chamadas de elenco para o The OA, que buscava um ator de ascendência asiática, trans, entre 14 e 15 anos. Eu estava chocado. Eu fiquei, “Caramba. Sou eu. Eu sou todas essas coisas aí”. Eu nunca tinha visto algo na mídia que capturava quem eu era, então eu me candidatei. Eu não tinha experiência profissional de atuação antes de fazer o teste para o Buck.

Foi interessante que logo de cara, o primeiro papel que eu consegui foi especificamente criado para ter uma representação trans. Me fez perceber que eu nunca vi algo desse tipo; eu não tinha visto nenhum personagem trans-masculino na televisão ou no cinema até aquele momento, exceto talvez em Meninos não Choram, e ainda mais personagens trans-masculinos interpretados por atores trans. É um sentimento incrível conseguir representar a comunidade.

The OA tem sido uma grande parte da minha vida, e mesmo quando eu estou nos intervalos da gravação, eu vejo ficando cada vez mais afeiçoado com os personagens. Buck é muito empático, uma pessoa de bom coração, e eu admiro a sua coragem. É essa coragem leve e quieta onde ele não precisa gritar ou bater em alguém para revidar; Ele possui uma força que é mais poderosa do que a física ou verbal. É a sua crença na OA e nos seus amigos. Suas virtudes naturais realmente nos inspiram. Eu sinto que Buck é definitivamente muito melhor como pessoa do que eu sou, então eu desejo ser mais como ele.

ian-alexander_inline-1
(Foto: Chad Davis)

Eu nunca tinha ido para a Parada do orgulho até o meu primeiro ano do colegial, porque eu não sabia quem eu era antes disso. Eu fui criado em um lar bem religioso, então eu tive muita dificuldade de me aceitar. Eu me lembro de ficar chocado de quantas pessoas estavam lá, porque eu fui criado para ver pessoas gays e trans como seres míticos que realmente não existem. Você pode falar com eles pela internet, mas você não as veria na vida real. Então eu me lembro de estar cercado de uma multidão de pessoas queer, e eu fiquei, “Nossa. Nós existimos. Nós estamos aqui, e nós somos queer, e nós não vamos nos esconder”.

Eu quero que pessoas que não tenham famílias que não os aceitam, ou que tenham preocupações de segurança, saibam que eles podem celebrar o Orgulho da sua própria maneira. Você não precisa ir para uma Parada enorme, festas ou eventos para celebrar – você pode fazer isso da sua própria maneira na sua vida do dia a dia, sendo quem você é e se amando. Eu acredito que o primeiro ato de resistência é simplesmente ser feliz, existindo, e tomando o espaço de pessoas queer, porque é isso que cria ódio – quando nós existimos, tomamos espaço, e cuidamos das nossas próprias vidas, e quando estamos simplesmente florescendo.

Eu nunca celebrei o Orgulho de verdade com a minha família, mas eu espero que isso pode acontecer algum dia. Eu conheci diversas pessoas desde que me mudei para Los Angeles no verão passado e encontrei muitos amigos pela internet. É muito interessante como a internet afetou a minha vida – primeiro eu entrei no The OA por causa do Tumblr, e hoje eu tenho muitos amigos, pessoas que eu considero como sendo a minha família por escolha, que eu encontrei através do Twitter. Muitos deles também são trans. O mais incrível da comunidade trans de Los Angeles especificamente, especialmente a comunidade trans-masculina, é que todos parecem se conhecer de alguma maneria, mas somos poucos também. Eu nunca morei em um lugar onde eu tenha me sentido tão conectado com outras pessoas trans. Meus amigos LGBT e eu cuidamos uns dos outros. É muito bom ter essa sensação de família entre pessoas queer que foram rejeitadas de suas casas de diversas maneiras diferentes.

Ultimamente, tem sido muito interessante olhar para as minhas antigas postagens do Instagram e ver a minha transformação de alguém muito triste, um pouco inseguro, ao florescimento desse jovem homem confiante que está vivendo em Los Angeles e expressando a sua identidade de gênero de maneiras variadas. Eu uso toneladas de maquiagens e jóias hoje, e eu continuo confiante da minha identidade. E eu acho que eu pareço mais feliz e saudável hoje. Eu recebo muitos comentários de como são as temáticas do meu Instagram, porque por anos minhas postagens se alternavam entre fotos em tons de cinza e diferente cores monocromáticas. Em fevereiro quando eu voltei de um longo período afastado das redes sociais eu pensei comigo mesmo “Certo, já deu com postagens cinzas. Eu estou vivendo uma vida colorida hoje”. Foi uma maneira muito boa de marcar essa mudança na minha vida.

ian-alexander_inline-2
(Foto: Chad Davis)

Em The Last of Us II, um vídeo game que participei como dublador, foi um trabalho incrível. Eu trabalhei nisso por quase dois anos, e está sendo uma produção muito mais longa que isso. Eu cresci durante esse projeto, assim como em The OA. Nós fechamos as gravações bem quando a minha voz começou a engrossar, então será muito interessante olhar para esses dois últimos anos antes de eu ter começado a receber testosterona, imortalizados para sempre em um video game. Será muito estranho jogar comigo mesmo, e então me ouvir dizendo coisas como “olhe ali” com um tom de voz alto. Eu me esforcei como ator nesse projeto também – Eu acho que fazer a captura de movimento é muito parecido com o teatro de alguma forma, porque você está em um estúdio, e você tem acessórios, não existe cenário ou fundo ou qualquer coisa do gênero. É só um palco e sua imaginação, e você está vestindo uma roupa com milhões de pontos. O que eu vi sobre isso é realmente incrível.

Video games eram uma constante na minha infância – eu jogava jogos como Animal Crossing, Mario Brothers, e Princesa Peach por todo o ensino médio, e então eu passei para jogos como Minecraft e Runescape. Foi lá que eu comecei a encontrar a minha comunidade virtual; Eu estava no ensino médio, e eu tinha esse grupo virtual de amigos que construíam mundos comigo, ficávamos juntos e conversávamos enquanto jogávamos. Olhando para trás, tinha diversas vezes que eu me escondia por trás do meu personagem – Eu conversava com as pessoas sob uma identidade completamente diferente. Eu sentia que essa era uma verdadeira metáfora de ser trans.

Para mim, o Orgulho é sobre a celebração de quem nós somos e o quão longe nós conseguimos chegar como comunidade desde Stonewall. Nós não estamos ainda próximos da linha de chegada; nós ainda estamos lutando contra opressões. O casamento homoafetivo é legalizado, mas isso não significa que mulheres trans pararam de morrer por todo o país; e isso não significa que as pessoas não estão perdendo os seus empregos por causa da sua sexualidade, e isso não significa que ainda não exista discriminação massiva de pessoas trans no sistema de saúde. A luta ainda não terminou.

Tem sido muito estressante ver como muitas mulheres trans negras estão sendo assassinadas principalmente nessa época do ano. Parece que um novo nome aparece toda semana. É uma questão que a comunidade LGBT tem levantado, mas não de maneira suficiente. Nós deveríamos estar lutando para proteger o direito de pessoas trans, nós deveríamos estar lutando por lugares mais seguros para pessoas LGBT, e nós deveríamos estar precionando os políticos que estão tentando tomar os nossos direitos de moradia e de oportunidades igualitárias.

No futuro, eu gostaria de poder interpretar um personagem complexo que não fosse necessariamente um herói. Eu com certeza não quero personagens que vilanizem pessoas trans, mas eu gostaria de me conectar com mais personagens que tenham as suas próprias razões pelas suas ações. O que eles fazem não podem ser o melhor, porque as pessoas são complexas e elas erram as vezes, mas eu adoraria interpretar um papel do tipo de vilão simpático. Se Avatar: A lenda de Aang se tornar uma série na Netflix, talvez eles possam me considerar para interpretar Aang, porque eu com certeza, sem margem de dúvidas, me pareço com o jovem Aang, e eu também posso começar o meu treino em artes marciais agora. Eu faria isso para o papel, eu faço qualquer coisa por Aang.

_____________________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Ian Alexander: Life in Color

Perfil: Ian Alexander e a representatividade da juventude trans

Ian Alexander explica porque não existe desculpa para Hollywood não contratar atores trans

Representação trans e a grande estréia de Ian Alexander em OA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: