Vozes LGBT: Abraçando o progresso

Tradução do texto de Masami ito originalmente postado no The Japan Times.

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Nem a fama ou os status sociais importam muito quando você está na frente das lentes de Leslie Kee. Mesmo assim, o fotógrafo de Cingapura capturou retratos de inúmeras celebridades, incluindo Beyonce, Madonna e Lady Gaga.

Nos últimos anos, porém, Kee mudou o seu foco em um projeto chamado “Out in Japan”, que documenta as histórias de minorias sexuais japonesas.

Conversando com o seu escritório que fica na vizinhança de Daikanyama em Tóquio, Kee diz que ele deu atenção especial para as histórias por trás de cada pessoa que ele fotografou nesse projeto.

“Para mim eles são todas as estrelas por serem quem são”, diz Kee. “Eles não são somente estrelas, eles são heróis de suas comunidades”.

“Out in Japan” foi lançado pela organização sem fins lucrativos Good Aging Yells em 2015, com Kee trabalhando como fotógrafo chefe do projeto desde a sua concepção.

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Modelo trans Ivan foi a primeira pessoa a aparecer no projeto “Out in Japan” (Foto: Lesli Kee)

Inspirado pela coleção de fotos de minorias sexuais dos Estados Unidos de 1994 chamado “Out in America”, o projeto foi lançado no Jaão com retratos da modelo trans Ivan e desde então apresentou mais de 1.200 pessoas que se identificam como LGBT.

O fundador da Good Aging Yells, Gon Matsunaka, disse que o projeto oferece muita inspiração para a comunidade LGBT.

“Os efeitos de um indivíduo sair do armário é extremamente poderoso”, diz Matsunaka. “Mesmo se um pessoa se assumir para outra, ela ajudará a gerar mais compreensão e conexões afetivas”.

Atenção da Mídia

De acordo com uma pesquisa conduzida pela Dentsu Diversity Lab com 70.000 entrevistados no ano de 2015, 7,6% das pessoas responderam se identificar como LGBT, uma proporção que se aproxima a 1 entre cada 13 pessoas.

Pesquisadores geralmente concordam que questões LGBT somente começaram a atrair a atenção da mídia nos últimos anos.

Em março de 2015, o distrito de Shibuya em Tóquio foi a primeira municipalidade a reconhecer a parceria de pessoas do mesmo sexo. Outras seis municipalidades já reconheceram essa parceria, incluindo a cidade de Fukuoka mais recentemente.

Companhias tem se posicionado nesse debate, introduzindo medidas para produzir um ambiente mais aceptativo para pessoas LGBT através de programas de diversidade e inclusão.

Ao captar os retratos de “Out in Japan”, Kee acredita que está fazendo a sua parte ao colocar luz sobre as histórias pessoais de cada indivíduo fotografado.

Falando de seu escritório, Kee explica porque ele decidiu fotografar retratos de cada pessoa em seu projeto com os olhos fechados e abertos. Apontando para imagens de casais homoafetivos que ele tirou para outro projeto, Kee diz que a primeira coisa que as pessoas olham para os casais fotografados com olhos fechados não é a orientação sexual deles, mas o amor.

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Leslie Kee | ELLE HARRIS

“Quando você olha para os olhos de uma pessoa, você imediatamente julga a identidade dessa pessoa”, diz Kee. “Os olhos são o elemento mais importante quando você está fotografando um retrato”.

“Out in Japan” também se tornou o trabalho da vida de Kee. O fotógrafo disse que ele consegue se relacionar com os indivíduos fotografados porque ele também se identificou como uma minoria toda a sua vida. Kee se lembra da sua infância em Cingapura, onde ele e sua irmã foram criados na pobreza. Sua mãe cuidou dos dois sozinha, trabalhando como prostituta para poder sustentar a família.

Dois meses depois da morte da sua mãe por câncer, ela deu para Kee, que tinha 13 anos na época, a sua primeira câmera. Kee sempre quis uma câmera, porque ele não tinha fotos de quando era criança. Ele se lembra de sentir inveja dos seus colegas de classe que podiam levar fotos da família para a escola. “Eu não posso voltar no passado para tirar fotos de mim e minha mãe”, disse Kee. “Eu queria uma câmera porque eu queria fotografar a minha irmã para que ela pudesse ter fotos dela quando nova”.

Escolha pessoal

“Out in Japan” quer compilar retratos de 10.000 pessoas até 2020. Matsunaka, porém, diz que o objetivo do projeto não é forçar as pessoas a saírem do armário. “É uma escolha pessoal”, diz Matsunaka. “Não é algo que alguém deva fazer… Nós queremos criar uma sociedade onde as pessoas possam sair do armário quando e se elas quiserem”.

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Fundador da Good Aging Yells, Gon Matsunaka (Foto: Leslie Kee)

Matsunaka, de 42 anos, foi criado em Kanazawa e é o segundo filho de três meninos.

Assim como muitas pessoas LGBT de sua geração, a homossexualidade não era algo que era discutida quando ele ainda era jovem. Ele estava confuso sobre porque ele se sentia atraído por outros meninos mas sabia que devia manter esse sentimento em segredo para si mesmo.

Matsunaka confirmou que ele era gay depois de ver a ofensiva representação estereotípica de um homem gay chamada “Homoo Homooda”, interpretada pelo comediante Takaaki Ishibashi, nos programas da televisão dos anos 80.

Ao procurar a palavra “homossexualidade” no dicionário, uma das definições listadas do termo era “sexualidade anormal” – uma frase que então foi retirada dos dicionários.

“Eu vi a palavra ‘anormal’ e fiquei em choque”, disse Matsunaka. “Eu sabia que eu não podia dizer para ninguém. Eu tentei ser contente na medida do possível com a minha família mas eu não podia dizer a verdade sobre mim mesma para ninguém e eu senti como se eu não estivesse vivendo a minha própria vida”.

Matsunaka se mudou de Kanazawa para Tóquio a estudos. Porém, uma estadia em Melbourne, Austrália, como intercambista reaknebte abriu os seus olhos na medida que ele se viu em uma realidade mais tolerante. A faculdade que ele estudou tinha uma “sala queer” aonde ele podia conversar sobre a sua vida livremente.

“Esconder o fato de que eu era gay tinha se tornado a norma e, apesar disso ser difícil, eu aprendi a me proteger através de mentiras e evitando certas conversas”, Matsunaka disse. “(Em Melbourne, porém), eu fui atingido por essa sensação de liberdade. Pela primeira vez na minha vida, eu percebi o quão difícil era esconder a minha sexualidade”.

Ao voltar para o Japão, Matsunaka conseguiu um emprego para a empresa de marketing Dentsu Corp., onde ele continuo a trabalhar até junho de 2017. Foi durante esse tempo na Dentsu que em 2011 ele se assumiu para os seus colegas de trabalho e iniciou o trabalho com a Good Aging Wells.

Reconhecimento municipal

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Ryutaro Nagata, head of Shibuya Ward’s gender equality and diversity promotion division | LESLIE KEE

Ryutaro Nagata, líder da divisão de promoção de diversidade e igualdade de gênero do distrito de Shibuya, também teve um papel importante no início da “Out in Japan”.

Nagata, de 43 anos, trabalhou para a Gap Inc. e ajudou Matsunaka a levantar o projeto ao conseguir que a companhia de roupas dos Estados Unidos oferecesse o figurino para os fotografados. Ele também coordenou uma exibição dos retratos de Kee na maior loja da Gap no distrito de Harajuku, em Tóquio.

Nessa exibição, Nagata se encontrou com o prefeito de Shibuya Ken Hasebe. Hasebe foi uma das vozes em apoio da comunidade LGBT nos últimos anos, pedindo pelo reconhecimento do casamento homoafetivo, o que levou a um decreto que publicou o nome de companhias e organizações que discriminam casais homoafetivos.

“É um decreto que rejeita qualquer tipo de discriminação baseada no gênero e sexualidade”, disse Nagata. “É significante porque o decreto foi aprovado pelo desejo de moradores de Shibuya”.

Nagata saiu da Gap e recebeu um encargo de três anos no escritório do distrito de Shibuya em setembro de 2016. Ele afirma que o decreto sobre discriminação é só o começo, adicionando que é o trabalho dele fazer com que ele seja respeitado. Isso, porém, é ainda muito difícil de se realizar.

“Os pontos foram todos colocados em jogo”, diz Nagata. “É hora de conectá-los. Questões LGBT tocam em questões de diversidade de gênero e, por isso, elas são a respeito de todos. Eu acho que nós ultimamente necessitamos fazer essas conexões”.

Criado em Fukuoka, Nagata também cresceu escondendo o seu eu verdadeiro da sua família e amigos. Morando em uma sociedade rigidamente patriarcal, Nagata disse que ele percebeu que deveria sempre lutar como minoria sexual, e também estudou muito para entrar na Universidade de Tóquio – o seu bilhete de saída da sua cidade natal.

“Era a Todai (Universidade de Tóquio) ou a morte”, ele diz, meio que brincando. “Para ser honesto, se eu não pudesse sair de Kyushu, eu não estaria vivo hoje”.

Questões familiares

Não é fácil se assumir para alguém que você ama, e pode ser ainda mais difícil para familiares daqueles que resolvem fazer isso.

Yuichiro Kono, um executivo de 57 anos, sabia desde pequeno de questões LGBT muito antes de seu filho, Mizuho, contar para ele que era trans. Foi em junho de 2016, e Mizuho tinha acabado de sair da faculdade.

Nessa época, Kono pensou em dizer para Mizuho que ele sempre seria o seu filho, não importasse o que acontecesse, mas no momento ele disse “Você sempre será a minha filha”.

“É difícil responder algo se você não entende sobre a questão”,  disse Kono. “Mas o que eu sabia imediatamente era que ele era o meu filho e tudo o que podemos fazer é encararmos juntos essa questão”.

Para entender o que Mizuho estava passando, Kono passou o máximo de tempo conversando com ele sobre a sua identidade e sobre ser homem trans.

“Meu filho foi corajoso o suficiente para se assumir e, como o seu pai, não me parecia certo esconder essa verdade”, disse Kono. “Ao falar sobre temas LGBT, eu espero corrigir  qualquer concepção errada que alguém possa ter. Eu tento falar sobre essas questões em toda oportunidade que eu tenho”.

Mais recentemente, Mizuho expressou o seu desejo de transicionar fisicamente para se adequar a sua identidade, um fator chave para esse requerimento é o desejo dele de se casar legalmente no Japão. Em 2003, o governo criou uma lei que permite que aqueles com “disforia de identidade de gênero” façam a transição desde que não sejam casados ou tenham filhos que ainda sejam menor de idade.

Hoje com 23 anos, Mizuho já realizou a operação de remoção de seios e está atualmente recebendo tratamento hormonal. Ele agora deseja fazer a transgenitalização mas Kono ainda tem suas reservas sobre o procedimento cirúrgico invasivo.

Impedimento legal

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Hiroko Masuhara, diretora representante da Trois Couleurs (Foto: Hiroko Masuhara)

Hiroko Mauhara, diretora representante do Trois Couleurs, uma organização que oferece serviços de consultoria e treinamento sobre questões LGBT, diz que a Organização Mundial de Saúde já pediu a abolição de legislaturas que requerem a remoção de órgãos reprodutores para o reconhecimento do gênero de pessoas trans.

“As pessoas estão começando a pensar que tais leis violam os direitos humanos”, diz Masuhara, que pede que a legislação do país receba uma emenda o mais rápido possível.

Atualmente nenhuma legislação criminaliza a homossexualidade no Japão, mas a constituição especifica que o casamento deve ser entre um homem e uma mulher.

Porém, exemplos da legislação protegendo e reconhecendo os direitos de pessoas da comunidade LGBT podem ser encontradas além mar. De acordo com dados enviados pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais, 85 países e territórios ao redor do mundo oferecem alguma forma de proteção através da legislação, enquanto 47 países e territórios reconhecem o casamento ou parceria homoafetiva.

A Aliança Legislativa do Japão pela Remoção das Barreiras Sociais baseadas na Orientação Sexual e Identidade de Gênero está demandando que o governo aprove uma legislação que criminalize a discriminação baseada na orientação sexual e identidade de gênero de um indivíduo.

“Eu acredito que regras precisam ser colocadas de maneira a prevenir o assédio, bullying, discriminação e suicídio”, diz Masuhara, que também é um membro da aliança. “Além disso, nós queremos que o governo explicitamente diga que é errado discriminar (minorias sexuais). É óbvio mas necessário”.

Como filha única, Masuhara teve consciência da sua sexualidade quando tinha cerca de 10 anos de idade, mas mesmo assim sentiu a necessidade de esconder o seu interesse por mulheres.

Enquanto ela estava na faculdade, Masuhara passou um ano em Paris como intercambista. Como Matsunaka em Melbourne, ela encontrou uma tolerância na França que ela não tinha em casa.

Porém, a sua nova bolha de aceitação não durou muito. A mãe de Masuhara a visitou na capital francesa para confrontar ela sobre a sua sexualidade, e passou a maior parte do seu tempo se sentindo triste pela filha, porque acreditava que Masuhara nunca poderia ser feliz e não aceitava que a sua filha nunca iria viver a vida que ela tinha imaginado.

“Eu estava tentando viver minha própria vida, mas eu percebi que isso estava fazendo os meus pais ficarem tristes”, disse Masuhara. “Eu tinha chegado ao ponto onde eu estava pronta para seguir em frente, finalmente sentindo positiva sobre a minha vida e o fato de eu ser lésbica”.

Por quase uma década, Masuhara evitou falar sobre a sua sexualidade para outros membros da sua família.

Com o tempo, porém, ela decidiu que queria ajudar a conscientizar minorias sexuais do Japão, e então contou para os seus pais que ela desejava sair do armário publicamente.

Para a surpresa de Masuhara, os seus pais ofereceram todo o apoio para ela. Ela depois descobriu que os seus pais passaram os últimos 10 anos lendo e aprendendo sobre minorias sexuais.

“Eu estava genuinamente feliz que eles me apoiaram”, disse Masuhara. “É uma vergonha que muitas pessoas sintam a necessidade de manter em segredo a sua orientação sexual. Essas pessoas não conseguem ser verdadeiras consigo mesmas. Eu quero poder mudar isso”.

Desfrutando uma identidade

As histórias de Matsunaka, Nagata, Kono e Masuhara são as que Kee deseja ajudar a serem compartilhadas. Da mesma maneira que os pais de Masuhara aceitaram a sexualidade de sua filha, quanto mais pessoas puderem ouvir essas histórias, melhor será a situação.

Um decreto do distrito de Setagawa foi efetivado, proibindo a discriminação de pessoas LGBT e estrangeiros. Em Kunitachi, um decreto proibiu expor publicamente minorias sexuais.

Matsunaka e Kee dizem que “Out in Japan” está fazendo progresso, apresentando retratos de proeminentes personalidades que apoiam questões LGBT ao lado de membros da comunidade LGBT.

O projeto também foi exposto nas ruas de Shibuya, graças a uma parceria com a loja de departamento Marui. 250 desses retratos foram expostos nos postes como bandeiras na Rua Koen durante a semana da Parada do Orgulho.

Kee estava muito excitado com essa exposição, dizendo que ele queria os retratos fossem vistos por vários jovens transeuntes para que as histórias continuassem a ser compartilhadas e tornando a realidade mais fácil para as próximas gerações.

“Eu só quero que as pessoas aceitem uns aos outros por quem elas são”, disse Kee. “É bonito ver essas pessoas por quem elas realmente são. É o orgulho delas, a identidade delas, a vida delas. Isso é impagável”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): LGBTQ voices: Embracing progress

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