Crescer sendo Queer e muçulmana pode ser assustador. Por isso conto a minha história

Tradução do texto de Zainab originalmente postado no Them.

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Quando eu tinha 10 anos de idade, eu me lembro de ter visto a palavra “gay” pela primeira vez na minha vida. Ela estava na capa da revista Time Magazine de 2013 que nossa família recebeu pelo correio, ao lado de uma foto em preto e branco de duas mulheres se beijando. Eu me lembro de engasgar ao ver a imagem e de me sentir confusa quando a minha mãe arrancou a revista de minhas mãos. Ela estava horrorizada, como se eu estivesse segurando uma arma, e eu não conseguia entender o porquê.

Um ano depois, minha tia se assumiu lésbica. Eu não tinha a experiência pessoal ou maturidade para pensar por mim mesmo, então eu me sentia ameaçada do mesmo modo que o resto da minha família: Eu me senti traída por ela ir contra a nossa fé no Islã. Eu pensei que sentiria algum tipo de satisfação quando ela não aguentasse mais a nossa intolerância e fosse em bora de casa, mas tudo o que eu sentia era vazio. Eu não conseguia entender na época, mas todas as vezes que eu sentia raiva dela, eu sentia raiva de mim mesma. Eu estava furiosa porque eu sabia que eu era justamente como ela.

Meus pais são imigrantes paquistaneses e muçulmanos, e eles são muito religiosos. Minha mãe sempre ficou preocupada de que ao morar em um país não-muçulmano iria fazer com que nós perdêssemos a nossa fé e minha identidade, então quase toda a minha infância se passou nas escolas dominicais da mesquita, recitando o Corão, e Iftars durante o Ramadã. Eu adorava cada parte disso porque me dava um senso de identidade.

Assim como a maioria da minha família, o casamento dos meus pais foi arranjado. Eles se conheceram duas horas antes de se casarem. Eles nunca se deram muito bem, e eles nunca descreveram o casamento ou o relacionamento como algo além de um fenômeno obrigatório e biológico. Essa era a nossa cultura, e eu nunca questionei isso. Eu nunca entendi o que paixões ou namoros significavam. Eu não sabia o que significava ser amada ou amar alguém além de minha família. Eu não percebia que as borboletas que eu sentia na minha barriga quando conversava com outras meninas significava algo além de uma vontade de sermos amigas.

Sexualidade era raramente discutida na minha família. Quando a minha tia se assumiu, minha mãe descreveu as ações dela como pecaminosas e abomináveis, mas ela nunca falou mais do que isso. Como a maioria das crianças cujos pais não conversam sobre algo com elas, eu resolvi pesquisar sobre isso. Eu passei diversas noites acordada, vendo vídeos de pessoas se assumindo até meus olhos doerem. Quase todos eles eram de jovens homens brancos, e isso envolveu a minha percepção de como a comunidade LGBT era. A primeira (e, por muito tempo, a única) representação feminina queer que eu vi foi o vídeo Girls Like Girls da Hayley Kiyoko. Foi algo que eu nunca vi antes, e eu não conseguia parar de olhar. Ver duas meninas se beijando e se apaixonando me pareceu errado, e me deixava ansiosa porque eu percebia que queria aquilo também.

Quanto mais confusa eu ficava sobre a minha sexualidade, mais eu me sentia que estava deixando a minha família e minha fé de lado. Parecia muita hipocrisia minha fazer algo quando eu tinha consciência de que isso era um pecado. Na minha cabeça, a noção de que eu poderia ser queer parecia-me como admitir ser uma criminosa ou de alguma forma quebrada. Quando o tiroteio do clube Pulse aconteceu, eu me lembro de não conseguir parar de ver a cobertura dos noticiários. Eu estava presa em luto, e ninguém mais da minha família me acompanhou. Eu me lembro do meu pai me dizendo, “Ninguém merece ser morto, mas essas pessoas estão indo para o inferno de qualquer jeito”; O comentário dele me fez sentir nojo de mim mesma. Eu comecei a questionar cada uma das decisões que eu fiz e cada palavra que já tinha dito. Eu me senti angustiada de não poder falar com mais ninguém, então eu comecei a me ferir fisicamente. Eu simplesmente queria ser qualquer pessoa menos eu.

Eu tive a minha primeira paixão alguns meses depois por uma menina, e eu odiei isso. Ela era a editora do anuário de minha escola e de todas as pessoas eu sabia: tudo sobre ela exalava abertura e orgulho de quem ela era. Eu invejava a falta de reservas dela: ela era tudo o que eu sentia que nunca conseguiria ser.

Em um mês eu faria 16 anos. Crescer queer definitivamente me criou ansiedades, mas eu também percebi que não existia nada de errado comigo. Eu parei de me odiar por causa da minha sexualidade; eu aceitei que eu não poderia me mudar ou mudar quem eu amo. Dito isso, eu ainda lutava com a dificuldade de ter orgulho completamente da minha identidade. Eu não me assumi para os meus pais, e não sei se um dia irei me assumir. Eu tenho medo de desapontá-los. Cada dia que eu crescia mais perto da minha sexualidade, mais eu me afastava da minha fé, da minha cultura, e da minha família.

Eu não tenho certeza do que eu esperava sentir depois de colocar a minha história para o mundo dessa maneira. Alguém me disse que iria ser catártico e curador, mas na realidade, eu estou com muito medo. Eu tenho consciência que falar pode ter as suas consequências: até mesmo hoje, eu contemplo se ficar em silêncio não seria mais seguro, porém menos confortável. Mas então eu penso sobre a minha tia e como ela esperou até ter 40 anos para se assumir, somente para ser marginalizada por aqueles que ela ama mais. Eu penso em como uma pessoa tenha que manter em segredo quem ela realmente é por tanto tempo. A situação dela me desola muito não somente por que eu me importava com ela, mas por causa isso é muito comum. Culturalmente, crianças muçulmanas e crianças marrons queer são ensinadas a permanecer na margem e evitar de corromper o status quo ou ferirem os sentimentos dos outros. Nós raramente ouvimos histórias como a nossa porque nos ensinaram que a nossa existência é um incômodo muito grande.

Eu não posso reforçar o quanto eu precisava ouvir uma história como a minha quando era mais jovem, como eu desejava alguma afirmação de que a minha fé e minha sexualidade não se contradiziam. Eu espero que, se alguma criança muçulmana estiver lendo isso e elas estiverem questionando quem são, essa pode ser a história para ela. Eu tenho muitos medos e náuseas quando preciso falar sobre mim, mas se ajudar alguém, valerá a pena as preocupações e o desconforto.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Growing Up Queer and Muslim Can Be Terrifying. That’s Why I’m Telling My Story

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