“Eu não sou de me esconder” – Yukiya Terai demonstra orgulho na sua sexualidade e habilidade como chefe

Tradução do texto de Mai Yoshikawa originalmente postado no The Japan Times.

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Yukiya Terai exala confiança em todas as facetas da sua vida – da sua sexualidade até a chama que ele trás da cozinha.

O chef e fornecedor de alimentos de 29 anos, conhecido pela sua comida de conforto colorida que ilumina as mesas, teve as suas criações culinárias apresentadas em quase todas as grandes revistas de moda do país. Porém, os seus pratos não são a única coisa que a mídia mantém o foco.

“Ser conhecido como o chef ‘gay’ não me incomoda, mas esse sou eu. Eu não sou de me esconder”, diz Terai, cuja boa aparência e perfil público o tornou uma celebridade. Porém, ele diz que se assumir não é sempre uma resposta, e a quantidade de pessoas sofrendo em silêncio, impedidas de ser quem eles são em um Japão extremamente conservador, e a cultura de humilhação de gays não pode ser ignorada.

“Isso está no direito dessa pessoa. Se você não aceitou a sua sexualidade ou tem sentimentos negativos sobre ela, outros irão sentir isso e irão fazer você se sentir desconfortável”, ele diz. “É o mesmo ao cozinhar. Quanto mais confiante você for com a comida que você fizer, melhor ela estará”.

Terai, que publicou o seu primeiro livro de receitas em dezembro, tem mais de 26.000 seguidores no Instagram, onde ele compartilha fotos dos seus deliciosos bento que são servidos para modelos e chama a atenção de fotógrafos e maquiadores para as suas seções de fotos.

O seu menu criativo, que ele marca como “Yukiya meshi” (refeições de Yukiya) é apenas uma dos trabalhos que ele tem. Apesar de ter um segundo livro sendo preparado e planos de abrir um restaurante, ele ainda cozinha dentro de sua pequena cozinha dentro de sua casa.

Ali, a mente culinária mora com o seu parceiro, o fotógrafo Tsukasa Nakagawa, e sua mãe, que ele contratou como sua assistente.

Terai e Nakagawa foram um dos primeiros casais a receberem o certificado de parceria homoafetiva do distrito de Setagaya em Tóquio, em novembro de 2015, parte de um momento histórico no Japão depois que o distrito vizinho de Shibuya começou a distribuir certificados de parceria em março do mesmo ano.

Os documentos que autentificam os votos de parceria tecnicamente não tem valor legal e não existe apoio de que empresas e imobiliárias reconheçam esses documentos como comprovantes de união. Mas Terai diz que deveriam existir alguns benefícios.

“O certificado somente afirma que o prefeito de Setagaya reconhece o nosso relacionamento. Não é nada oficial. Mas ele fala ao mundo que você é sério, passando pelo trabalho (assinando papéis de aplicação)”, Terai diz. “Por exemplo, é difícil para dois homens alugarem um apartamento juntos no Japão por causa de toda a checagem de histórico que os vendedores fazem. Mas o nosso senhoril nos olhou na internet, viu a nossa visibilidade na mídia e nos deu permissão”.

Originário de Hokkaido e criado em Kagoshima por uma mãe solteira que trabalhou longas horas para oferecer tudo para a família, Terai diz que aprendeu o básico de culinária com o seu avô, que tinha um pensionato. Ele nunca estudou culinária, mas diz que a sua falta de conhecimento foi uma vantagem, ajudando ele a pensar fora da caixa.

Devido a sua natureza instável e livre, Terai disse que ele e o seu parceiro, que ele encontrou pelo Facebook, tiveram diversas brigas antes de entrarem com o pedido de parceria e realizarem uma cerimônia de casamento.

Enquanto Terai não hesitou em se assumir para a sua mãe quando, ainda adolescente, ele começou a entender que ele se sentia atraído por homens, Nakagawa esperou até o seu parceiro o convencer a se assumir para os seus pais. Mas, não é algo que Terai recomendaria para os outros.

Enquanto a mãe de Terai disse que “já sabia” quando ele se assumiu, a reação dos pais de Nakagawa foi mais ou menos o que ele esperava, lembrando-o porque ele ficou escondido por tanto tempo.

“Eu nunca enfrentei negação ou discriminação, mas acho que eu sou uma exceção. Eu sempre tive uma personalidade mandona então ninguém dizia nada na minha cara. Mas o meu parceiro sofreu bullying, então dessa maneira nós somos diferentes”, disse Terai. “Mas eu assegurei que nós ficaremos bem. Eu disse que nós não precisamos de pessoas que não nos aceitam em nossa vida”.

Olhando para o dia que eles jogaram essa informação aos pais de Nakagawa, Terai disse que eles precisavam de tempo para se recuperar do choque inicial e descrença, então a reação deles não foi uma surpresa.

As pessoas tem medo do desconhecido, ele conta.

“Eles nos rejeitaram porque eles não sabiam. Não só de pessoas LGBT, mas de todos que são diferentes deles. Você tem que fazer um esforço para fazer que essas pessoas entendam”, explica Terai. “Se, depois que eles entendam, ele dizem ‘não obrigado’, tudo bem. Mas eu não posso suportar pessoas que dizem ‘não’ sem antes nos conhecer”.

Depois do choque inicial passou, o casal explicou aos pais de Nakagawa sobre a cultura LGBT, respondendo suas perguntas, como se o filho deles veste roupas femininas por exemplo.

A revelação da sexualidade do seu filho trouxe a família mais próxima e, felizmente, tudo ficou bem. Hoje os pais estão felizes em ver como eles estão lutando pela mudança social em escala nacional.

“Hoje eles entendem que nós não estamos fazendo algo vergonhoso e eles se orgulham de nós. Eles amam que a nossa história tem sido apresentado em materiais didáticos”, diz Terai.

Ainda assim, dentro da cozinha e fora no mundo real, a aventura agridoce de Terai somente começou. Ele continua a oferecer apoio para a legalização do casamento homoafetivo no Japão, dizendo que casais homossexuais merecem ter o direito de sonhar em um relacionamento de sucesso, e ele um dia sonha em poder se tornar pai.

Ele espera que ao abrir um restaurante e contratar uma equipe ele se veja livre de descascar, cortar, amassar e outras obrigações da cozinha para que ele possa pensar na sua carreira em outra direção.

“Ano passado eu estava confuso sobre a razão da vida, e se eu realmente devia estar cozinhando”, ele conta. “Mas agora é mais claro. Minhas habilidades na cozinha são as minhas armas e eu me declaro um chefe de cozinha, mas eu também sou um mensageiro. Minha missão a longo prazo é diminuir a distância entre produtores e consumidores, e para isso, ajuda muito ser famoso. Enquanto eu ainda sou jovem, eu tenho que agir”.

Como ele já aprendeu a lidar com o stress de ser uma minoria sexual no Japão, apesar do país gradualmente se tornar mais aberto, Terai diz que ele não se preocupa sobre os obstáculos que podem surgir no seu caminho.

Pesquisas recentes sugerem que cerca de 8%, 1 em cada 13 pessoas, estão dentro da comunidade LGBT.

“Se eu vejo pessoas que discriminam, eu quero puxar elas de lado e conversar com elas. Eu sou assim. Não sou do tipo de fugir de conflitos. Eu luto. Eu quero que eles mudem também”, ele conta.

“Eu sei de amigos que ainda estão dentro do armário, mas o meu conselho para eles é esse: espere até você estar pronto. Não existe necessidade de contar para familiares e amigos se você não está preparado. Se eles observarem qualquer brecha, eles vão tentar te persuadir a se tornar ‘normal'”.

“Quando você conta para eles quem você é e quem você ama, mais pessoas irão se abrir e assumir. Eu sei disso por experiência própria”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): ‘I’m not one to hide’: Yukiya Terai shows pride in both his sexuality and his skill as a chef

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