A longa batalha dos ativistas LGBT do Sri Lanka

Tradução do texto de Rosanna Flamer-Caldera originalmente postado no The Economic Times.

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Quando eu acordei na manhã do dia seis de Setembro de 2018, eu pensei que estava indo enfrentar outro dia monótomo em Colombo. Notícias boas são sempre poucas e ainda mais raras quando se tratam de direitos LGBT. Então apareceu uma notícia da Índia, explodindo as manchetes, a alegria das vozes dos ativistas – esse era um momento para celebrar, e também um momento para refletir. Ao retirar a Seção 377, a Índia fez algo que deveria ter sido feito há muitos anos atrás. Mas, melhor tarde do que nunca. Eu não poderia aplaudir mais os ativistas da Índia. Congratular não me parece suficiente. Simplesmente não parece o suficiente. Tem sido uma longa e árdua caminhada para a comunidade LGBT da Índia, já que elas viveram sobre a opressão de uma lei da era colonial que criminalizou e marginalizou eles por séculos. Eu não acredito que isso foi uma jornada fácil, já que eu caminho na mesma estrada pela descriminalização da homossexualidade no Sri Lanka, e que me coloca como uma cidadã de terceira classe. Ser LGBT nunca foi fácil para ninguém no Sri Lanka. Quando eu comecei a Equal Ground em 2004 e declarei a nossa intenção de lutar contra políticas e leis discriminatórias, eu ouvi de vários membros da comunidade que eu não tinha o direito de desestabilizar a situação e tornar a vida deles mais complicadas. Afinal de contas, eles tinham vidas secretas e estavam felizes de viver nas sombras, por toda a vida. Mas isso não era o que eu queria para mim ou para a comunidade LGBT local. Eu percebi o quão erradas essas políticas e leis estavam erradas, como elas ferem vidas, como elas descriminam e violam pessoas e deixam elas marginalizadas.

Sair do armário

A época em que me assumi não foram os melhores da minha vida. Como uma adolescente no Sri Lanka, eu estava sofrendo em aceitar aquilo que eu já suspeitava a anos. Nessa época, não existiam políticas de conciliação, nenhuma organização para me apoiar, nenhuma internet com toda a sua informação – nada. Eu não tinha ninguém para me apoiar. Eu não queria pensar que eu era “diferente”, eu estava horrorizada que eu poderia ser “um deles”.

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Eu imigrei para os Estados Unidos quando eu tinha 18 anos porque eu sabia que eu não poderia ficar no Sri Lanka como eu me sentia. Foi lá que eu me assumi para a minha prima Chutti. Ela tinha imigrado para São Francisco quando tinha oito anos e eu conhecia ela desde essa época. Ela era uma grande militante lésbica da época. Ela me perguntou claramente: “Você é lésbica?”, e eu gaguejei “Eu não sei”. “Certo”, ela disse e me levou para o Maud’s, um bar lésbico no distrito de HaightAshbury em São Francisco. No momento que eu entrei no bar eu soube que estava em casa.

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E então teve Milk. Pulando três anos pra frente, eu estava na minha primeira Parada do Orgulho de São Francisco. Na sua frente estava Harvey Milk, eleito para o Conselho Supervisor de São Francisco no ano anterior, e já estava causando grandes ondas de mudanças na California. Eu me lembro do dia que ele morreu como se fosse ontem. Eu me lembro como triste nós estávamos, seguido pelos sentimentos de desalento, raiva e dor. Eu estava na vigia por Harvey e pelo prefeito George Moscone.

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Harvey Milk, o primeiro oficial eleito abertamente gay da California, sentado do lado de fora da sua loja de câmeras no dia 9 de novembro de 1977
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Rebecca Moscone é consolada por amigas, depois de saber que o seu pai, o prefeito de São Francisco George Moscone, e Milk morreram em um tiroteio na prefeitura no dia 27 de novembro de 1978.
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Marcha em honra a Moscone e Milk.

Com apenas algumas balas, Dan White deixou São Francisco chocada, silenciada e sem dois aliados políticos importantes que fizeram muito pela comunidade LGBT durante a sua vida. Isso deixou a comunidade LGBT desolada em um mar tempestuoso. O legado de Moscone, apesar de apagado pelo de Milk, é importante por ter apoiado Milk e foi conhecido como o “prefeito do povo”, abrindo a prefeitura para todas as formas de diversidade. Milk e sua luta por igualdade deixaram uma marca no meu coração e alma. Ele era eloquente, ele falava do coração e não tinha medo. Ele abriu as portas para a comunidade gay e formou uma importante rede de aliados. Eu me lembro da famosa campanha de cerveja Coors que Harvey participou. Os sindicatos pediram por uma greve geral da cerveja Coors por causa das suas políticas discriminatórias e Milk trabalhou incansavelmente para que os bares gay de São Francisco e de todo os Estados Unidos para pararem de servir Coors. Isso funcionou. Foram coisas como essa que fizeram as pessoas sentarem e ouvirem o que Milk tinha a dizer.

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Protesto contra a cerveja Coors em Denver em Abril de 1977. A união de Teamsters chamou por uma greve geral por causa da suas políticas discriminatórias e Harvey Milk trabalhou incansavelmente para que bares gays de São Francisco parassem de servir Coors.

Apesar de não estar envolvida no ativismo como estou hoje, eu fiz a minha parte participando das vigílias e dos protestos pelos direitos LGBT em São Francisco.

Estar fora do armário e com orgulhoso era tudo, e a rua Castro era a nossa Village, bairro gay de Nova York – Eu nunca me senti fora de lugar. Quando eu voltei para o Sri Lanka não era porque eu queria ser uma ativista dos direitos LGBT. Eu sentia falta dos meus pais, dos meus amigos, do meu país; eu estava com saudades. Depois de 15 anos morando nos Estados Unidos, voltar pra casa foi um verdadeiro choque para o meu sistema assim como foi quando eu imigrei para os Estados Unidos e fui exposta a uma sociedade aberta, particularmente São Francisco, onde a paz e o amor prevaleciam, onde protestos contra a guerra e pela liberação gay aconteceram.

Voltar para a minha terra natal foi um momento decisivo na minha vida. Eu rapidamente percebi que Colombo não era São Francisco.

Eu não sabia que ser homossexual era uma ofensa criminal. Eu não tinha percebido que pessoas LGBT eram diariamente assediadas, os seus direitos violados, os seus corpos e mentes machucados e sua liberdade tomada de suas mãos. Conforme o cenário político do Sri Lanka foi se tornando cada vez mais conservados, conforme as mortes da guerra civil aumentavam, eu vi o meu país afundar em um buraco negro que engolia todos com o tempo. Meu caminho tinha mudado e o meu ativismo LGBT tinha começado, de uma maneira pequena e inocente.

Mas eu logo achei o meu caminho. Eu ajudei o Grupo de Apoio às Mulheres (WSG) em 1999, uma organização de mulheres lésbicas e bissexuais e homens trans. Em 2004, eu decidi me afastar da WSG e formar uma organização que começou como uma organização de advogados que lutam pela descriminalização de atividades homossexuais consensuais no Sri Lanka. Antes, em 1995, uma tentativa foi feita para a descriminalização, que acabou dando errado e começou a incluir mulheres também nessa lei.

Minha experiência com a Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais (ILGA) por sete anos – no painel de representação de mulheres da Ásia por dois anos e como co-secretária geral de 2003 e 2008 – abriu os meus olhos para as diversas plataformas que teríamos que alcançar durante a nossa batalha contra a discriminação. Eu agora tenho uma cadeira na Rede de Igualdade do Commonwealth que é a única organização LGBT credenciada do Commonwealth – o que é um progresso. Lutar contra a discriminação dentro do Commonwealth não é fácil, considerando que muitos países ainda criminalizam a homossexualidade. Mas no ano de 2018 tivemos a descriminalização acontecendo em Trinidad e Tobago e na Índia, tornando o relacionamento homossexual consentido legal em 37 países participantes do Commonwealth, faltando ainda 15 outros. Iremos conseguir conquistar isso? Eu acredito que sim. Existiram muitas batalhas, muitas perdas e poucas vitórias que marcaram o nosso progresso nesses anos. E sim, é um progresso. Se pudéssemos imaginar o tipo de adversidade que enfrentamos diariamente, seria uma tarefa fenomenal até se levantar da cama.

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O festival do Orgulho em Port of Spain, Trinidad.

Maas nós nos levantamos, colocamos as nossas botas e nos preparamos para as batalhas do dia. Os sacrifícios que fazemos todos os dias são muitos mas invisíveis para a maioria. Pergunte para os ativistas da Índia que tem lutado essa batalha para a descriminalização por quase 15 anos. Pergunte para Jason Jones, um homem gay de Trinidad e Tobago que lutou contra a lei criminal arcaica e ganhou. Pergunte para Caleb Orozco que fez o mesmo em Belize e também ganhou.

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Jason Jones de Trinidad e Tobago, que lutou contra a lei criminal arcaica de seu país e ganhou.

Essas são apenas algumas de muitas batalhas. Não foi fácil, e parecia que iriamos perder todas as esperanças, foi cheia de pedras e lombadas, mas no final todos dizem – valeu a pena. Essa decisão incentivou a comunidade LGBT e os seus aliados na Índia e no mundo. Nos deu esperança, uma luz no final do túnel de que um dia nós também iremos celebrar aqui no Sri Lanka a descriminalização. Na minha mente isso irá acontecer. Tem que acontecer. Nós estamos nos fortalecendo cada vez mais.

Mudanças, na maioria das vezes, vem lentamente. Se os políticos do Sri Lanka pensam que eles podem continuar a ignorar as questões de mais de 19% da população baseado em leis arcaicas e práticas culturais inventadas, eles estão muito enganados. Nós não iremos desistir da luta, não aqui, nem em nenhum lugar.

Parabéns para a Índia! Outro passo gigante para a humanidade – nós aplaudimos vocês. E para todos os ativistas que colocam a sua cabeça e alma nessa questão – a jornada pode ser solitária e turbulenta. Seja forte. Vocês são nossos heróis.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): A long & hard battle of a Sri Lankan activist for gay rights 

Presidente do Sri Lanka é severamente criticado por comentários homofóbicos

Reflexão de Vardaan Arora sobre a descriminalização da homossexualidade: Meu coração bate de entusiasmo

Removendo barreiras para a comunidade LGBT do Sri Lanka

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