Mulheres muçulmanas queer refletem sobre fé e sexualidade

Tradução do texto de Zainab originalmente postado no Them.

______________________________

Ser uma jovem mulher muçulmana na sociedade contemporânea pode ser muitas vezes uma experiência difícil, mas se você é queer, a pressão é ainda mais alta. Mulheres muçulmanas Queer são os membros mais vulneráveis dentro dessa fé, mas mesmo assim elas acabam sendo invisibilizadas dentro da comunidade queer. Muitas enfrentam assédio e marginalização tanto da sociedade como de pessoas LGBT, significando que elas sofrem um duplo ataque de isolação dentro de duas comunidades que supostamente deveriam abraçá-las. É um peso psicológico muito grande para ser carregado além do risco de discriminação que elas já enfrentam.

Tendo em vista o Ramadã, nós perguntamos para cinco jovens mulheres muçulmanas queer sobre fé e sexualidade. Enquanto a maioria preferiu permanecer anônima, cada história apresentam a importância de reconhecer e aceitar essas mulheres queer dentro tanto da comunidade LGBT como na comunidade islâmica, e reconhecer as dificuldades que elas encontram dentro dessas comunidades.

N

Como uma mulher muçulmana bissexual que ainda está dentro do armário, a vida nunca é o que parece. Nas atividades sociais e religiosas, eu me sinto fora de lugar. Ser a pessoa mais diversa em uma sala me trás sentimentos ruins. Eu amo a minha sexualidade e sei que ela é válida, eu só gostaria que a minha família pudesse me entender.

Eu não posso mudar, mesmo se eu quisesse. Eu não posso esconder ou reprimir os meus sentimentos sem causar algum tipo de dano. Amor é a chave, mas somente é a chave quando ela segue as regras de outras pessoas? O que eu sempre me lembro é que Allah é o único que pode me julgar, e quem realmente sabe que eu sou dese jeito. Nem a minha família ou meus colegas irão entender isso. Talvez nem eu entenda, mas eu amo a minha sexualidade. Eu me amo. Eu amo mulheres assim como eu amo homens. Amor é simplesmente amor. Ele não discrimina, ele somente trás alegria.

Y

Assim como qualquer outra pessoa, a minha identidade social – minha fé no Islã, minha mulheridade, raça, etnicidade – determina como a sociedade me trata. Como se espera, não é “fácil” ser uma adolescente marrom de hijab morando no sul dos Estados Unidos. Então é de se imaginar a hiper-vigilância que acompanha o fato de eu também ser queer e dentro do armário.

Se apaixonar tem sido um dos grandes desafios da minha existência; ela evoca os sentimentos mais gratificantes e os mais terríveis simultaneamente. Todos os momentos eu penso nos jogos entre minhas identidades. Afinal, tanto membros da comunidade LGBT e da comunidade muçulmana afirmam que a minha intersecção é paradoxal. Todos os dias da minha vida eu questiono: Eu tenho que escolher um? Se o amor é meu “pecado” eu posso ser punida como uma assassina? Amor é um pecado?

Quando você é uma muçulmana, bengali, e queer, todo ato de amor é visto como uma rebelião; é essencialmente uma questão de escolher amar Allah, amar a cultura desi, ou amar a minha parceira. Eu posso nunca entender isso, mas espero algum dia acreditar que eles não são mutualmente excludentes.

L

Eu me assumi para amigos próximos quando eu tinha 19 anos de idade, que foi um pouco mais tarde do que outros amigos. Eu acredito que isso foi por causa da falta de representatividade muçulmana queer. Quando eu me assumi, eu fui a primeira muçulmana queer que eles conheciam.

Eu tenho quatro irmãos mais velhos, e minha mãe é uma muçulmana palestina muito religiosa que lê o Corão todos os dias e veste o hijab. Contar para a minha mãe que eu sou queer não é uma opção. Não porque eu tenho medo da minha segurança, mas é algo que eu sei que ela nunca poderá compreender. A mentalidade “não pergunte, não conte” é muito forte na comunidade muçulmana e algumas vezes as visões dela se alinham com a minha. Dito isso, eu me assumi para as minhas duas irmãs mais velhas alguns meses atrás, o que me fez ter muito orgulho de mim mesma.

Independente da minha sexualidade, eu irei continuar a me identificar como muçulmana e defender a minha comunidade contra os preconceitos e atos de terror que tentam endemoniar a existência de muçulmanos. Eu gostaria que a comunidade LGBT levanta-se a voz contra a islamofobia mais frequentemente e fosse mais inclusiva na sua representação. Eu questiono se isso teria me ajudado a empoderar e a abraçar toda a minha identidade  quando eu era mais jovem.

Anônima

Quando você é uma mulher de hijab, existem muitos requisitos que forçam e você só por causa da sua escolha de se cobrir. Sendo uma mulher bissexual de hijab é tão difícil porque algumas vezes eu tenho que escolher entre a minha fé e minha sexualidade. Islã como fé não é homofóbica, mas a cultura onde eu cresci certamente é.

Minha primeira namorada também usava o hijab, e era muito difícil ficarmos juntas. Um dia nós estaríamos de mãos dadas, mas no seguinte, fingíamos odiar uma a outra para que ninguém questionasse o nosso relacionamento. Quando eu me assumi para um primo, ele contou para um dos meus irmãos. Eu tentei negar, mas quando eles descobriram a verdade me disseram que eu não era mais a irmã deles. Isso me destruiu. Algumas horas depois, eu tentei suicídio.

Mulheres queer de hijab as vezes podem se sentir uma abominação por serem queer, e não ajuda que muitas pessoas queer sejam islamofóbicas. Eu gostaria que a comunidade queer e a comunidade islâmica pudessem entender que muçulmanos queer existem. Eles não entendem que fazemos de tudo para sermos aceitos e como nós não conseguimos falar por nos sentirmos inseguros. Um não cancela o outro – ambos me trazem orgulho. E somente gostaria de ser aceita.

Amal Amer

Eu acredito no meu corpo. Como uma mulher de hijab, eu fui ensinada a guardar tudo, mas eu guardei como sagrado. Então quando eu senti desejos por uma menina, eu sabia como confiar no meu corpo. Eu nunca tive uma crise em decidir como eu poderia ser muçulmana e queer, porque eu tenho certeza que sou as duas coisas. Quando eu lia os comentários de que não podemos ser queer e muçulmana ao mesmo tempo, eu rio. Como alguém pode negar o próprio trabalho de Allah?

Eu mudo, como um camaleão, do hijab para a drag queen para a minha masculinidade feminina de todo o tempo. Enquanto a minha representação de gênero muda diariamente, a minha identidade de gênero é não-binária. Anjos no Islã são agêneros, e eles me ajudaram a visualizar e validar a minha própria identidade. Eu os desenho constantemente e imagino eles me apoiando e me guiando por aquilo que defino como minha sexualidade. Eu sinto que eles suspirassem pra mim “você pode fazer isso Habibi” desde que eu era criança. O meu anjo da guarda não são somente aqueles que não vemos, mas todos os outros muçulmanos queer que tocaram a minha vida. Eu acredito que a verdadeira cura acontece quando estamos juntos e estou ao lado das minhas irmãs marrons e negras e colegas não-binários.

______________________________

Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Queer Muslim Women Reflect On Navigating Their Faith and Sexuality

A história gay secreta do Islã

Queer demais para ser muçulmana, muçulmana demais para ser queer

A história de uma muçulmana lésbica: família, aceitação e relacionamentos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: