Como é ser gay na Mongólia

Tradução do texto de Jack Ganbaatar originalmente postado no Gay Star News.

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Meu nome é Dorjjantsan mas meus amigos me chamam de Jack. Eu tenho 26 anos e eu nasci na parte ocidental da Mongólia. Meus pais eram criadores de animais quando eu era criança. Eu cresci em uma tribo nômade até os cinco anos, quando eu entrei no jardim de infância.

Meus pais e eu nos mudamos para a maior cidade da Mongólia, Ulaanbaatar, quando eu tinha cerca de nove anos. Eu morei lá por 17 anos.

Eu não consigo me lembrar exatamente quando eu entendi a minha sexualidade: eu não acho que eu sabia o que era ser gay ou que a homossexualidade existia até os 13 anos. Até então, eu acho que eu estava ignorando os meus sentimentos porque eu não sabia que era possível para um menino se sentir atraído por outros meninos.

Aprendendo sobre sexualidade pela internet

Aos 13 anos, eu fui apresentado para a internet e comecei a descobrir coisas sobre mim mesmo. Para mim, aceitar os meus sentimentos não era um problema, mas eu senti que deveria esconder eles por causa das atitudes da sociedade – e isso era difícil.

Eu odiava sofrer bullying quando eu estava no colegial. Eu sabia que estava sofrendo assédio por ser gay, mas eu nunca me odiei. Nesse sentido, eu me considero um dos sortudos. Criado em 2007, o Centro LGBT da Mongólia, oficialmente registrado em 2009, foi um dos lugares que me inspirou pela paixão e coragem das pessoas que lá trabalhavam.

Eu ainda me lembro de um programa de entrevista que recebeu os organizadores do centro. Eles conversaram sobre questões LGBT pela primeira vez na televisão nacional em 2009. Naquela época eu estava no colegial. Aquele programa mudou completamente a minha vida.

Eu não tinha modelos para seguir quando era jovem, até eu conhecer aqueles ativistas. Especialmente aqueles que trabalhavam no Centro LGBT. Nós ainda não temos nenhum artista ou celebridades assumidas. Apesar da nossa comunidade ter alcançado visibilidade na indústria da moda recentemente. Nós temos diversas figuras trans que estão ajudando a mudar as perspectivas na sociedade.

Estigma diário e discriminação

A mídia local não é uma aliada da comunidade LGBT. As questões da comunidade LGBT são normalmente apresentadas de uma maneira negativa. Ações em prol da comunidade LGBT da Mongólia ainda são um desafio. Nós sofremos aqui diariamente por causa de estigmas e discriminação.

A maioria das pessoas LGBT ainda permanecem dentro do armário por causa do medo de perder os seus empregos ou serem vítimas de algum crime de ódio. Desde que o Centro LGBT abriu, aconteceram grandes mudanças.

Graças às ações e trabalho duro do centro, a Mongólia se tornou um dos primeiros países asiáticos a incluir a orientação sexual e as identidades de gênero como características protegidas em seu novo código criminal de 2017.

Apesar do movimento LGBT ser relativamente novo na Mongolia, a sociedade está mudando muito rápido. As gerações mais novas começaram a ter vidas mais abertas, orgulhosas e visíveis – particularmente nas redes sociais. Isso aumenta mais ainda a visibilidade de pessoas LGBT.

Se assumindo para amigos e familiares

A primeira pessoa que eu me abri foi o meu melhor amigo. Eu me assumi para ele depois que nos formamos no colegial em 2011. Ele me apoio e me aceitou por quem eu sou. Sua reação aumentou a minha confiança.

Então, eu encontrei o meu primeiro namorado em 2014 quando eu tinha 21 anos, e eu me assumi para todos os meus amigos do colegial naquele ano, assim como para a minha irmã. Eles reagiram bem e eu não sofri nenhuma rejeição.

Eu finalmente me assumi para o meu pai em 2017 e tudo foi bem. Porém, ele pediu para que eu não contasse para a minha mãe. Ele me prometeu que ele mesmo contaria. Ele disse que ele poderia ajudar ela a entender quando fosse o tempo certo, mas eu não sei quando isso acontecerá. Então eu me assumi para todos com exceção da minha mãe.

As vezes me parece engraçado que eu trabalhe no Centro LGBT, comecei a lutar pelos direitos LGBT da Mongolia e morei com o meu ex-namorado por quatro anos e minha mãe ainda pense que eu seja hétero. Quando eu conto para outras pessoas sobre a minha mãe, eles dizem “sua mãe sabe”. E eu acho que eles estão certos: ela sabe.

Muitos na Mongólia permanecem dentro do armário

Apesar das mudanças, muitas pessoas LGBT ainda enfrentam algum tipo de opressões aqui: desde impedimento de acesso a serviços públicos até crime de ódio. Para a juventude LGBT e adolescentes, bullying é um dos maiores problemas.

Para a comunidade trans, desemprego é um dos maiores problemas que elas enfrentam, junto com acesso à serviços de saúde. Ainda existem casos de serviços públicos que se negam a atender pessoas LGBT, incluindo atendimentos médicos e julgamentos justos.

Desde que a maioria dos membros da comunidade LGBT permanecem dentro do armário, eu acredito que isolação e solidão também são grandes problemas.

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Jack Ganbaatar diz que poucos homens mongóis usam as suas próprias fotos em aplicativos de namoro (Foto: Gonto Erdeneburen)

Encontrando um namoro e usuários anônimos do Grindr

Eu parei de me esconder há muito tempo. Eu estou rodeado por pessoas de mente aberta e todos os meus amigos me aceitam. Mas quando o assunto é namoro, é muito difícil.

Desde que meu último relacionamento terminou, encontrar um namoro tem sido muito difícil. Na Mongólia, se você é assumido, não existem muitos gays que vão querer ser vistos com você.

Quando você abre um aplicativo gay como o Grindr, por exemplo, você não encontrará nenhuma pessoa que estará usando a sua própria foto para se identificar. Quando eles me reconhecem como o homem que trabalha no Centro LGBT ou descobrem que eu sou uma pessoa assumida, eles imediatamente me bloqueiam.

Já que eu odeio me esconder, eu sou assumido on-line e na vida real. Mas eu não encontrei ninguém que queira me namorar desde que eu terminei com o meu ex-namorado. Eu me sinto triste, não porque eu não consigo encontrar um namoro, mas porque muitas pessoas ainda vivem com medo e não conseguem desfrutar a beleza da vida.

Olhando para o futuro

Para mim, a chave para a chave para dominar os sentimentos negativos é a auto-aceitação. Uma vez que você se aceita, você começa a se amar e isso irá levar ao orgulho de quem você é. Se alguém ainda está com medo de ser conhecido como LGBT pelos outros, isso significa que eles provavelmente tem vergonha de si mesmos.

Eu me formei na Universidade Nacional da Mongólia de Ciências Médicas no ano passado e eu tenho trabalhado no Centro LGBT como responsável pelo programa de saúde nos últimos quatro anos. Os ativistas LGBT que eu tive a chance de trabalhar junto me inspiraram muito, e eu quero continuar a lutar pela igualdade na Mongólia.

Eu irei sair da Mongólia para estudar para o meu mestrado na Austrália. Porém, assim que eu terminar o meu mestrado, eu pretendo retornar e continuar a trabalhar no Centro e contribuir para o movimento LGBT da Mongólia.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Growing up gay in Mongolia

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