Kovid Kapoor do Project Runway fala sobre transformar opressão em liberdade

Tradução do texto de David Reddish originalmente postado no Queerty.

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A vida de Kovid Kapoor foi transformada.

Nascido em um vilarejo himalaio, ele cresceu se mudando por diversos estados da Índia, sempre fascinado pela beleza e moda. Ele começou a estudar design no prestigioso Instituto Nacional de Tecnologia da Moda, Hyderabad. Dali, ele se mudou para os Estados Unidos, junto com o seu namorado, para estudar na Academia de Arte da Universidade de São Francisco.

Hoje com 29 anos, ele ganhou uma proeminência internacional pela sua participação no reality Porject Runway. Os seus desenhos tem provado serem polarizantes, angariando igualmente aclamações e criticismos. Entretanto, ele construiu um grupo leal de fãs para a sua inconvencional mistura de elementos da moda ocidental e indiana.

Kapoor conversou com o Queerty  sobre as suas ambições e sua nova celebridade.

Queerty: Você está recebendo bastante atenção. Como você está se sentindo depois de toda a experiência com o Project Runway?

Kovid Kapoor: Meu Deus, é incrível. Desde o primeiro dia, até o final, eu estou sentindo todas as energias positivas. Eu sou muito grato pelo Project Runway por ter me dado a plataforma para, você sabe, me expressar e mostrar quem eu sou, e mostrar também o meu talento. Eu estou sentindo todas as boas energias nesse momento.

Q.: Incrível. O que mais te surpreendeu até agora?

K.K.: Eu acho que, passando por isso, eu tive uma grande concepção errada sobre os programas de reality. Eu achei que seria muito vulgar e um pouco opressivo.

Q.: Claro.

K.K.: Participando do programa, eu descobri que isso não era verdade. Eles investem em saber quem você é como ser humano, e eles te dão uma expressão muito autêntica de quem você é. Então, o Project Runway, a Bravo, tem literalmente me ajudado a me livrar dessas concepções erradas sobre os programas de reality. E eu estou muito feliz com isso. Eu estou muito grato.

Q.: E você já desenvolveu uma grande base de fãs. As pessoas já estão chamando você de a grande descoberta dessa temporada. Eu não sei se você está ciente disso, mas é isso que estão falando.

K.K.:  Muito obrigado… (A voz dele treme, visivelmente chorando. Ele fez uma pausa) Eu fiquei realmente emocionado pensando nisso. Isso me deixa incrivelmente feliz.

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(Foto: Karolina Wojtasik/Bravo)

Q.: Sua biografia é incrível. Você é o segundo designer indiano a aparecer no programa. Essa é uma grande responsabilidade?

K.K.: É uma grande responsabilidade porque eu acho que toda vez que um participante vem de outro país, eu sempre sinto que recebe essa plataforma, e eu quero compartilhar as questões que estão acontecendo ao redor do mundo. Então sim, eu sinto que é uma grande responsabilidade, e eu espero cumprir bem com ela. Eu realmente quero que todos saibam que existem lugares ao redor do mundo onde a opressão é imensa. No meu pais, a seção 377 que criminalizava a homossexualidade foi tirada dos livros da lei em setembro de 2018.

Q.: Sim.

K.K.: E nós ainda temos uma longa caminhada em termos de aceitação cultural de pessoas LGBT e assimilá-los no espaço de trabalho. Só integrando eles na vida normal. Eu acho que nesse sentido, se eu não digo nada, se eu não represento isso, eu sinto que eu não estou sendo verdadeiro comigo mesmo. Eu não estou sendo honesto comigo mesmo. Eu só quero ter certeza que eu represento a minha nação, mas eu também quero conversar sobre o que está acontecendo lá. E eu acredito que eu estou habilitado a fazer isso.

Q.: Eu sei que você saiu do armário quando você ainda morava na Índia. Quantos anos você tinha?

K.K.: Eu tinha cerca de 20, 21 anos. Eu tinha acabado de fazer 21 anos e eu estava morando junto com o meu namorado. Nós estávamos fazendo todas essas coisas juntos. Nós eramos membros da comunidade. Eu tinha um emprego. Ele também. Não tinha razão para nós sermos vistos como algo danoso para a sociedade. Porém, nós tivemos um problema onde a polícia foi chamada contra nós, e isso mudou a minha percepção de como a sociedade nos via. Antes disso, eu sabia que eu devia ser quieto sobre algumas coisas. Mas quando isso aconteceu, eu sinceramente senti que queria liberdade. Eu somente queria encontrar um lugar onde eu poderia ser eu mesmo.

Q.: Isso é compreensível.

K.K.: Mas, ao passar dos anos, eu acho que meu namorado e eu passamos por tantos problemas juntos. Então eu acho que o nosso relacionamento cresceu muito por causa disso.

Q.: Como você conheceu o seu namorado?

K.K.: Nós tínhamos 20 anos e tinha esse site gay… (Risadas)

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(Foto: Barbara Nitke/Bravo)

Q.: Isso é maravilhoso.

K.K.: É quase uma marca registrada para todas as pessoas gays ao redor do mundo.

Q.: Os seus designs tem uma estético mista, combinando os estilos tradicionais indianos e tibetanos com designs ocidentais. Como você encontra o balanço certo?

K.K.: Eu acho, que para mim, não existe uma fórmula. A ideia é conseguir uma expressão tátil de até então emoções abstratas. Quando eu estou fazendo os designs. Eu somente estou sentindo algo. Eu tenho uma imagem mental, e eu tenho referências. Essa última coleção que eu estou trabalhando é somente eu passeando com minha mãe pelo Himalaia, olhando pelas flores de primavera. Você sabe aquele sentimento de quando a primavera está de volta? Quando as deusas da primavera abrem as flores? Eu estou simplesmente evocar esses sentimentos nas roupas. Porque como eu estou estudando moda por tanto tempo, eu acho que acabamos virando extremamente técnicos com a nossa arte.

Q.: Em que sentido?

K.K.: Você aprendeu a história das cores, te ensinaram sobre construção. Eu sempre tento superar as convenções. Ela deve sempre conduzir para alguma coisa diferente. Então, como um designer, isso é o que eu quero. Ela vem de narrativas. Com o meu design, eu quero celebrar as mulheres. Com tanta opressão cultural, eu acredito que mulheres no meu país estão lutando contra isso. E nós tivemos mulheres incríveis que lutaram contra a cultura do ódio para poderem se levantar. Eu acho que o meu trabalho celebra essas coisas. Existem tantas mulheres incríveis na história que podem nos inspirar, e suas ideologias que podem ser incorporadas em nosso trabalho. E é daí que todas as referências criativas estão vindo. O que eles dizem é mais importante do que as referências visuais para mim porque isso me faz começar a sentir. Isso prepara toda a ideia.

Q.: Você também disse que suas roupas são como armaduras para as modelos. Quais elementos você integra ao seu design que evoca esse sentimento?

K.K.: Eu me especializei em jaquetas porque elas são algo que sempre me lembraram de armaduras. Ela te protege de tudo de fora. Uma boa jaqueta irá ficar com você para sempre. Isso é um elemento. Além disso, eu estou sempre pensando: “vamos quebrar a silhueta de algo” e tentando forçar algo novo. Então toda vez que eu olho para o corpo humano, eu estou tentando ver outro tipo de forma e combinar ela com um certo senso de funcionalidade. Por exemplo, a referência pode ser a do episódio 3, o design pós-apocalítico. É uma coisa que eu realmente gostei de fazer. Também é um expressão de mim como pessoa porque eu sinto que eu tenho um nicho, mas eu não posso ser encapsulado. É um bom exemplo do que eu estou tentando fazer: pensar sobre o corpo de uma forma completamente diferente. Eu também tento fazer com que minhas roupas empoderem as mulheres. Você irá me ver sempre desafiando os limites das silhuetas porque para ser inteligente, para ser funcional, para conseguir sair para as ruas é muito mais crucial do que “é simplesmente bonito”. Então eu tento oferecer isso com os meus designs.

Q.: Onde você encontra inspiração?

K.K.: Em todos os lugares. A vida me coloca no sentimento criativo. Está em todo lugar. Eu simplesmente pego todas as minhas emoções e as expresso nos meus designs.

Q.: Quais são os seus planos para a sua carreira depois do programa?

K.K.: Eu tenho a minha coleção que eu irei lançar no fim desse mês. Eu estou tão excitado sobre isso. Ela estará disponível na Kovid-Koo.com. Eu tenho um projeto secreto de instalação que irá ser lançado no meio do ano. Ao mesmo tempo, nós estamos entrando em contato com alfaiates e lojas on-line para que os nossos produtos estejam mais disponíveis para as pessoas.

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