Porque descriminalizar a homossexualidade na Índia não foi uma ideia ocidental

Tradução do texto de Vikas Pandley originalmente postado na BBC News.

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A descriminalização da homossexualidade foi com certeza uma das maiores notícias de 2018 na Índia.

Então, não foi nenhuma surpresa que isso tenha se tornado em um grande tópico de debate em quase todas as partes de Delhi.

O consenso comum foi que a decisão da Suprema Corte de derrubar a lei da era colonial colocou o país mais próximo de adotar ideais ocidentais de liberalismo na Índia.

“Nós estamos iguais a países como o Reino Unido, França e outras nações europeias onde a homossexualidade não é crime”, anunciou um amigo meu de maneira excitada.

“Nós somos como o ocidente em questões relacionadas a comunidade LGBT”.

Discussões similares tomaram as redes sociais, onde muitos concordavam com esse ponto de vista.

Mas isso é verdade?

Historiadores e especialistas em mitologia indiana tem visões diferentes sobre o assunto.

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O grande historiador Harbans Mukhia afirma que é necessário conhecer a história da Índia para entender porque os britânicos criminalizaram a homossexualidade.

“Os britânicos trouxeram as suas próprias leis para a Índia, incluindo a seção 377 que bania a homossexualidade e a tornava em um ato criminal. Essa lei foi aplicada por eles mas não concordava com a atitude indiana em relação a homossexualidade. Tinha relação com o sistema de crenças cristãs deles”, ele afirma.

Ele afirma que a decisão da corte puxou a Índia de volta para as suas raízes.

Outros especialistas também acreditam que a Índia tinha uma atitude mais aberta para a homossexualidade e existem diversas evidências disso na mitologia e história clássica do país.

A historiadora Rana Safvi diz que “o amor era celebrado na Índia de todas formas”.

“Seja na Índia antiga ou medieval, sexualidade fluida estava presente na sociedade. É possível ver a representação da homoafetividade em templos do Khajuraho e nas crônicas Mughal”, ela disse.

O exemplo mais vívido pode ser vido na cidade de Khajuraho do estado central de Madhya Pradesh.

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O complexo do templo foi construído entre 950 e 1050 pela dinastia Chandela. As esculturas eróticas no templo representam vividamente a homossexualidade. Artes sacras similares também podem ser vistas no Templo do Sol de Konark no século XII no estado de Orissa, e em cavernas monásticas budistas de Ajanta e Ellora no estado de Maharashtra.

O mitólogo Devdutt Patnaik explicou em diversos momentos a presença e aceitação da homossexualidade no Hinduísmo.

“O termo homossexualidade e as leis proibindo o sexo ‘inatural’ foram impostos ao redor do mundo através do poder imperial. Apesar de terem exercido poderosas influências em atitudes subsequentes, eles não eram nem universais nem atemporais. Elas eram – tenhamos em mente – produtos de mentes que estavam profundamente influenciadas pela ideia de que ‘sexo é pecado’ da bíblia cristã”, ele escreveu em um artigo em seu website.

“Com a típica condescendência colonial, as definições, leis, teorias e atitudes européias completamente ignoravam como atividades sexuais semelhantes eram percebidas em outras culturas”.

Ele acredita que a criminalização da homossexualidade foi um conceito completamente extrangeiro.

“Uma análise das imagens de templos, narrativas sagradas e escrituras religiosas sugerem que atividades homoafetivas – de alguma forma – existiam na Índia antiga. Apesar de não fazerem parte da cultura central, a sua existência era reconhecida mas não aprovada”, ele escreve.

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O professor Mukhia diz que livros e escrituras de tempos medievais também sugerem que a homossexualidade não era menosprezada.

“Existia uma desaprovação da homossexualidade mas pessoas LGBT não eram ostracizadas. A sociedade era tolerante e ninguém era perseguido por ser homossexual”.

“O filho de Alauddin Khalji, Mubarak, era conhecido por estar em um relacionamento com um homem da nobreza de sua corte”, ele continua. Khaji regeu o sultanado de Delhi entre 1296 e 1316.

Babur, que fundou a dinastia Mughal que regeu a maioria do que hoje é a Índia e o Paquistão nos séculos XVI e XVII, também escreveu sobre o seu amor por outro homem.

“Ele escreveu, sem nenhum sentimento de vergonha, que estava apaixonado por um menino chamado Baburi. Não houve desaprovação sobre a sua escrita na época ou até mesmo depois”, comenta o professor Mukhia.

Historiadores também acreditam que a visão conservadora da Índia sobre a homossexualidade começou com o Raj britânico e se fortaleceu depois da independência.

O professor Mukhia adiciona que a seção 377 permaneceu em vigor depois da independência da Índia em 1947 por causa da “nossa ignorância sobre nossa própria história e a apatia dos políticos”.

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Keshav Suri, o proprietário de uma rede de hotéis e proeminente ativista LGBT, acredita que os jovens precisam se educar sobre a história LGBT do país.

“Eu não aprendi na escola sobre Khajuraho e a presença de personagens LGBT em nossa mitologia. Isso tem que mudar. Pessoas trans foram consideradas deuses e deusas. Eles eram grandes poetas, artistas e até mesmo administradores em tempos medievais”, ele conta.

Ele adiciona que jovens precisam saber que nós eramos uma sociedade muito mais aberta e tolerante no passado.

O professor Mukhia concorda.

“Em 2018, nós recuperamos o que nós perdermos durante o período colonial – uma atitude mais aberta para a comunidade LGBT”.

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Matéria original (Em inglês): Why legalising gay sex in India is not a Western idea

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