Pensando na intolerância existente contra a comunidade LGBT na Coréia do Sul

Tradução do texto de Crystal Tai originalmente postado no South China Morning Post.

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Ano passado, Incheon, a segunda maior cidade porteira da Coréia do Sul, realizou o seu primeiro evento da Parada do Orgulho. E tudo acabou de maneira violenta, porém, quando mais de mil manifestantes anti-LGBT, incluindo grupos cristãos, verbalmente e fisicamente fizeram os 300 participantes da parada recuarem. O evento duraria apenas 20 minutos mas se prolongou por horas por causa do conflito.

Desde 2003, a homossexualidade não foi mais classificada como “danosa e obscena” na Coréia do Sul, mas a discriminação contra a comunidade continua amplamente enraizada. Enquanto que a comissão nacional de direitos humanos determina que indivíduos não podem ser discriminados por causa da sua orientação sexual, membros da comunidade LGBT apontam que existe pouca proteção para eles nas suas vidas diárias.

“Pessas LGBT formam uma sociedade escondida na Coréia”, disse Natalie, uma mulher queer em torno dos seus 30 anos que teve o seu nome alterado para proteger a sua identidade. “Nós sabemos que existimos mas é muito difícil que sejamos aceitos como membros da sociedade. As pessoas acham que é uma deficiência ou um transtorno mental; mesmo que especialistas médicos tenham dito que não, muitos coreanos ainda pensam assim”.

No Coréia do Sul, membros da comunidade LGBT normalmente se referem a si mesmos como i-ban-in ou “cidadãos de segunda classe”, um jogo de palavras com o termo para “pessoa normal”. Muitos ainda permanecem dentro do armário para proteger os seus trabalhos e suas relações sociais.

Em uma pesquisa de 2017 realizada pela comissão nacional de direitos humanos, 92,6% das pessoas LGBT entrevistadas disse que elas se preocupavam em se tornar alvo de crimes de ódio. Uma pesquisa da Gallup Korea realizada no mesmo ano descobriu que 58% dos coreanos era contra o casamento igualitário, enquanto que 34% apoiava a ideia, e 8% não conseguiu opinar.

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Sul coreanos LGBT assumidos encontram dificuldades de se encaixar na sociedade por causa das conservadoras e tradicionais normas de gênero. (Foto: Reuters)

“Se alguém revela que é gay no ambiente de trabalho, eles não são demitidos mas normalmente sofrem bullying. As pessoas não irão conversar com elas, ou colegas de trabalho podem se ficar estranhos ao seu redor, então os relacionamentos se tornam desconfortáveis”, disse Natalie. Ela disse que lésbicas tem maiores dificuldades, devido a desigualdade de gênero do país: “Primeiro porque são homossexuais, depois por serem mulheres”.

Para pessoas LGBT assumidas no país, se encaixar tem se tornado muito difícil por causa das conservadoras e tradicionais normas de gênero – particularmente em uma nação onde todos os homens entre 18 e 35 anos devem servir dois anos de serviço militar compulsório. Um homem coreano, que pediu para não ser identificado, disse que os militares abertamente discriminam pessoas não-binárias. “Quando eu compareci para a orientação no começo dos anos 2000, tinha uma mulher de pé ao lado de um oficial de alto escalão. Ela estava chorando e eu presumi que ela a namorada de alguém que estava se alistando. Na realidade ela era uma das poucas mulheres trans assumidas da época, e foi convocada para servir ao exército. O oficial estava dando um sermão para ela na frente de todos nós dizendo coisas como “Agora o que vamos fazer com você? Como você vive dessa forma?”. Ele não sabe o que aconteceu depois com ela.

Nos últimos anos, o exército da Coréia do Sul tem sido acusado de perseguir e expor cadetes gays, mesmo criando perfis falsos para encontrar soldados gays, de acordo com o Centro Militar de Direitos Humanos da Coréia. Soldados podem ser punidos por “conduta desonrosa”, um termo usado para se referir a homossexualidade, e podem ser presos por até dois ano de acordo com a Human Rights Watch.

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Muitas pessoas coreanas trans só conseguem trabalhos de baixa renda que não necessitam de carteira de identidade para evitar a discriminação. (Foto: AFP)

Enquanto pessoas coreanas trans podem ser o seu gênero legalmente alterado e a maioria pode ser dispensada do serviço militar, elas ainda sofrem muito na sociedade. “É muito difícil para pessoas trans encontrarem emprego porque existem padrões do que são trabalhos de homens e trabalhos de mulher”, conta Natalie. “Se você não tem passabilidade feminina, você não consegue trabalhos definidos como femininos. As suas chances se reduzem drasticamente”.

Muitas coreanas trans só conseguem trabalhos que não exigem o cartão de identidade, evitando assim a discriminação, como trabalho em fábricas ou outros de baixa remuneração, afirmou uma advogada trans em um relatório feito para o Kyunghyang Shinmun.

Apesar de ser um dos maiores centros de cirurgia plástica, a Coréia do Sul não tem oferece muitas cirurgias de transgenitalização, de acordo com Joy Kang, o chefe executivo do serviço de turismo médico Eunogo. “A Coréia tem uma grande tendência de tratamento de pele e cirurgias de plástica facial. Eu não acho que cirurgias de transgenitalização são algo que o governo queira promover”, disse Kang.

Dr. Kim Seok-kwun do hospital da Universidade de Dong-a é um especialista na cirurgia de transgenitalização na Coréia do Sul. Ele conta que apesar da população trans do país – estimada entre 1.000 e 1.200 pessoas – não tenha crescido muito nas últimas décadas, a idade dos pacientes que o procuram tem ficado cada vez mais jovem.

“A maioria das pessoas que se submetem a cirurgia costumava estar nos seus trinta anos, ou até nos seus 40 ou 50 anos, mas agora muitos adolescentes e pessoas nos seus vinte anos entram com pedidos de cirurgia”, disse Kim, complementando que aqueles que ainda são menores de idade recebem o consentimento dos pais ou comparecem com eles nas consultas, mostrando a mudança do sul coreanos mais velhos.

Natalie acredita que a aceitação está lentamente aumentando. “Mais famílias estavam presentes na Parada de Incheon, isso foi impressionante”, ela disse. “Coreanos trans e suas mães compareceram… nós precisamos mudar os pensamentos da geração dos nossos pais”.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): Why is South Korea so intolerant of its gay community?

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