Ian Alexander explica porque não existe desculpa para Hollywood não contratar atores trans

Tradução do texto de Michael Cuby originalmente postado no Them.

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Na aclamada série da Netflix The OA, a auto-entitulada “Anjo Original” recruta um grupo de estudantes do ensino médio para um misterioso projeto. Na medida que ela conta para os seus novos amigos histórias sobre suas conquistas no passado, o show também cria focos na vida de seus jovens recrutas – que são todos, como ela, incompreendidos tanto pelos seus pais como pelos seus colegas. Um dos estudantes, Buck Vu, se identifica como um homem trans, e que descobre que sua identidade de gênero é difícil de se encaixar na escola e até mesmo mais difícil de se encaixar em sua casa, onde os seus pais ainda se referem a ele pelo seu nome de registro.

Quase quatro anos atrás, o jovem Ian Alexander de 17 anos ouviu sobre o papel de Buck através de uma chamada aberta de elenco postada no Tumblr. “Eu não tinha experiência profissional de atuação, nem produtor ou qualquer coisa” ele se lembra. “Mas a chamada era especificamente para um ator trans de ascendência asiática entre 14 a 15 anos, sem requisitos de experiência, e eu pensei, ‘bem, isso tudo se aplica a mim, então eu devo pelo menos tentar'”. Depois de enviar uma fita para os criadores do programa, Zal Batmanglij e Brit Marling, Alexander recebeu a oferta do papel. E ele provou estar a altura da tarefa, ele interpreta o reservado Buck com uma gentiliza natural.

Depois de três anos depois da primeira temporada de The OA ter ganhado a internet, o programa finalmente lançou a sua segunda temporada na Netflix. Ian Alexander volta como uma versão mais velha e inteligente de Buck, mas o jovem ator ainda interpreta um segundo papel como Michelle, uma nova personagem cujo desaparecimento é um dos mistérios centrais da temporada.

Com o lançamento da temporada, a them. entrou em contato com Alexander sobre a conexão entre os dois personagens, a evolução da representação de pessoas trans em Hollywood, e porque ele não consegue parar de pensar em novas teorias da conspiração para esse show. Abaixo, assista ao trailer da segunda temporada de The OA.

Aviso: A entrevista terá spoilers da primeira e segunda temporada de The OA

Them.: The OA foi o seu primeiro trabalho de atuação. Como foi ter um personagem emocionalmente complexo logo de cara?

Ian Alexander: Eu realmente me conectei com o Buck. Tantos aspectos da sua vida são iguais a minha – ele está soterrado pela culpa e tristeza, e ele é um personagem muito quieto e reservado, mas também muito forte e pronto para proteger os seus amigos.

Foi um desafio porque eu nunca estive na frente das câmeras ou em um estúdio de filmagem antes, e teve um período de adaptação até eu me acostumar com isso. As pessoas estão observando cada passo seu, encarando silenciosamente enquanto você tenta fazer a performance. É extremamente tenso. Mas eu espero que as pessoas percebam a diferença na minha habilidade de atuação entre a parte um e a parte dois. Eu coloquei tudo que pude dessa vez e tinha mais noção do que estava fazendo. Eu posso assistir isso e ficar orgulhoso do meu trabalho.

T.: Além de atuar como Buck na segunda temporada, você também interpretará Michelle, que existe em uma dimensão diferente onde ele ainda não começou a transição. Como você conectou essas duas identidades?

I.A.:  Foi interessante interpretar dois papéis diferentes. No caso de Buck, ele definitivamente tem um passado pré-transição. Todas as pessoas trans tem esse passado, e eu acho que Michelle é tipo a ressurreição do passado de Buck. Foi surreal colocar uma peruca e aquelas roupas que eu não tinha vestido nos últimos três ou quatro anos. Mas eu não tive problemas com isso porque, de alguma forma, eu estava vestindo essa fantasia por toda a minha vida. Colocar aquilo novamente, eu já estava acostumado com aquilo. Era que eu era antes e eu não quero negar essa parte da minha história ou da minha identidade. Eu acho, que de alguma forma, Michelle está meio que no escuro enquanto que Buck está caminhando para a luz. Essa é uma metáfora muito vaga, mas faz sentido. Buck é um personagem muito esperançoso e radiante. Sim, ele está tecnicamente triste, mas ainda existe uma energia radiante de felicidade, amor e calor. Mas Michelle está tão distante e você sabe tão pouco dela, que ela mais parece uma memória, um passado.

T.: Na outra dimensão, outro personagem, Rachel, visita Buck através do seu espelho em busca de ajuda. Você tem alguma teoria de porque ela buscou o Buck, especificamente?

I.A.: Eu não sei se existe uma resposta exata no roteiro porque é sempre muito vago. A maneira que eu interpretei foi porque Buck é muito empático e é possível que ele poderia ser considerado um médium. Mas eu não tenho a resposta exata. Outra teoria que eu tive foi que Buck e Rachel estão conectados pelas suas vozes porque ambos cantam. Talvez seja essa conexão entre eles que permita que ela se comunique com ele. Eu estou estudando os roteiros e fazendo todos os tipos de teorias da conspiração. Eu mergulhei na toca do coelho!

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Foto: Scott Patrick Green/Netflix

T.: Isso é tudo o que você pode fazer sobre esse show! Você tem alguma opinião sobre o sobrenatural, em geral? Ter trabalhado em The OA mudou a maneira de como você encara a vida após a morte ou coisas do gênero?

I.A.: Eu tenho esse sentimento de que existem universos paralelos como em The OA com a teoria de “multiversos”. O universo é tão grande! E também, tempo é relativo. Eu acho que existe uma teoria de Einstein de que o tempo é na realidade uma força gravitacional, e é possível que esses universos possam estar dividindo e divergindo. Eu acho isso muito legal.

O programa definitivamente mudou a maneira como eu olho para a minha vida. Assim como a vida após a morte, eu me consideraria agnóstico sobre isso. Eu realmente não me importo sobre o que irá acontecer. Eu somente estou tentando focar no presente. Se houver consequências, eu irei lidar com elas no futuro. Mas talvez eu somente desapareça no nada para sempre.

T.: Você recentemente participou do filme Todo Dia, onde você interpretou um personagem não binário. É incrível que estejamos vendo atores trans interpretando esses papéis, mas é lógico que ainda existe muito trabalho a ser feito. Como você acha que Hollywood poderia ser mais proativo na busca de atores apropriados para esses papéis?

I.A.: Existem dois lados para essa questão. Existe o lado onde atores cis não podem realmente interpretar um personagem que é trans, porque eles nunca tiveram a experiência de disforia de gênero. Eles nunca tiveram uma questão emocional, e como você extrai muito das suas experiências como ator, eles nunca iriam conseguir fazer isso com precisão.

Mas também, não é assim tão difícil encontrar atores trans! Você pode simplesmente fazer o que The OA fez e colocar uma chamada de elenco aberta para as pessoas responderem. Eu acredito que houve 400 respostas para a chamada do programa. E está aumentando todos os dias! Eu estou percebendo mais oportunidades para papéis trans, e quando eu vou para esses testes de elencos, eu vejo mais e mais pessoas trans. É incrível. Eu quero ver pessoas trans em todos os lugares da indústria cinematográfica. Atrás das câmeras, na frente delas, na sala de roteiristas – em todos os lugares, porque pessoas trans estão em todos os lugares.

T. : Você já falou sobre como ver outras pessoas trans-masculinas na internet te ajudaram a entender a sua própria identidade de gênero. Agora que você é uma figura pública, como você se sente sabendo que existem outras pessoas em situações semelhantes que olham para você da mesma maneira? 

I.A.:  Eu sou eternamento grato ao programa por ter me dado a habilidade de alcançar  esses jovens, ou talvez até mesmo pessoas mais velhas que tem alguém em sua vida para se espelhar. Isso me orgulha todas vezes que eu recebo uma mensagem ou vejo um comentário que diz, “Eu me assumi por causa do Ian Alexander” ou “Eu vi o Ian Alexander e percebi que eu era trans”. Isso aquece o meu coração. É simplesmente um sentimento ótimo ser capaz de ajudar as pessoas. Era tudo o que eu queria na minha vida.

T.: Em um ensaio pessoal da Huffington Post, você falou sobre como o set de The OA foi o primeiro lugar onde a sua mãe reconheceu abertamente a sua identidade de gênero. O programa sempre terá um espaço especial no seu coração por causa disso? 

I.A.:  Com certeza. Eu sei que muitas pessoas dizem “Meus colegas são meus irmãos! Somos todos família!” Mas eu chamo os meus amigos de OA de minha família porque é realmente a verdade. Todos que eu conheci através do The OA me aceitaram. Logo de cara, não houve questionamentos: eles sabiam que meu nome era Ian e eles sabiam que o meu pronome era ele. Se eu não tivesse tido essa experiência, eu não sei como eu teria continuado com o ensino médio, porque eu estava realmente sofrendo nessa época. Meus pais tiveram um processo difícil quando eu me assumi para eles. Nós filmamos a primeira temporada um ano ou talvez alguns meses depois que eu me assumi, e foi a primeira vez que eu ouvi a minha mãe me chamando de Ian. Eu senti o meu coração palpitar. Depois de algumas semanas, isso ficou natural para ela. Eu acho que ela não tentou me chamar dessa maneira porque ela estava com medo. O programa mudou a minha relação com a minha mãe. Eu sempre serei grato para o The OA por ter me dado isso.

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Links relacionados: The OA’s Ian Alexander Explains Why Hollywood Has No Excuse Not to Cast Trans Actors

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