Como Gregg Araki produziu a sua comédia tão sonhada sobre millenial queers

Tradução do texto de Michael Cuby originalmente postado no Them.

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“Eu sempre quis fazer algo surreal, meio que como Twin Peaks”, diz Gregg Araki sobre a sua nova série, Now Apocalypse, que estreou dia 17 de março no canal STARZ. O diretor, conhecido pelos filmes Mistério da Carne e Geração Maldita, criou o seriado junto com Karley Sciortino da Slutever, citando ele como “uma das melhores experiências criativas que eu já tive”.

Now Apocalypse conta a história de Ulysses (Avan Jorgia), um maconheiro gay nos seus 20 anos que passa o seu tempo se divertindo no seu trabalho como segurança, ficando extremamente alterado com o seu vape, e tentando criar sentido nas estranhas visões que ele tem sobre misteriosas criaturas alienígenas que rondam uma versão estilizada de Los Angeles. Assim como muitos homens gays da área metropolitana, ele está buscando um “relacionamento real” mas não se importa de ficar com estranhos no meio tempo. Ele também gosta de falar sobre os seus encontros com os seus amigos: Carly (Kelli Berglund), uma aspirante a atriz e modelo de web-cam, e Ford (Beau Mirchoff), um delirante escrito cuja riqueza da sua família e boa aparência (um “estados-unidense estilo Abercrombie” nas palavras de Araki) o levam muito mais longe do que o seu “talento”.

Banhado em riqueza, saturado em cores, Now Apocalypse é exatamente o que você esperaria de uma comédia sexual de Millenials feita por Gregg Araki. Os diálogos são hilários, a performance perfeita, e o retrato dos jovens adultos como sonhadores sem propósito com um apetite sexual desinibido é perfeitamente relacionável. As várias cenas de sexo são picantes – pelo menos, quando elas tem essa intenção. Mesmo se o seriado não tenha nada particularmente grandioso a dizer sobre a mente humana, é agradável de se ver, transportando a sensação de um filme de baixa renda sobre maconheiros para a televisão a cabo.

Them. conversou com Araki pelo telefone sobre a sua longa jornada para a televisão, escrevendo histórias sexo-positivas antes de qualquer outra pessoa, e porque muitos de seus usuários são usuários de maconha.

Aviso: Spoilers leve a seguir.

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Them.: De onde surgiu a ideia para Now Apocalypse?

Gregg Araki: Eu queria fazer um programa para a televisão por vinte anos. Eu produzi filmes independentes por 25 ou 30 anos, e eu vim brincando com a ideia de fazer algo para a televisão há muito tempo – eu sempre fui secretamente fascinado pela televisão. Mas nos últimos anos, eu consegui dirigir episódios de  programas de outras pessoas – como Riverdale, 13 Reasons Why, e American Crime – e ter trabalhado com todos esse incríveis produtores, eu ficava “Deus. Criar e produzir um show é muito trabalho”. Eles literalmente nunca dormiam. Eu pensei que a única maneira que valeria a pena era fazer algo que fosse meu sonho, algo que fosse o que eu sempre quis. Então, há alguns anos atrás, eu comecei a pensar “se eu conseguir fazer o meu programa favorito, o que seria?”

Eu sempre quis fazer algo surreal, como o Twin Peaks. Então eu comecei a pensar sobre essa história e ela começou a germinar. Na mesma época, eu conheci Karley Sciortino e nós realmente nos demos bem. Eu chamei Karley e perguntei se ela gostaria de escrever o show comigo. Nós escrevemos, e era exatamente o que eu gostaria que o show fosse, e se fosse muito esquisito ou muito louco para ser produzido, então tudo bem. Eu não gostaria de fazer uma versão diluída. Mas eu mostrei para Greg Jacobs, que eu trabalhei junto em Red Oaks, e ele adorou. Ele tem uma parceria com Steven Soderberg, que tem uma coneção com a STARZ, e isso aconteceu meio que da noite pro dia. Os astros se alinharam. Eu simplesmente recebi carta branca para fazer o que eu quisesse.

T: Sua visão da vida moderna millenial é exata, particularmente sobre a fluidez sexual. Como você consegue entrar na mente das pessoas em seus 20 anos?

GA: É engraçado. Karley e eu tínhamos acabado de voltar de Sundance com o elenco, e quando nós tivemos a premier, ela comentou, “Eu assisti Nowhere quando eu tinha 19 anos e ela explodiu a minha mente. Foi uma grande influência para mim, esse mundo de liberdade sexual”.

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T: Eu senti o mesmo sobre a primeira vez que eu assisti Kaboom no Ensino Médio.

GA: Exatamente! E é engraçado porque o mundo meio que correu atrás desses filmes assim por dizer. Fluidez sexual existia nos anos 90, mas não era tão conhecida e visível como nos dias de hoje. Existe uma fala no episódio três onde Carly diz: “Bem, eu sou uma millenial. Fluidez sexual é um requerimento”. Essa atitude em específica é relativamente nova. Mas escrever esses personagens não é difícil para mim porque é onde a minha mente sempre esteve. Eles realmente dialogam comigo de uma maneira muito forte.

T: Você também aborda o lado ruim do sexo também. Existe uma linha sobre assédio, que é bastante relevante para as discussões do dia de hoje sobre o #MeToo, consentimento, abuso de poder, e muito mais.

GA: Existem muitas observações ali em termos de coisas que eu realmente vi em Hollywood. Como eu disse, esse é o show dos meus sonhos, então eu tive a oportunidade de colocar nele muitas coisas pessoais – coisas que eu vi ao passar dos anos, coisas que eu sempre quis colocar em um filme. Tipo, o personagem Barnabas é baseado em diversas pessoas que eu me encontrei na vida. Eu não diria que esse show é autobiográfico, mas definitivamente ele foi “vivido”.

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T: Eu acho engraçado que Ford, o único personagem central que é um homem branco hétero, é quase cartunesco, enquanto todos os outros são bem realistas.

GA: Beau Mirchoff fez um trabalho fantástico na interpretação de Ford. Ele é tão engraçado, mas ao mesmo tempo, ele é tão desolador. Eu acho que a jornada dele acabou sendo mais emocional do que eu pensava que seria. Você realmente acaba tendo sentimentos por ele pela maneira como ele é levado a um relacionamento não-monógamo porque ele ama demais a sua namorada. Eu também amo o quão próximo ele é de Uly. É tão bom como esse homem queer e seu amigo hétero podem se relacionar. Eu acho que Beau e Avan fizeram um ótimo trabalho na interpretação dessa relação.

T: Além de criar uma das comédias de drogados mais influentes de todos os tempos com Smiley Face, muito da sua filmografia apresenta a maconha. Isso continua em Now Apocalypse, com Uly se questionando se as suas visões são somente efeito de “fumar maconha demais”. Você queria que esse programa tivesse a vibe de uma comédia de drogados?

GA: É engraçado. Eu não tinha percebido o quanto esse seriado tinha de filmes de drogados, tipo, quanta maconha tinha nele? Isso foi algo que eu mais percebi quando eu vi todos os episódios juntos. Mas Smiley Face é definitivamente uma grande influência. Eu sempre fui interessado no surrealismo e esse tipo de estilização e realidade elevada, e as partes psicodélicas e alucinógenas do programa são uma parte tão importante de todo o universo de Now Apocalypse que simplesmente tudo se encaixa – Uly fumando maconha toda hora e não tendo certeza do que é real ou não. Também, ela acontece em Los Angeles, lugar onde a fantasia se mistura com a realidade. As coisas nem sempre parecem reais aqui. Elas parecem bastante surreais e as vezes você não sabe o que está acontecendo.

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T: Antes, você disse ter colocado todas as ideias possíveis nesse programa. Você deixou alguma coisa para uma possível segunda temporada?

GA: Eu estava falando para Karley, “Esse programa é tão louco, quem sabe se nós teremos uma segunda temporada!”. Mas a STARZ amou e eles estão apoiando o projeto. Eles já pediram para escrever a segunda temporada. Nós ainda não recebemos a aprovação, mas nós estamos no processo de escrita.

A questão é que muitos dessas comédias sexuais de millenials como Girls ou Insecure ficam sem conteúdo muito rápido. Todos dormem com todos, todos traem todos, todos terminam o relacionamento com todos, e então eles saem da história, e é tipo, “ó… nós só estamos na metade da segunda temporada”. Mas o universo de Now Apocalypse é tão grande e louco e imprevisível que a história poderia continuar para sempre. Essa é a beleza de aliens e teorias da conspiração e sonhos e a parte Twin Peaks de David Lynch. Ela vai para outro nível. As configurações do programa realmente colocam que as possibilidades estão realmente abertas. Então eu realmente espero que tenhamos uma segunda temporada porque ela seria dez vezes mais louca que a primeira.

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Links relacionados:

Matéria original (Em inglês): How Gregg Araki Made the Queer, Millennial, Stoner Sex Comedy Show of His Dreams

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